Proteção contra incêndio no World Trade Center foi aplicada por mafioso

Greg Barrett
USA Today
Em Nova York (EUA)

O empreiteiro de Long Island que recebeu US$ 2,8 milhões para aplicar uma proteção anti-incêndio sobre o aço utilizado na construção do World Trade Center era um mafioso conhecidodo FBI.

Atualmente, um arquiteto que investigou a película contra fogo do World Trade Center nos anos 90 afirma que o trabalho de Louis DiBono era tão precário quanto as suas finanças.

DiBono não pode mais se defender de acusações. O seu corpo crivado de balas foi encontrado no banco da frente do seu Cadillac, no estacionamento da torre norte do World Trade Center, em outubro de 1990. O chefão mafioso da família Gambino, John Gotti, foi condenado mais tarde pelo assassinato.

E isso leva à pergunta: por que um homem com supostas ligações com a máfia recebeu uma tarefa tão importante quanto a de aplicar a cobertura anti-fogo do World Trade Center?

Hyman Brown, engenheiro de estruturas que supervisionou grande parte da construção do World Trade Center, a partir da década de 70, disse que trabalhou em obras em Nova York e Las Vegas, com famílias mafiosas, e que não se preocupava com o trabalho dessas famílias.

"Segundo a minha experiência, eles fazem um trabalho melhor do que o da maioria dos empreiteiros", diz Brown, que atualmente é professor de engenharia civil da Universidade do Colorado. "São pessoas que não querem ter um problema com os seus negócios legítimos".

Mas durante uma audiência pública em Nova York, neste verão, o arquiteto Roger Morse, que inspecionou a cobertura anti-incêndio do World Trade Center, até junho de 2000, criticou o trabalho de DiBono. Ele disse a uma comissão de investigadores do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) que o trabalho de aplicação do produto anti-incêndio no World Trade Center foi insuficiente ou não existente.

Em 21 de agosto, o NIST começou a fazer uma investigação no valor de US$ 16 milhões do colapso do World Trade Center. A investigação deve durar dois anos.

Embora a maioria dos especialistas não ouse tentar adivinhar se, ou por quanto tempo, as torres gêmeas teriam resistido caso fossem dotadas de proteção adicional contra incêndio, há muito debate quanto a tais possibilidades.

"A película contra o fogo poderia ter sido dez vezes mais espessa e, ainda assim, não ter causado benefício algum", diz Brown. "É algo como pegar um punhado de macarrão e jogar na água fervente. Caso se faça um espaguete dez vezes mais grosso, ele também vai, mais cedo ou mais tarde, amolecer... Ainda que o edifício tivesse resistido por mais dez horas, isso não teria salvado a vida de ninguém".

Mas em um desastre no qual a polícia recebeu a ordem de evacuar o local -- e o fez -- minutos antes do desabamento da segunda torre, mais de 100 bombeiros morreram no colapso da torre norte. Qualquer quantidade extra de tempo, mesmo alguns minutos, teria feito uma diferença, diz Morse.

"Caso o sistema contra fogo estivesse funcionando satisfatoriamente, creio que os edifícios teriam ficado de pé por um tempo indefinido", diz ele. "Eles já haviam recebido o impacto inicial dos aviões e continuaram de pé".

Em 1992, quando Morse inspecionava as colunas de sustentação das torres gêmeas, a falta de proteção contra fogo era tão gritante que ele não denunciou imediatamente o problema. Morse acreditou que o fato era intencional, a fim de favorecer algum outro método mais eficiente de segurança contra incêndios.

"Eu olhava para um prédio projetado para ser o maior do mundo. Imaginei que haveria algum dispositivo sofisticado e não contava com informações suficientes para supor que a situação fosse diferente", lembrou ele, durante uma entrevista dada um dia antes de a NIST ter se engajado na investigação.

A Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, que administrava o World Trade Center, começou em 1990 a substituir a reparar locais onde a cobertura de proteção contra fogo havia sido destruída por cabos de elevadores, trabalhos hidráulicos e remodelação feitas pelos proprietários, diz o porta-voz Allen Morrison.

Morse, que é especialista em investigações judiciais e ambientais de prédios, foi contratado pela U.S. Minerals Product Co., a fim de checar as condições da película anti-fogo, a Blaze Shield-D. O World Trade Center estava processando a U.S. Minerals Product pela presença de amianto no Blaze Shield.

À época, diz Morse, ele não estava muito preocupado com a ausência de equipamento anti-incêndio no World Trade Center. O seu serviço era também procurar a presença de amianto, que de fato foi encontrado.

"Só após os prédios terem desmoronado foi que voltei e examinei as fotografias que havia tirado, entendendo como o sistema contra incêndio havia falhado", diz ele. "Foi aí que fiquei consciente dos problemas e do quanto eles eram graves".

O reparo da camada anti-incêndio estava em andamento em alguns elevadores quando os dois Boeings 767, repletos de combustível, se chocaram com as duas torres, diz Morrison. Mas os programas para consertar ou repor partes danificadas no forro dos andares do World Trade Center eram intermitentes, diz ele. Um serviço que só podia ser realizado quando os ocupantes desocupavam as suas salas.

Um relatório sobre a performance do edifício, terminado em meados do primeiro semestre deste ano pela Agência Federal de Gerenciamento de Emergência (Fema), afirmou que a cobertura anti-incêndio tinha cerca de dois centímetros de espessura na torre sul, que caiu 56 minutos após o impacto, e algo entre 2,5 cm a 3,8 cm na torre norte, que demorou 105 minutos para desmoronar. O relatório -- uma análise preliminar que pretende servir como base para futuros estudos -- diz que os impactos colossais dos dois jatos deslocaram a cobertura anti-incêndio.

O engenheiro Gene Corley, de Chicago, liderou a investigação da Fema e disse acreditar que a cobertura de proteção contra o fogo se saiu tão bem quanto seria de se esperar sob tais circunstâncias. "A evidência indica que havia certos locais em que a aplicação do produto era precária", disse ele. "Mas, até onde sei, esses locais foram assinalados e consertados".

Todos os problemas citados ficavam nos andares abaixo dos impactos das aeronaves, diz Corley, baseando-se nas informações de Morse.

Mas Morse disse que a proteção nunca teria sido aplicada acima do 38º andar da área de escritórios das torres, e do 78º andar dos poços dos elevadores. A zona de impacto na torres sul foi entre o 78º e o 84º andar. E, baseado em tudo o que Morse presenciou, o trabalho de DiBono estava incompleto.

Em documentos de seis de janeiro de 1992, o FBI descreve DiBono, de 63 anos, como um veterano "soldado da família Gambino", trabalhando para Pasquale "Patsy" Conte, um capitão do crime dos Gambino, segundo promotores de Nova York. Mais tarde, Conte confessou ter conspirado para assassinar DiBono.

A fim de comprovar a má qualidade do trabalho de DiBono, Morse levou várias fotos ao encontro da NIST, em junho. Em uma sala de conferências lotada, no New York Marriott, ele exibiu vagarosamente as evidências. A proteção anti-incêndio estava defeituosa ou ausente nas conexões entre as paredes e nas colunas principais e secundárias que sustentavam os andares.

Nos poços dos elevadores de ambas as torres, a cobertura havia sido aplicada sobre a superfície enferrujada do aço, tendo se soltado junto com essa ferrugem.

Antes da aplicação da proteção contra o fogo, o aço deve ser limpo e lixado, para livrá-lo de ferrugem e escamações, diz Morse. No seu contrato com a Autoridade Portuária, a companhia de DiBono recebeu um pagamento extra para limpar as colunas de aço.

O contrato inicial, de 24 de março de 1969, previa que DiBono recebesse US$ 1,7 milhão por materiais e mão-de-obra relacionada com a aplicação da cobertura contra fogo nas torres gêmeas. Nos anos seguintes, vários contratos foram feitos, a preços mais elevados, para retocar a película anti-incêndio danificada pelo trabalho de construção.

"A cobertura era fina ou inexistente em praticamente todos os locais que examinei", diz Morse. "Havia uma camada com pouco mais de um centímetro de espessura no melhor dos cenários e, em alguns locais, ela tinha se descolado inteiramente ou sequer fora aplicada".

Segundo os registros da Autoridade Portuária, DiBono também recebeu US$ 352 mil para aplicar a camada protetora no edifício Northeast Plaza do World Trade Center. Embora nenhum jato tenha atingido o prédio de escritórios de nove andares no dia 11 de setembro, ele foi atingido por destroços, se incendiou e a sua estrutura de metal se enfraqueceu com o calor. Vários andares desmoronaram no dia seguinte.

Não se sabe se outros trabalhos realizados por DiBono estão sendo revistos.

Guy Tozzoli, diretor do projeto de construção do World Trade Center, disse que nunca suspeitou das ligações entre DiBono e o crime organizado, acrescentando que ele era "um cara legal" que sempre fazia um bom trabalho.

"Tínhamos inspetores em todos os andares, examinando a proteção contra fogo todos os dias", conta Tozzoli. "Ele não teria recebido o seu pagamento, a menos que o produto fosse aplicado sobre cada centímetro quadrado do prédio".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos