Locais de atentados de 11 de setembro viram pontos turísticos

Laura Bly
USA Today
Em Shanksville (EUA)

Para Ralph Fair, ex-agricultor e atualmente guia turístico, a excursão que oferece aos visitantes, no seu furgão, ao preço de US$ 65 (R$ 196) por pessoa, até o local em que a aeronave do Vôo 93 da United Airlines se espatifou em 11 de setembro, "não é diferente de uma visita a Pearl Harbor ou Gettysburg" -- onde milhares de curiosos apareceram nas semanas que se seguiram ao término da mais famosa batalha da Guerra Civil Norte-Americana.

"Há um pouco de atrito com pessoas que acham que não se deve auferir lucros financeiros com tragédias. Mas estamos apenas oferecendo um serviço", afirma Fair, que mora a cerca de 32 quilômetros da colina na floresta onde um avião seqüestrado despencou de um claro céu matinal, por pouco não caindo sobre a pequena cidade de Shanksville. Fair passou a atuar como guia no local há dois meses, e já conseguiu cerca de 200 clientes, muitos atraídos pelo seu cartaz, escrito a mão, na rodovia Pennsylvania Turnpike.

"É algo como diminuir a velocidade quando se passa ao lado dos destroços de um automóvel acidentado", diz Fair, cujo trajeto, recentemente alterado, inclui um desvio até uma pastagem próxima, onde no dia 28 de julho uma equipe de resgate retirou nove trabalhadores que ficaram presos, após um acidente, em uma mina de carvão. "As pessoas são atraídas por desastres".

Shaksville, o World Trade Center e o Pentágono são os mais recentes exemplos de destinações turistas definidas -- ou redefinidas -- pela tragédia. Eles se juntam a uma série de localidades infames, que atraíram visitantes devido à curiosidade mórbida, ao desejo reverencial de prestar homenagem às vítimas e às suas famílias, à necessidade de se confrontar com seus próprios medos. e a uma combinação dos três fatores.

Quer se trate das visitas oficialmente permitidas aos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, na Polônia, ou dos passeios de carro ao ex-complexo da seita Branch Davidian, em Waco, Texas, "o fenômeno é o mesmo. Existe um grande fascínio para com o lado negro da natureza humana", afirma John Lennon, co-autor do livro "Dark Turism" ("Turismo Sombrio"). Somente uma "pequena fração" dos cenários de crimes famosos ou de desastres continua a atrair curiosos mais de um ou dois anos após esses locais serem expostos à visitação pública, diz Kenneth Foote, autor do livro "Shadowed Ground: America's Landscapes of Violence and Tragedy" ("Terra Ensombrecida: Cenários Americanos de Violência e Tragédia").

Mas "o turismo é o primeiro passo rumo à peregrinação", afirma Foote. Com o passar do tempo, tais locais "podem se transformar em símbolos muito poderosos".

Basta considerar o ex-Depósito de Livros da Escola do Texas, em Dallas. Atualmente, o local é sede do Museu do Sexto Andar, em Dealey Plaza, que foi inaugurado 26 anos após o atirador Lee Harvey Oswald ter disparado contra o presidente John F. Kennedy da janela do canto do prédio, no sexto andar. O museu é a maior atração da cidade, sendo visitado por mais de 450 mil pessoas anualmente.

Polêmico desde o início, o museu, financiado com verbas privadas, faz o possível para veicular um ar sóbrio, condizente com um assassinato que passou a fazer parte da psique da nação.

Uma seção de "Perguntas Freqüentes" no Web site do museu observa que "não existem artefatos de natureza violenta ou de mau gosto". A pergunta "Não seria melhor deixar esse assunto de lado?" é respondida com a advertência que "a história é mal servida pelo esquecimento do passado". Uma exposição atual, organizada em resposta ao 11 de setembro, vincula Dealey Plaza a quatro outros locais memoráveis -- o Teatro Ford, em Washington, D.C., onde o presidente Lincoln foi assassinado, em 1865; o USS Arizona, em Pearl Harbor, onde um ataque-surpresa dos japoneses, em 1941, mergulhou o país na Segunda Guerra Mundial; o Motel Lorraine, em Menphis, onde Martin Luther King foi assassinado, em 1968; e o local onde ficava o edifício Alfred P. Murrah, em Oklahoma City, atingido por uma bomba em 1995.

Os visitantes não encontrarão camisetas com gravuras de mau gosto na loja de lembranças do Sexto Andar, e uma "Excursão de Limusine Presidencial JFK", que refazia o percurso do automóvel em que estava Kennedy (incluindo gravações de tiros, de aplausos do público e de noticiários de rádio) foi à falência.

Mas o museu de Dallas exibe a Dealey Plaza Cam, uma câmera de Internet com "a única vista ao vivo disponível em todo o mundo do local onde estava o atirador". Segundo Lennon, isso é mais uma evidência do papel crucial desempenhado pela mídia na manutenção da atenção do público para com os desastres -- e da "mercantilização e empacotamento" pós-modernos que freqüentemente se seguem a um evento trágico.

O espectro da comercialização é uma preocupação especial com relação ao local onde ficava o World Trade Center. "Não estamos comercializando o Ponto Zero", afirma Christyne Nicholas, presidente da NYC & Company, o braço oficial de promoção de turismo da cidade de Nova York. "Mas a verdade é que aquele é provavelmente o local mais visitado no momento em toda a cidade".

De fato, as ruínas das torres gêmeas devem atrair um total de 3,6 milhões de turistas este ano -- um aumento significante com relação aos 1,8 milhões de pessoas que visitavam anualmente, em média, o terraço de observação, antes dos ataques. Um quiosque de informações aos visitantes, em Lower Manhattan, aberto em junho, tem fornecido cerca de 2.000 mapas por dia. E, embora muitos dos visitantes que vieram após o 11 de setembro se contentem em tirar algumas fotos discretas (a prefeitura planeja construir um novo muro de observação, com 540 metros, até o final do ano), outros querem uma lembrança mais tangível do local.

"Tudo o que se imaginar está sendo vendido aqui", afirma Dianne Baumert-Moyik, porta-voz de uma coalizão de solidariedade às famílias das vítimas, que está lutando pela proibição de vendas nas proximidades do local do desastre. "E o fato de as pessoas realmente comprarem tais coisas" -- desde papel higiênico Osama Bin Laden até fotos da multidão fugindo das torres que desmoronavam -- "é algo de inacreditavelmente insano".

Assim como Baumert-Moyik, Brad Burlingame ficou muito revoltado com o fato de pessoas estarem ganhando dinheiro com as vítimas de 11 de setembro. Charels Burlingame, seu irmão, era o capitão do jato da American Airlines que foi arremessado contra o Pentágono.

"Não criticaria ninguém por desejar visitar esses locais. Um dos denominadores comuns para os familiares é que gostaríamos que os nossos entes queridos que morreram fossem lembrado. Temos que aceitar os aspectos negativos da questão juntamente com os positivos", afirma Burlingame.

O lado positivo, segundo Burlingame, inclui o fato de os guias da empresa Tourmobile terem passado a indicar o túmulo do seu irmão no Cemitério Nacional de Arlington, que é uma das maiores atrações turísticas de Washington, recebendo quatro milhões de pessoas por ano.

"É um sentimento estranho", diz Burlingame, cujo irmão era ex-piloto da Marinha. "Mas também me sinto orgulhoso porque a sua vida e o seu local de descanso estão sendo homenageados".

Nas colinas arredondadas próximas a Shaksville, enquanto isso, os peregrinos continuam chegando -- vários milhares por dia nos finais de semana, havendo a estimativa de que 30 mil comparecerão ao local no aniversário de um ano dos ataques terroristas.

Tammy Strohm, lojista de Shankville, cujos artigos incluem "pedras de recordação" retiradas de um rochedo próximo ao local do desastre, não entende toda a correria dos turistas. "Falei com pessoas que estão visitando Nova York, Washington e Shaksville em uma só viagem", diz ela. "Dá vontade de dizer a essas pessoas que elas precisam achar algo o que fazer".

Marion e Dave Brown, de Filadélfia, não têm planos para o circuito de 11 de setembro, mas estão satisfeitos por terem feito um desvio que lhes custou mais uma hora de viagem, passando por Shanksville, quando voltavam do seu acampamento de verão.

"Há uma tremenda tristeza, mas também posso perceber muita afeição no ar", diz Marion Brown, enquanto se inclina para inspecionar uma cerca repleta de objetos, desde pequenas asas de avião a notas escritas no verso de recibos de caixas registradoras. "E isso é um lembrete de que temos que começar a descobrir porque e como existe tanto ódio contra os Estados Unidos".

Para Nevin Lambert, que viu o Boeing 757 da United Airlines caindo a menos de dois quilômetros da sua fazenda, na Skyline Drive, o memorial improvisado representa algo diferente: uma forma de terapia.

Sendo um dos cerca de 24 membros da comunidade que servem como "embaixadores voluntários", Lambert passa várias horas por dia olhando para a cratera, atualmente tapada, respondendo às perguntas dos visitantes e administrando um livro de presenças, repleto de assinaturas.

Ele sabe que o seu mundinho pacato ("Nós sequer estávamos no mapa no ano passado") nunca mais será o mesmo. Mas o ato de dividir a dor com forasteiros, diz ele, pode ajudar no processo de superação do trauma.

"Se me sento sozinho em casa por mais de dez minutos, ainda sou capaz de ver a bola de fogo", diz ele, com a voz trêmula. "Mas, quanto mais falamos sobre algo desse tipo, melhores nos sentimos".

Tradução: Danilo Fonseca

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