EUA dizem que, apesar de enfraquecida, Al Qaeda ainda é perigosa

Jack Kelley
USA Today

Um ano após o início da guerra contra o terrorismo, a rede Al Qaeda, de Osama bin Laden, parece estar enfraquecida, sendo, porém, ainda capaz de lançar ataques, dizem oficiais de inteligência dos Estados Unidos.

Ainda que o grupo tenha sido expulso da sua fortaleza no Afeganistão e o destino do seu líder seja desconhecido, os membros da Al Qaeda estariam se reagrupando, recrutando novos membros, modificando as suas táticas e planejando mais missões terroristas contra o Ocidente, afirmam os oficiais de inteligência.

Entre os sinais de alerta, estão os seguintes:

- Pela primeira vez, a Al Qaeda começou a recrutar mulheres no Afeganistão e no Oriente Médio para distribuírem dinheiro e mensagens para os membros da rede em todo o mundo e para fornecer outros apoios logísticos, afirmam autoridades policiais norte-americanas. A ação rompe com um antigo tabu do grupo. Nos seus manuais de treinamento, os militantes do sexo masculino recebem a recomendação de não utilizarem mulheres em "negócios relativos à jihad".

- Membros da Al Qaeda no Oriente Médio e na Ásia estão tentando invadir computadores norte-americanos que controlam sistemas de controle de água, eletricidade e comunicações, inclusive os serviços de discagem de emergência "911", em pelo menos 30 localidades, segundo as autoridades policiais. As autoridades acreditam que o grupo está coletando dados para serem utilizados em um futuro ataque terrorista através do ciberespaço.

- No Reino Unido, Alemanha e Espanha, os recrutadores da Al Qaeda estão vasculhando mesquitas em busca de norte-americanos desencantados que possam estar ansiosos para se transformarem em militantes suicidas, dizem as autoridades européias. As autoridades acreditam que um ataque terrorista contra embaixadas ou instalações americanasno exterior pode ocorre dentro de seis meses. (No domingo, autoridades alemãs informaram que um casal turco-americano que foi preso na semana passada por planejar detonar bombas em bases militares dos Estados Unidos em Heidelberg não tinha quaisquer vínculos com a Al Qaeda).

- No Paquistão, militantes da Al Qaeda, que se identificaram como sendo trabalhadores sauditas refugiados, estão pregando doutrinas anti-americanas em escolas religiosas de Karachi, Quetta e Peshawar, e estão solicitando doações dos lojistas para "o próximo 11 de setembro", segundo autoridades paquistanesas.

"Estamos demonstrando que os kuffar (infiéis) de Washington estão errados", afirma Jamal Waheeb, de 32 anos, um refugiado saudita em Quetta, que a polícia paquistanesa suspeita ser um militante da Al Qaeda. "Eles dizem que vão acabar com a Al Qaeda. Mas estamos emergindo com mais vigor e vamos atingir os shopping centers, estádios e escolas americanas. Essa é a nossa promessa".

Tudo isso podem ser bravatas. Documentos do FBI demonstram que há apenas 200 militantes do alto escalão da Al Qaeda ainda ativos em todo o mundo, comparado a várias centenas antes dos ataques de setembro passado. Os ataques contra o World Trade Center e o Pentágono não tiveram sucesso em mobilizar outros extremistas muçulmanos para atacarem os Estados Unidos no "choque de civilizações" que era o objetivo de Bin Laden. Mesmo assim, apenas 19 sequestradores realizaram os ataques de 11 de setembro, e as autoridades ainda se preocupam com o fato de pequenos grupos serem capazes de infligir grandes danos.

A guerra contra o terrorismo não destruiu a Al Qaeda, mas a dispersou por todo o mundo, tornando mais difícil para as autoridades criminais rastrear as atividades do grupo e capturar os seus membros.

Embora o número de fanáticos de alto escalão pareça ser de centenas, as autoridades temem que cerca de 20 mil homens que treinaram nos campos terroristas de Bin Laden no Afeganistão, Paquistão, Somália e Sudão desde a década de 90 ainda sejam mártires potenciais para a sua luta.

"Esse é o tipo de gente que simplesmente não desiste, e a sua infraestrutura em vários locais, como o Paquistão, ainda está intacta", explica a especialista em terrorismo e ex-oficial da Agência de Inteligência de Defesa, Julie Sirrs.

Na semana passada, um relatório das Nações Unidas advertiu que a Al Qaeda "está, segundo todos os indícios, 'viva e saudável', e pronta para atacar novamente, como, quando e onde escolher". Um conhecido especialista em contra-terrorismo concorda com essa avaliação.

"A Al Qaeda é com certeza a mais perigosa ameaça imediata à sociedade norte-americana", afirma Paul Bremer, embaixador especialista em contra-terrorismo durante o governo Reagan. "Há milhares de militantes da Al Qaeda imersos em sociedades em todo o planeta, inclusive nos Estados Unidos. Ainda não superamos o problema".

A Al Qaeda hoje

Um ano após o início da guerra contra o terrorismo, liderada pelos Estados Unidos, aqui está a situação da Al Qaeda, segundo agências de inteligência dos Estados Unidos e dos seus aliados, bem como autoridades policiais:

Tamanho: O grupo ainda opera células terroristas em um número de países que pode chegar a 65. Algumas das maiores células estão no Paquistão, na Arábia Saudita e no Iêmen. Acredita-se que centenas de militantes da Al Qaeda estejam escondidos nas áreas tribais do norte do Paquistão, e na província paquistanesa do Baluchistão.

A Arábia Saudita, pátria de 15 dos 19 sequestradores envolvidos nos ataques de setembro do ano passado, é também uma grande base da Al Qaeda. Desde junho, quase 80% dos acessos a um Web site secreto da Al Qaeda se originaram de emails da Arábia Saudita. A Al Qaeda utiliza o site para divulgar sermões furiosos contra o Ocidente, além de mensagens criptografadas para os seus militantes.

"Para cada complô terrorista que descobrimos e para cada célula de extremista que desbaratamos, há dezenas de outras trabalhando", disse em julho o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, à Comissão do Senado para as Forças Armadas.

Pelo menos quatro células da Al Qaeda estariam operando nos Estados Unidos, possivelmente em Atlanta, Chicago, Detroit e Seattle, segundo agentes do FBI.

Mesquitas em nove cidades dos Estados Unidos estão sob vigilância do FBI para que se determine se elas possuem vínculos com tais células. As mesquitas ficam em Cleveland; Falls Church, Virginia; Fort Lauderdale; Jersey City, Nova Jersey; Laurel, Maryland; Norman, Oklahoma; Pembroke Pines, Florida; San Diego; e Tucson, acrescentaram os agentes.

A utilização de recrutas do sexo feminino pela primeira vez representa uma tentativa de ludibriar as autoridades policiais dos Estados Unidos, que traçaram um perfil dos membros da Al Qaeda como sendo formado por rapazes muçulmanos.

Em janeiro, a polícia britânica disse que estourou uma célula da Al Qaeda em Londres, tendo prendido duas mulheres que falsificavam passaportes e documentos para o grupo. Em junho, a polícia marroquina afirmou ter detido duas mulheres que levavam dinheiro e mensagens para militantes da Al Qaeda que planejavam atacar com bombas navios norte-americanos e britânicos no Estreito de Gibraltar.

Liderança: Após os ataques de 11 de setembro, o presidente Bush disse que queria Bin Laden "vivo ou morto". Atualmente, a questão é exatamente saber se o líder da Al Qaeda ainda está vivo.

A maior parte dos oficiais de inteligência dos Estados Unidos acredita que Bin Laden esteja oculto nas áreas tribais do norte do Paquistão. Oficiais de inteligência paquistaneses afirmaram que o viram pela última vez em 17 de novembro, em um comboio composto por 25 veículos, saindo de Jalalabad, no Afeganistão, rumo às vizinhas montanhas de Tora Bora. Pouco tempo depois, acredita-se que ele tenha escapado, juntamente com o seu principal assessor, Ayman al-Zawahiri, através das Montanhas Brancas, na divisa entre o Afeganistão e o Paquistão.

Outros oficiais dizem que Bin Laden deve ter morrido no ano passado em Tora Bora, durante um bombardeio liderado pelos Estados Unidos contra a área, nas primeiras duas semanas de dezembro. Alguns comandantes de forças de operações especiais dos Estados Unidos, convencidos de que Bin Laden estaria morto, pediram para interromperem a sua busca pelo líder da Al Qaeda. Eles afirmam que o fato de Bin Laden não ter aparecido em um outro vídeo seria prova do seu falecimento.

A morte de Bin Laden privaria o grupo da presença de um líder rico e carismático, mas não significaria o fim das suas atividades. Alguns especialistas, e supostos membros da Al Qaeda, chegam mesmo a acreditar que Bin Laden poderia ser mais popular como líder martirizado do que como um comandante vivo. Enquanto isso, o seu filho, Saad, parece estar assumindo um maior papel de liderança do grupo.

Dos 33 líderes de mais alto escalão da Al Qaeda, o paradeiro de 21 deles é desconhecido, seis foram mortos e outros seis capturados, segundo avaliações independentes do "USA Today" e da "Associate Press".

Até o momento, Abu Zubaydah, um importante chefe operacional da Al Qaeda, foi o membro de maior nível hierárquico do grupo a ser preso. Zubaydah, que está sendo interrogado em um local não divulgado, forneceu poucas informações de valor para os investigadores. Mas os discos rígidos, CD-ROMs e documentos encontrados pelo FBI e pela CIA no computador na casa que ele alugou em Faisalabad, no Paquistão, onde foi capturado, no dia 28 de março, levaram à vigilância de pelo menos 200 indivíduos nos Estados Unidos. Acredita-se que muitos deles possuam vínculos com a Al Qaeda.

Autoridades dos Estados Unidos temem que pelo menos sete outros líderes da alta cúpula da Al Qaeda, ainda foragidos - incluindo Khalid Shaikh Mohammed, uma das pessoas que planejou e financiou os seqüestros de aviões em setembro do ano passado - poderiam estar planejando ataques.

Acredita-se que Mohammed, juntamente com Saad Bin Laden, tenha planejado o atentado a uma sinagoga tunisiana em 11 de abril, matando 19 pessoas. O homem-bomba que realizou o ataque telefonou para Mohammed três horas antes de detonar os explosivos.

Dinheiro: A Al Qaeda continua a receber milhões de dólares em contribuições de instituições muçulmanas de caridade e de grandes empresários no Kuait, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos e em outros países.

O grupo terrorista opera contas bancárias em Dubai, Hong Kong, Londres, Malásia e Viena, todas elas registradas nos nomes de outras pessoas. O relatório da ONU avaliou o valor do império financeiro da Al Qaeda em US$ 30 milhões (cerca de R$ 93 milhões) e disse que o grupo encontra poucos problemas para movimentar o dinheiro, quando isso se faz necessário.

Mais de US$ 300 mil (cerca de R$ 930 mil) em dinheiro da Al Qaeda foram recentemente transferidos do Paquistão, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para um grupo terrorista no Marrocos, que planejava explodir navios norte-americanos naquele país. A Al Qaeda teria ainda, recentemente, enviado vários carregamentos de ouro para serem guardados no Sudão.

11 de setembro, o início ou o fim?

E qual seria o tamanho da ameaça representada atualmente pela Al Qaeda?

Assim como o paradeiro de Bin Laden, esta questão é objeto de intensa discussão no seio da comunidade de inteligência.

Alguns oficiais do FBI, da CIA e do Pentágono dizem que a Al Qaeda não contaria mais com o potencial para lançar ataques de larga escala. Eles garantem que a guerra contra o terrorismo, liderada pelos Estados Unidos, teria enfraquecido a Al Qaeda, através do bombardeio de suas fortalezas e campos de treinamentos no Afeganistão, da prisão de quase 2 mil indivíduos em 95 países e do congelamento do patrimônio financeiro de mais de 200 pessoas e dezenas de grupos muçulmanos e entidades filantrópicas desde 11 de setembro do ano passado.

Esses oficiais dizem ainda que acabaram com a capacidade do grupo em realizar comunicações internacionais, ao monitorar os seus telefones via satélite, seus faxes e seus emails. Essas medidas impediram a realização de pelo menos seis atentados terroristas desde setembro do ano passado, incluindo os planejados ataques à bomba às embaixadas dos Estados Unidos em Paris e em Singapura.

"A Al Qaeda é uma organização terrorista confusa, fraturada, sem timoneiro, que somente é capaz de realizar ações locais através de células autônomas", afirma Ken Katzman, especialista em terrorismo do Serviço de Pesquisas Congressuais. "A sua fase de apogeu acabou".

Ele acredita que a Al Qaeda só pode agora realizar ataques menores, embora letais, como um atentado com um carro-bomba, em oito de maio deste ano, em um hotel de Karachi, que matou 14 pessoas, e o ataque de 11 de abril contra a sinagoga tunisiana.

Mas há quem diga que a ameaça da Al Qaeda persiste.

"É óbvio que os esforços das forças armadas, das organizações policiais e das agências de inteligência tiveram um impacto sobre a Al Qaeda, mas isso não significa que o perigo foi removido", afirma o especialista em terrorismo Ben Venzke, presidente da IntelCenter, uma companhia de segurança e inteligência com sede em Virginia. "O terrorismo não será extirpado do mundo, assim como ninguém conseguirá também acabar com a criminalidade e com o ódio. É uma tarefa impossível".

Waheeb, o suposto membro da Al Qaeda entrevistado pelo USA Today em uma mesquita no oeste do Paquistão, adverte que a guerra santa contra o Ocidente apenas começou.

"A nossa gente já está posicionada para o próximo ataque, e está pronta há anos", ameaça Waheeb. "Estamos pronto para seguir em frente. O 11 de setembro foi apenas o início".


Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos