Bush monta fórum para se esquivar da culpa por crise econômica

DeWayne Wickham
USA Today
Em Washington (EUA)

Quando mais imagens vejo do presidente Bush, no fórum econômico que ele organizou no Texas, mais eu penso em Foxy Woxy.

Foxy Woxy é a raposa astuta que tentou devorar a galinha Chicken Little. Grande parte dos norte-americanos ouviu essa estória quando era criança. Uma castanha caiu na cabeça de Chicken Little quando ela andava pela floresta, fazendo com que pensasse que o céu estava caindo. A galinha começou a correr pela floresta, cacarejando o alarme, e vários animais se juntaram a ela. Finalmente, o grupo cruzou o caminho de Foxy Woxy, que convidou a todos para a sua toca.

O carnívoro sagaz fingiu ser amigo do grupo, quando, na verdade, era o seu predador.

É claro que Chicken Little estava errada. O céu não estava caindo. Mas, para os milhões de norte-americanos que perderam os seus empregos ou observaram impotentes a desintegração das suas reservas para a aposentadoria, o céu, de fato, despencava sobre suas cabeças.

Ansioso para se furtar de qualquer responsabilidade pelos problemas econômicos da nação, Bush convidou para a sua reunião em Waco um grupo composto de pequenos empresários, grandes executivos e pessoas cujas vidas foram prejudicadas pela abalada economia. Mas, embora o presidente tenha feito um bom trabalho no sentido de se solidarizar com a aflição dos presentes, ele não apresentou soluções para o problema.

Ao invés disso, Bush circulou pelas sessões do fórum distribuindo apertos de mãos, tapinhas nas costas e beijos no rosto das mulheres. Ele riu quando a conversa foi leve e fez caretas quando pessoas falaram do sofrimento que lhes foi imposto pela crise econômica. E, é claro, posou para muitas fotos. Mas, o mais importante foi que ele se esquivou da culpa pelo desastre econômico.

Quando Bush assumiu a presidência, em janeiro de 2001, ele herdou um superávit de orçamento de US$ 230 bilhões e a mais longa fase de prosperidade econômica da história do país. Mas, ao invés de utilizar a conjuntura favorável como alicerce construtivo para o seu governo, ele preferiu torrar o dinheiro. Apenas dois anos após ele ter se mudado para a Casa Branca o orçamento federal entrou no vermelho.

É verdade que os ataques terroristas do ano passado e a resposta militar foram responsáveis pela dissipação de parte do superávit que Bill Clinton passou para Bush. Mas também responsáveis pela queima das reservas foram o corte de US$ 1,3 trilhão em impostos que Bush empurrou pela goela do Congresso nas suas primeiras semanas na presidência e o sistema de defesa anti-mísseis que está desenvolvendo. E, à medida que o orçamento federal passava do superávit para o déficit, regido pela batuta de Bush, a economia da nação começou a entrar em parafuso.

Embora não fosse justo culpar o presidente pelo colapso da Enrom ou pelas caríssimas traquinagens de executivos gananciosos, dá para se afirmar que a sua administração pouco fez de concreto no sentido de impedir que a economia fosse abalada. O fórum econômico montado por Bush foi uma oportunidade para se tirar algumas fotos e apresentar um show de retórica, que deu aos participantes uma chance de se expressar e a Bush um canal para se esquivar da culpa pelo mau período econômico enfrentado pelos Estados Unidos.

Durante a maior parte do último quarto de século, os republicanos se auto-intitularam os melhores timoneiros da economia do país. Durante a campanha presidencial de 1980, Ronald Reagan perguntou aos eleitores: "Atualmente, a situação de vocês é melhor do que há quatro anos?". Muita gente respondeu a tal pergunta votando pela retirada do presidente Jimmy Carter da Casa Branca. Mas, no decorrer dos 12 anos seguintes, Reagan e o seu sucessor, Bush pai, fizeram com que a nação afundasse ainda mais em dívidas.

Foi sob a administração de Clinton que a economia voltou a se aquecer e o déficit federal foi eliminado. Durante três anos consecutivos da presidência de Clinton, de 1998 a 2000, o governo federal registrou superávits de orçamento. Da última vez que isso acontecera, quem estava na Casa Branca era Harry Truman, um outro democrata.

"É óbvio que temos alguns problemas a discutir", disse Bush no fórum. "Mas uma questão que não precisa ser discutida é o caráter fundamental do país. O povo norte-americano é forte e resistente".

Isso não passa de conversa fiada.

O que vai realmente definir o fórum econômico, montado pelo presidente para escamotear a maneira sofrível como tem gerenciado a economia dos Estados Unidos, vai ser aquilo que Bush deixou de falar -- e não a retórica vazia que balbuciou.

O presidente não apresentou idéias concretas sobre como tirar o país da recessão, reduzir o desemprego e resgatar a confiança do investidor no mercado de ações. Tudo o que ele apresentou aos convidados foi a promessa de que tempos melhores virão -- de forma bem semelhante àquela como Foxy Woxy procurou afastar os temores de Chicken Little's.

Tradução: Danilo Fonseca

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