Ameaça de terrorismo impede americanos de visitarem locais históricos

Gene Sloan
USA Today
Na Filadélfia (Pensilvânia)

O que diria Thomas Jefferson?

Por mais de dois séculos, uma dos melhores aspectos da visita a esta cidade histórica às margens do Rio Delaware era a possibilidade de se rumar diretamente para o edifício mais famoso, o Independence Hall. Turistas que circulavam entre os hotéis próximos ao centro da cidade, os restaurantes tumultuados e as galerias da Cidade Velha muitas vezes ficavam espantados ao se depararem com o edifício de teto pontudo, feito de tijolos vermelhos, onde nasceram a Declaração da Independência e a Constituição. Não havia barreiras para manter o povo afastado.

"Era uma experiência singular", conta Meryl Levitz, presidente da companhia de turismo Greater Philadelphia Tourism Marketing. E também carregada de simbolismo, acrescenta. O local onde Jefferson e os outros fundadores da nação criaram o esboço de uma nação construída sobre a liberdade era, assim como a própria nação, aberto e livre.

Tudo isso mudou após os ataques terroristas de setembro do ano passado. Algumas horas após o primeiro avião ter atingido o World Trade Center, barricadas começaram a ser erguidas em volta do local. A Chestnut Street, rua que é uma das principais artérias da cidade, e que passa a pouco menos de 20 metros do prédio, foi fechada ao tráfego.

No início, as autoridades disseram que as medidas seriam temporárias. Mas, nos meses seguintes, as precauções passaram a adquirir um caráter mais elaborado. Em junho, o Serviço Nacional de Parques, que administra o local, impôs o bloqueio da Chestnut Street também para pedestres. Agora, uma área de quase dois quarteirões em volta do Independence Hall está selada por uma cerca dupla de metal e barricadas de concreto, sendo vigiada por guardas armados que estão permanentemente a postos a poucos metros uns dos outros.

Segundo a colunista Inga Saffron, do "Philadelphia Inquirer", aquilo que já foi um símbolo de liberdade é agora "um território ocupado".

O local não se constitui no único símbolo da liberdade norte-americana a estar sitiado. Um ano após os ataques, a experiência de se visitar vários dos mais sagrados ícones dos Estados Unidos continua profundamente alterada.

Em Nova York, o interior da Estátua da Liberdade está fechado para turistas, devido a preocupações com a segurança. Também inacessível estão o Museu da Estátua da Liberdade, o pedestal e os 354 degraus que levam até à coroa, um percurso que é feito pelos turistas há mais de um século.

Em Washington, D.C., a Casa Branca geralmente atrai mais de um milhão de visitantes anualmente, mas, agora, a "casa do povo" foi fechada à visitação pública.

No Capitólio, que foi visitado por 1,8 milhão de pessoas um ano antes dos ataques, os turistas não podem mais vagar pelos salões, à procura dos seus representantes no Legislativo, observar a cúpula ou permanecer no Statuary Hall. Somente os visitantes que são parte de excursões turísticas oficiais têm permissão para entrar, e, até para estes, o acesso é restrito. (Um número limitado de ingressos gratuitos está disponível para aqueles que chegarem primeiro, em um quiosque no sudoeste do Capitólio). Outros locais simbólicos, tais como o Washington Monument, estão cercados por barricadas de concreto, detectores de metal e guardas armados.

A nova realidade: a liberdade foi perdida.

Para muitos cidadãos a mensagem é clara. "Como norte-americanos perdemos muita liberdade desde o 11 de setembro", lamenta Charles Spitz, consultor de planejamento de Wall, em Nova Jersey.

Subir ao topo da Estátua da Liberdade é uma espécie de rito de passagem para os norte-americanos, e é impensável que os terroristas tenham tido sucesso em impedir que continuemos a fazer essa visita, diz Spitz. Ele se lembra com saudades de quando subiu ao topo da estátua, quando menino, e, novamente, com os seus filhos.

Spitz lamenta que o neto "não terá a mesma oportunidade. Foi uma bofetada na nossa face".

Até mesmo as autoridades responsáveis por implementar a segurança nos locais de visitação parecem sofrer com aquilo que os eventos os obriga a fazer. "Também não gostamos dessa situação", diz Phil Sheridan, porta-voz do Serviço Nacional de Parques, em Filadélfia, que supervisiona o Independence Hall.

Usando um uniforme dos "rangers" em uma barricada em frente a Chestnut Street, com uma placa às suas costas, onde se lê, "Acesso Restrito", Sheridan fala sobre a contradição entre as duas missões do Serviço de Parques: proteger o patrimônio sob sua responsabilidade, e fazer com que ele esteja disponível à visitação do público.

"O Serviço Nacional de Parques valoriza aquilo que chamamos de 'sítios panorâmicos'. É por isso que não se via muitas placas de advertência em volta dos pontos turísticos. Mas, as coisas mudaram com o 11 de setembro. O mundo ficou diferente", queixa-se Sheridan.

Ele diz que o Serviço de Parques está fazendo aquilo que precisa, "tomando providências extras para assegurar que o Independence Hall esteja disponível para os visitantes não apenas por dez, mas por 100 anos, e, esperamos, que até o próximo milênio".

A segurança no local é motivo de preocupação para as autoridades há anos. Em 1997, não muito depois do ataque a bomba em Oklahoma City, o Serviço de Parques acrescentou um detalhe no seu plano de administração do Independence Hall que incluía o fechamento da Chestnut Street.

"Achamos que seria bom que impedíssemos caminhões de chegar a 15 metros do prédio", diz Sheridan. Mas a medida nunca foi implementada, devido ao protesto dos cidadãos.

Sheridan observa que o Serviço de Parques está fazendo tudo o que é possível para minimizar os efeitos desagradáveis das medidas de segurança. O interior do Independence Hall continua aberto a visitantes, que passam por detectores de metais e máquina de raios-x, semelhantes aquelas comuns nos aeroportos. Tão logo sejam eletronicamente revistados, os visitantes entram na área selada em frente ao Independence Hall.

A maior parte dos visitantes diz que entende as mudanças, embora sejam quase unânimes em expressar a tristeza causadas por elas. "Não creio que tenhamos outra escolha", diz Myrtle Shoch, de 71 anos, de West Chester, na Pensilvânia, ecoando o pensamento de outros que aguardavam na fila, em uma terça-feira, para entrar na sala onde John Adams conclamou os líderes coloniais a romperem com a Inglaterra.

Mesmo assim, tanto na Filadélfia quanto em outros locais, o Serviço de Parque está sofrendo duras críticas dos governos locais e autoridades turísticas, que querem ver os marcos históricos norte-americanos livres dos sinais de ocupação quase militar.

"O fato de esses símbolos conhecidos estarem selados envia uma mensagem terrível ao mundo", diz Cristyne Nicholas, presidente da NYC & Company, que promove o turismo na cidade de Nova York.

Nicholas concorda que, após o 11 de setembro, a segurança rígida na Estátua da Liberdade e outros pontos turísticos é fundamental. "A última coisa que desejaríamos ver seria algum ataque a esses monumentos".

Mas, por motivos simbólicos e comerciais, também é crucial que eles sejam reabertos "o mais rapidamente possível". A estátua era uma das maiores atrações turísticas de Nova York, sendo visitadas anualmente por quatro milhões de turistas.

Brian Feeney, porta-voz do Serviço de Parques na Estátua da Liberdade, diz: "Estamos trabalhando para atingir essa meta. Mas é um trabalho muito complexo. Não vamos reabrir a estátua até sabermos que fizemos tudo o que foi possível para garantir a segurança do monumento e dos visitantes".

Feeney diz que o Serviço de Parques fez progressos desde o 11 de setembro, quando a Liberty Island, onde fica a estátua, nas proximidades de Ellis Island, foi fechada para o público. Embora o interior da estátua continue fechado, a Liberty Island foi reaberta no dia 20 de dezembro, permitindo que os turistas que chegam de barca possam ver de perto a parte externa do monumento.

Feeney diz ainda que é preciso encarar o fato segundo certa perspectiva. O projetista da estátua, o escultor francês Frederic Auguste Bartholdi, nunca sugeriu que os turistas entrassem no monumento. A escada foi projetada para os trabalhadores. E, antes mesmo da estátua ter sido fechada à visitação, menos da metade dos turistas se dispunha a fazer a exaustiva escalada até a coroa.

Mesmo assim, com o interior fechado, as visitas à estátua diminuíram drasticamente. Cerca de 900 mil pessoas visitaram o monumento no primeiro semestre de 2002, contra o 1,5 milhão no mesmo período do ano passado.

A história é parecida em outros pontos turísticos. No Independence National Historic Park, as visitas ao Liberty Bell no primeiro semestre deste ano ficaram em 401.782, contra 608.449 no mesmo período de 2001.

Autoridades governamentais afirmam que alguns dos "sinais de ocupação militar" mais óbvios vão desaparecer, à medida que o Serviço de Parques dotar os monumentos de barreiras mais discretas. Sheridan diz que a estrutura de alumínio no Independence Mall, onde estão os detectores de metal, poderia ser substituída por paredes de tijolos ou cercas de ferros semelhantes às utilizadas nas vizinhanças.

Muita gente na cidade também se preocupa com a possibilidade de que o fechamento permanente da Chestnut Street ao tráfego de automóveis e pedestres possa ser um passo na direção errada.

"É necessário que haja um diálogo amplo sobre o verdadeiro significado da media para as pessoas que moram, trabalham e visitam o local", diz Levitz. O fechamento não só interrompe uma artéria principal da cidade e engarrafa o trânsito, mas ele também se constitui em um golpe psicológico. Filadélfia é uma cidade de pedestres, e a Chestnut Street é uma das melhores ruas para as caminhadas.

Para os turistas, os efeitos psicológicos do fechamento permanente da rua seriam ainda maiores, afirma Levitz. Os visitantes não poderão mais seguir os passos de Thomas Jefferson e de Benjamin Franklin, que moravam nas proximidades e andavam até "o trabalho", que ficava naquilo que era a Câmara Legislativa da Pensilvânia, naquele histórico verão de 1776.

"Sentimos que não se devem medir esforços para resgatar a oportunidade de se caminhar até àquela porta", diz Levitz.

Tradução: Danilo Fonseca

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