Cicatrizes do 11 de setembro continuam abertas nos Estados Unidos

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington (EUA)

O dia 11 de setembro é a nova data da infâmia para os Estados Unidos.

Uma súbita era da ansiedade caiu sobre nós naquela manhã ensolarada, um ano atrás. O fato foi uma selvagem convocação para que encarássemos uma nova ameaça, assim como aquela com a qual se defrontou a geração da Segunda Guerra Mundial, em Pearl Harbor, há 60 anos.

Quando os terroristas lançaram jatos comerciais conta grandes edifícios em Nova York e Washington e foram forçados a cair sobre o pacato interior da Pensilvânia, devido à ação heróica de passageiros que estavam no quarto avião seqüestrado, eles mataram mais de 3 mil pessoas.

Eles também introduziram no país uma nova terminologia do medo: alertas terroristas, bombas sujas, Al Qaeda, células dormentes, armas de destruição em massa.

Na virada para o novo milênio, os norte-americanos tinham sido poupados em grande parte dos mais recentes horrores globais. Antes do 11 de setembro, o genocídio na Europa Oriental e na África, a panela de pressão do Oriente Médio, e até o atual confronto com o ditador do Iraque eram problemas distantes.

Mas, com uma rapidez terrível, os norte-americanos se juntaram ao grupo dos vulneráveis.

Uma nova ordem mundial fez dos Estados Unidos tanto um alvo do terrorismo quanto o principal agressor na guerra contra essa ameaça.

Inconscientemente, os terroristas de 11 de setembro também tornaram a apresentar velhos heróis aos norte-americanos. Eles foram apresentados aos bombeiros e policiais de uma era que parecia esgotada. Aos soldados que lutaram uma guerra difícil no Afeganistão. A líderes e instituições desvalorizadas no mundo individualista da Internet, do século 21.

Nova York, que o coração dos Estados Unidos há muito via como uma capital distante, símbolo da decadência urbana, foi abraçada como a irmã ferida da família norte-americana. Os novos grafites de Nova York são tristes cenários compostos por cartazes com fotos de pessoas desaparecidas, tomando conta dos espaços públicos de Manhattan.

Pequenos vilarejos e grandes cidades de todo o país enviaram sangue, pessoal e dinheiro, e se solidarizaram com o luto dos parentes das vítimas.

A bandeira norte-americana tremulou sobre os destroços do World Trade Center, sobre o Pentágono e nas varandas das casas e nos automóveis dos americanos.

Logo após o 11 de setembro, uma nação presa ao lugar comum encontrou parâmetros mais importantes para avaliar a vida.

A vida familiar e as amizades foram reavaliadas. O índice de comparecimento às igrejas disparou, e a fé em outras instituições aumentou. Ao contrário do que aconteceu durante a Guerra do Vietnã, o apoio à guerra no Afeganistão foi quase unânime. Um presidente que ainda estava sendo testado por muitos norte-americanos a princípio pareceu abalado, mas, a seguir, passou a administrar a crise. A população se uniu em torno do seu líder, e o presidente se tornou popular da noite para o dia.

O combativo prefeito de Nova York se tornou o símbolo da liderança desafiadora e da perseverança obstinada de uma cidade. Os membros do Congresso cantaram o "God Bless America" nos degraus do Capitólio. O patriotismo adquiriu um caráter mais sincero e as lágrimas desceram pelas faces quando os bombeiros desenrolaram a bandeira e a penduraram na parte atingida do Pentágono.

Uma nação sob ataque sempre recorre àquilo que já foi testado e que se mostrou verdadeiro. E foi isso o que fizeram os Estados Unidos nos dias e semanas que se seguiram ao 11 de setembro.

Mas, após um ano de agitados eventos internacionais e certa tranqüilidade interna, os desafios não têm mais a clareza das cores vermelha, branca e azul.

As imagens - repetidas incessantemente - de aviões voando rumo aos edifícios se fixaram na consciência da nação com um foco infernal. Mas as questões pendentes não são tão fáceis de serem identificadas.

Nos confrontamos com a realidade de que o ódio mascarado pela religião não está relegado às antigas cruzadas. Neste caso, trata-se de radicais que tentam se apropriar do islamismo. O seu líder não foi encontrado.

Um assassino que utilizou antraz continua solto.

E descobrimos que, no longo caminho rumo a uma nova normalidade, alguns traços antigos não desapareceram, tendo sido simplesmente eclipsados por um momento, sob o efeito do 11 de setembro.

As agressões estão de volta na política e as campanhas estão tão sujas como sempre. A confiança nas instituições caiu aos níveis anteriores ao 11 de setembro. As bandeiras hasteadas no outono passado também estão ficando desbotadas.

Os teóricos da conspiração e os apocalípticos estão fortes como nunca, procurando significados na fumaça, na numerologia e na especulação.

O comparecimento às igrejas voltou aos índices anteriores aos ataques, e o escândalo dos padres católicos fez manchetes de jornais. Histórias de ganância das corporações suplantaram a onda de filantropia pós-11-de-setembro.

Descobriu-se que a região de Manhattan que nos dias que se seguiram ao 11 de setembro estava cheia de equipes de resgate, também estava infestada de saqueadores que se aproveitaram de caixas eletrônicos danificados.

No dia 11 de setembro, os extremos da natureza humana colidiram.

Os assassinos morreram com as vítimas.

A esperança triunfou momentaneamente na vontade das equipes de resgate. Mas a remoção das cinzas não eliminou as ameaças. Nenhuma limpeza, retribuição ou indenização vai apagar as perdas.

Um ano mais tarde, o "marco zero" foi limpo, não contendo mais destroços. Com uma eficiência tipicamente norte-americana, o serviço de limpeza terminou antes do prazo, tanto em Nova York quanto no Pentágono.

Mas o grande buraco em Manhattan continua lá. As memórias de um Pentágono queimado estão impressas para sempre nas mentes da população.

As cicatrizes persistem. Elas ficarão conosco para sempre.


Tradução: Danilo Fonseca

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