Um ano depois, emoção domina rota de avião seqüestrado em 11/09

Gene Sloan
USA Today

"Será que poderia ocorrer novamente?".

À medida que o enorme Boeing 767 se movimenta pela pista do Aeroporto Internacional de Newark, poucos dentre os 55 passageiros a bordo deixam transparecer sinais de preocupação. Muitos lêem jornais em silêncio. Outros olham pelas janelas. Alguns já adormeceram.

Porém, mais tarde, quando a aeronave, que traz a maior parte dos assentos vazios, decola rumo ao oeste, várias pessoas experimentam pelo menos uma sensação momentânea de medo.

"Será que a história vai se repetir? Isso seria possível?".

"Todos estão conscientes do significado deste dia, embora nem todo mundo perceba a importância deste vôo em especial. Foi há exatamente um ano, nesta mesma rota -- o vôo da United sem escalas, que parte no início da manhã de Newark para São Francisco - que 33 passageiros e sete tripulantes se viram de repente lutando para salvar suas vidas.

O Vôo 93 da United Airlines foi a última das quatro aeronaves seqüestradas por terroristas em 11 de setembro. Ela despencou em um campo próximo a Shanksville, na Pensilvânia, matando todos a bordo.

"Me sinto um pouco confusa sabendo que hoje é o aniversário da tragédia", diz Leslie Pucilowski, de 29 anos. "Mas este é, provavelmente, o dia mais seguro para se viajar de avião".

Já para Fred Klink, de 48 anos, "trata-se apenas de mais uma viagem de negócios".

Mesmo assim, no decorrer do vôo, um ar de estranheza reina a bordo. Após a decolagem, o jato ruma para o céu sobre a cidade de Nova York, possibilitando que os passageiros tenham uma visão clara do local em que ficava o World Trade Center. As pessoas ficam silenciosas. Minutos depois, o comandante usa o intercomunicador para transmitir uma mensagem melancólica. "Como vocês sabem, hoje é o primeiro aniversário de um dia trágico. Nós superamos aquele dia. Demonstramos que somos capazes de superar a maior das adversidades. Gostaria de pedir a cada um de vocês que, à sua própria maneira, refletisse e se lembrasse daqueles que se foram".

Por algum tempo, o silêncio foi completo.

Obedecendo aos procedimentos estabelecidos pela Agência Federal de Aviação para este dia, o comandante determina que os passageiros permaneçam sentados em suas poltronas durantes os 30 primeiros e 30 últimos minutos de vôo. Fora desses dois períodos, eles estão livres para se movimentar pela aeronave.

Uma comissária de bordo anuncia que pendurou uma bandeira dos Estados Unidos na parte traseira do avião e convida os passageiros a escrever sobre ela os seus nomes e frases sobre a ocasião. (Até o final do vôo, mais de 20 pessoas o fizeram). A comissária diz, com a voz embargada, que a bandeira vai ser enviada para o Ponto Zero.

Três jornalistas estão a bordo, e eles andam pelo corredor entrevistando os passageiros.

"Achei que conseguiria me distanciar de tudo isso", diz Betsy Kaufman, de 44 anos, que mora a dez quarteirões do Ponto Zero.

Kaufman acha irônico que, mesmo a 13 mil metros de altitude, não consiga escapar do frenesi da mídia que tomou conta da sua cidade.

"Achei que veria um filme, e aqui estou, falando com repórteres".

Em algum ponto sobre as Montanhas Rochosas, uma comissária de bordo anuncia que, para lembrar a importância do dia, ela e suas colegas trouxeram um bolo especial para dividir com os passageiros. Segundo ela, a idéia é que comer o bolo signifique "uma comemoração da vida". Em um tributo emocionante, duas comissárias levam o bolo confeitado com glacê vermelho, branco e azul, formando a bandeira norte-americana, através do corredor. Na primeira passagem elas mostram o bolo aos passageiros. Na segunda, distribuem as fatias. Elas também servem champanhe -- de graça -- aos passageiros.

Para as comissárias, este é nitidamente um dia de emoção. A comissária veterana, Gayle Kamei, de 50 anos, diz que trocou de horário com uma colega, para garantir que estaria presente neste vôo. Assim como aqueles que morreram no Vôo 93, ela passou o dia 11 de setembro a bordo de um vôo entre Newark e São Francisco.

"Estou aqui para homenagear os meus companheiros de vôo que morreram", afirma. "Para mim, o show precisa continuar. Caso contrário, os terroristas terão vencido".

Tradução: Danilo Fonseca

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