Especialistas afirmam que os EUA são uma "sociedade de obesos"

Nanci Hellmich
USA Today

O especialista internacional em obesidade, Philip James, participou recentemente de uma reunião sobre redução de peso, nos Estados Unidos. Na ocasião, ele disse aos vários pesquisadores norte-americanos, em tom de brincadeira: "Por favor, não promovam mudanças. Vocês contam com um ambiente perfeito para tornar todo mundo obeso e diabético. O resto do mundo só precisa olhar para este país para saber exatamente o que não se deve fazer".

James não acha que a obesidade seja motivo de risos, mas ele acredita que milhões de norte-americanos continuarão a lutar para perder peso, a menos que o ambiente onde vivem mude drasticamente.

E ele deve saber o que diz. James é presidente da Força Tarefa Internacional Contra a Obesidade, uma organização sem fins lucrativos que combate a obesidade em todo o globo. O especialista britânico em nutrição viaja pelo mundo falando com autoridades elaboradoras de políticas públicas sobre maneiras de conter a epidemia de obesidade.

Ele é um dos palestrantes que deve falar na próxima semana em um encontro de especialistas em obesidade em São Paulo, no Brasil. James está também trabalhando nas recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre nutrição e atividade física, que em breve serão lançadas.

Em todo o mundo, mais de um bilhão de pessoas estão acima do peso, e dessas, 300 milhões são obesas, segundo a Força Tarefa Internacional Contra a Obesidade. Cerca de 61% da população norte-americana, ou mais de 120 milhões de pessoas, está ou acima do peso ou obesa, segundo estatísticas governamentais. A obesidade é definida como um peso cerca de 14 quilos acima do máximo recomendado.

James afirma que a obesidade é o maior problema reversível de saúde no mundo. Ela aumenta o risco de cardiopatias, diabetes, pressão alta, derrame e vários tipos de cânceres e artrites.

A obesidade infantil em todo o mundo é especialmente perturbadora, e os Estados Unidos são um dos países onde este problema é mais grave.

"Estamos presenciando uma catástrofe surpreendente com um aumento da diabetes do tipo dois entre as crianças", diz ele.

Como um expectador externo, James afirma que os norte-americanos foram "mentalmente condicionados" para acreditar que manter o peso saudável é uma responsabilidade individual. Contudo, para ele, essa é uma questão social mais ampla. "Tal individualismo é uma dos pontos fortes do povo norte-americano, sendo, porém, um desastre em termos de saúde. A crença é que todos são capazes de tomar suas próprias decisões, por mais adverso que seja o ambiente em que vivem".

Para manter um peso saudável, todo os que têm uma tendência a engordar precisam se comportar "de forma anormal e rejeitar todas as pressões no sentido de serem iguais aos outros norte-americanos modernos", diz James.

Eis outros problemas que ele acredita que estão sabotando o peso dos norte-americanos:

- As crianças estão sendo bombardeadas com propagandas, e a maioria dessa publicidade diz respeito a alimentos e bebidas que "qualquer nutricionista sofisticado" iria sugerir que fossem consumidos esporadicamente.

- "Suas escolas muitas vezes servem alimentos de baixo valor nutritivo e possuem máquinas que vendem refrigerantes e doces, em uma tentativa de fazer com que a atenção das crianças se desvie de uma dieta apropriada".

- Não há meios suficientes de se fazer de forma espontânea certas atividades físicas, como andar e pedalar. "Nos Estados Unidos, só dá para ir a um shopping center de carro".

- "Vocês não permitem que as pessoas usem a rua para brincar. Suas ruas são construídas com apenas uma finalidade: a circulação de automóveis".

- É praticamente impossível subir e descer escadas em vários edifícios, "a menos que se recorra às horríveis escadas de incêndio".

"Vocês fizeram tudo o que foi possível para dissuadir os norte-americanos de se engajarem em atividades físicas. O que estou descrevendo nunca ocorreu em toda a história da raça humana. Os Estados Unidos se colocaram no interior de um círculo vicioso de inatividade física".

A nutricionista Chris Rosenbloom, vice-reitora do Colégio de Ciências Humanas e de Saúde da Universidade do Estado da Geórgia, em Atlanta, afirma que o que James fala é a pura verdade.

"Sim, trata-se de uma questão social que precisa ser reformulada, mas, no momento, o fato é que as pessoas tomam as suas próprias decisões", diz ela.

Há opções saudáveis, mas os indivíduos dificilmente optam por elas, afirma. "Eles se empaturram de fast-food, mas culpam a indústria de fast-food pelos seus problemas de peso. Se alguém decide tomar o elevador para descer apenas um andar, ao invés de usar as escadas, isso é uma decisão pessoal".

Ela afirma que o problema da obesidade é agravado pelas longas horas de trabalho, que fazem com que as pessoas tenham pouco tempo para se exercitar e para se alimentar de maneira apropriada.

James não crê que o simples fato de educar a população sobre o problema da obesidade seja a solução. Ele diz que, ainda que milhões de dólares fossem gastos na tentativa de se educar as pessoas, o impacto sobre a obesidade seria mínimo. Fazer atividades físicas como parte da vida diária deveria ser algo mais fácil, diz James. Estudos conduzidos na Europa demonstram o benefício das ciclovias comunitárias. "Um país que não possui ciclovias não é civilizado".

"Há uma quantidade enorme de pesquisa demonstrando que é possível alterar completamente o ambiente social dessa forma, e que, quando isso é feito, as pessoas automaticamente passam a se movimentar".

James acredita que os Estados Unidos precisam consertar aquilo que está quebrado, mas o país necessita de promover algumas mudanças integrais no seu ambiente. "Nos Estados Unidos, mais do que em qualquer outro país, é possível usar novas descobertas para se promover realizações", diz James. "É impressionante que vocês não tenham entendido os princípios básicos".

Tradução: Danilo Fonseca

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