Aos 50 anos, Christopher Reeve ainda luta para recuperar movimentos

Bob Minzesheimer
USA Today
Em Bedford (EUA)

Se Hollywood fizesse um filme sobre a vida de Christopher Reeve, a cena final bem que poderia se passar na festa do seu 50º aniversário, com o ator atravessando um palco andando e saudando a família e os amigos.

Reeves sorri discretamente ante essa idéia, sabendo que isso não vai acontecer quando fizer 50 anos, no próximo dia 25 de setembro. Mas ele poderá exibir aquilo que chama de "truque para festas" -- levantando o seu dedo indicador esquerdo, o primeiro sinal daquilo que, segundo ele, é uma recuperação sem precedentes.

Demonstrando um desafio bem-humorado, foi exatamente essa exibição que Reeve deu, na última quinta-feira, durante uma entrevista na sua casa, no condado de Westchester, que fica 56 quilômetros ao norte de Manhattan, em meio a fazendas onde correm cavalos de raça. Ele foi entrevistado no seu escritório, onde telas de vídeo dividem o espaço na estante com um livro entitulado Medicina da Coluna Vertebral.

Há sete anos Reeve ficou paralítico, da extremidade superior do pescoço para baixo, quando sofreu uma queda de cavalo, ao participar de uma competição de hipismo na Virgínia. No livro Nothing Is Impossible: Reflections on a New Life ("Nada é Impossível: Reflexões Sobre uma Nova Vida"), que será lançado na próxima terça-feira, o ator e diretor descreve como recuperou alguns movimentos e sensações de tato. Na próxima quarta-feira, a rede de televisão ABC vai transmitir o programa "Christopher Reeve: Passos Corajosos", filmado nos últimos 18 meses pelo seu filho Mathew, de 22 anos.

Quatro anos atrás, a mídia afirmava que Reeve, o Super-Homem de quatro filmes, teria prometido andar no dia do seu 50º aniversário, ou mesmo antes. Mas, segundo ele, "o que eu realmente disse foi que esperava ficar de pé para fazer um brinde a todos os que têm me ajudado nesta jornada".

E isso, segundo ele, para dar uma força aos pesquisadores que têm sofrido a imposição de limitações aos seus trabalhos, devido àquilo que Reeve, que é vice-diretor da Organização Nacional de Deficiência Física, afirma ser uma proibição federal injusta e politicamente motivada da clonagem terapêutica, que utiliza células-tronco originárias de óvulos humanos não fertilizados.

"O fato de eu ficar ou não de pé no dia do meu aniversário é menos importante do que a falta de progresso científico por motivos políticos".

Pessoalmente, Reeve parece mais velho do que na foto de capa do seu livro. Ele mantém um interesse típico dos atores em ser bem fotografado, exigindo o seu próprio maquiador e pedindo que todas as fotos sejam tiradas da parte esquerda do seu corpo, para que a barra que apóia o lado direito da sua cabeça não apareça. "Ela não dá boas fotos", explica.

O seu livro, uma coletânea de pequenos ensaios, tem caráter pessoal e político. Ele fala da sua palestra perante o Congresso, assim como da sua vigorosa rotina de fisioterapia, que chega a quatro horas por dia, bem como da importância de manter o bom-humor.

"Quando as coisas estão realmente ruins, é preciso rir", escreve, repetindo uma "piada de mau gosto" que ouviu em 1995:

"Qual é a diferença entre Christopher Reeve e O.J. Simpson?".

"O Simpson anda".

Reeve ainda depende de um aparelho para respirar e de enfermeiros para colocá-lo e tirá-lo da cadeira de rodas, alimentá-lo e dar banho. Ele diz que fica deprimido, "mas nunca cronicamente ou clinicamente. A minha depressão nunca foi debilitante. Sempre acho maneiras de escapar dela".

Enquanto ele fala, um enfermeiro, que faz parte de uma equipe de 17 que trabalham em escala, o alimenta com uma salada. (Reeve pede desculpas por aquilo que chama de "um almoço de trabalho").

Há muitas coisas que é incapaz de fazer, mas Reeve se surpreendeu com o passar dos anos "com o quanto sou capaz de ter controle sobre mim mesmo e sobre a situação". Todos os dias, ele precisa começar a fisioterapia a um ritmo lento de batimentos cardíaco -- 55 batimentos por minuto. "Descobri que posso fazê-lo com controle mental. Eu me recosto na cadeira, removo todos os pensamentos da minha mente e fico 'congelado'".

Segundo o conhecimento da medicina convencional, recuperações de lesões da coluna só ocorrem até dois ou três anos após o trauma. Depois disso, a recuperação seria impossível. A recuperação de Reeve começou cinco anos após o seu acidente e tem sida vinculada por seu médico à fisioterapia, que inclui estimulação elétrica dos seus músculos.

"É a minha jornada de exercícios", afirma Reeve. "A fisioterapia é uma forma de controlar o meu futuro. Não quere entrar em decadência. Não quero olhar para as minhas pernas e ver dois palitos de dentes. Não se trata de vaidade. É auto-respeito. Trata-se de um sinal de saúde mental e emocional".

Quando escolheu o título "Nada é Impossível" para o seu livro, ele não queria sugerir algo como "porcos são capazes de voar", segundo suas próprias palavras. "O significado real é que nós não conhecemos tudo sobre o problema. Nem os cientistas, nem os pacientes sabem o que se pode conseguir".

Quando não está se exercitando ou fazendo palestras (200 nos últimos seis anos), Reeve se mantém interessado pelo cinema. Desde o acidente, ele dirigiu um filme para a HBO (In the Gloaming) e estrelou em uma refilmagem da ABC do clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock.

Ele afirma que possui dois projetos de direção, mas não quer dar mais detalhes: "Um filme só passa a ser algo de real quando você é capaz de terminar o primeiro dia de filmagens".

Ele afirma ter recusado propostas para vários documentários feitos por diretores premiados, já que "não queria invasão da minha privacidade". Mas Reeve concordou em deixar que o seu filho, amante do cinema, tivesse acesso ilimitado à sua vida na filmagem do documentário. "Achei que ia ajudar a dar um empurrão inicial na sua carreira".

Matthew, o mais velho dos três filhos de Reeve, foi criado na Inglaterra com a mãe, e o filme foi uma chance de passarem um tempo juntos. Matthew começou a filmar quando era aluno da Universidade Brown. "Precisava de um tema para filmagem, e a história do meu pai me veio à mente", conta ele.

Reeve achava que o resultado poderia terminar em festivais de cinema ou na TV a cabo. Ao invés disso, Matthew conseguiu apoio financeiro e vendeu a produção para a ABC; 140 minutos de filmagem foram transformados em um documentário de 43 minutos.

"Tentei ser o mais objetivo possível", diz Matthew, acrescentando que não pretendia que o trabalho fosse um tributo de um filho ao pai. Reeve é o único narrador, olhando às vezes para a câmera para explicar o que está pensando.

Matthew odeia o subtítulo, "Passos Corajosos", mas afirma que foi "o melhor dentre os piores" propostos pela ABC. "Eles queriam que o documentário se chamasse, "Vou Voltar a Andar", ou "Será que Ele Voltará a Andar?", o que Matthew achou "barato e inapropriado; mas eles são a rede de televisão".

A rede planeja fazer mais dois documentários que acompanhem a recuperação de Reeve. Matthew começará a filmar a segunda parte na festa de aniversário do pai, que será uma cerimônia para arrecadar doações para a Fundação de Paralisia Christopher Reeve, em um hotel de Nova York. Robin Williams será o animador da festa.

Segundo Reeve, o fato de fazer 50 anos, confinado a, "mas não definido por", uma cadeira de rodas, tem os seus pontos positivos. "Se estivesse de pé, estaria preocupado quanto a me tornar idoso ou à diminuição na minha performance nos jogos de tênis. Mas, quando se bate com a cabeça no chão aos 42 anos, passa-se por uma experiência próxima à morte e se sobrevive a tudo isso, sentindo que se está progredindo, 50 anos de idade não é algo que assuste".

Tradução: Danilo Fonseca

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