Bolsas de Valores do Paquistão tornam-se as mais atraentes do mundo

Elliot Blair Smith
USA Today
Em Islamabad (Paquistão)

Ao contrário do que seria de se esperar, o Paquistão possui o mercado de ações com melhor desempenho no mundo.

O índice da Bolsa de Valores de Karachi aumentou 56% desde os ataques terroristas de 11 de setembro, em um período em que o Standard & PoorŽs 500 caiu 19% e o Bloomberg European 500 despencou cerca de 27%.

Corretores de ações paquistaneses dizem que um investidor norte-americano aplicou US$ 30 milhões logo após o 11 de setembro, e teve um lucro de 30% três semanas atrás.

Militantes muçulmanos ainda espalham terror pelas ruas estreitas de Karachi, onde vivem entre 10 e 15 milhões de paquistaneses. Mas os bancos de investimentos e acionistas estão começando a ser beneficiados pelas reformas nos mercados de capital do país.

A guerra contra o terrorismo no Afeganistão, liderada pelos Estados Unidos, gerou uma atenção renovada para um país que era anteriormente desprezado pelos investidores, devido aos mercados corruptos e à política instável.

"O que mudou após o 11 de setembro foi o risco médio do Paquistão", afirma Samir Ahmed, diretor da Bolsa de Valores Lahore, a segunda maior do país. "Deixamos de ser uma nação-pária para nos tornarmos um membro mais aceitável da comunidade internacional, ainda que haja questões pendentes quanto à democracia".

"O mercado local parecia irremediavelmente subvalorizado. Honestamente, só um cabeça-de-vento investiria dinheiro aqui", diz Khalid Mirza, diretor da Comissão de Títulos e Valores, que deixou um emprego no Banco Mundial, em março de 2000, para assumir a direção de um dos mercados mais desacreditados e menos regulados do mundo.

Os investidores paquistaneses foram abalados pela crise asiática de 1998, que se espalhou pelos mercados emergentes de todo o mundo. Também em maio de 1998, o governo detonou um pequeno artefato nuclear, aumentando a tensão regional com a Índia. Isso fez com que até mesmo os investidores mais crédulos abandonassem o mercado de ações do país. Um ano depois, em outubro de 1999, Musharraf conquistou o poder por meio de um golpe militar que destruiu a democracia incipiente do país e desencadeou uma espiral ascendente das taxas de juros que destruiu o pequeno mercado doméstico de ações.

Mas o regime autoritário de Musharraf impôs a lei e a ordem. Ele incumbiu reformistas adeptos do livre mercado, como Mirza, de gerenciar a economia paquistanesa. Os resultados foram surpreendentes.

Tão logo se instalou no seu escritório, em uma torre com visão panorâmica, Mirza agiu com firmeza com relação aos banqueiros milionários de Karachi e Lahore, que tradicionalmente administravam os mercados de ações de acordo com os seus interesses financeiros.

Mirza fez pressão pelo gerenciamento independente, atualmente em vigor nas três Bolsas de Valores do Paquistão -- Islamabad, Lahore e Karachi -- e impôs novas e mais duras políticas contábeis e gerenciais sobre as 725 empresas do país. Ele também estimulou as Bolsas, que lidam com as mesmas ações, a interligarem eletronicamente os seus centros. Essa medida visava a gerar preços mais uniformes.

Mas ainda há perigos no horizonte. Os mercados paquistaneses são altamente estimulados por um mecanismo financeiro conhecido como badla. Desconhecido fora da Índia e do Paquistão, o badla permite que os investidores comprem ações com fundos emprestados e adiem o pagamento final pelo tempo em que estiverem pagando os juros financeiros diários. Cerca de dois terços das operações no mercado de ações paquistanês são financiados com empréstimos badla. O financiamento badla total, incluindo os negócios adiados do dia anterior, muitas vezes excedem o valor de todas as ações negociadas. Em maio de 2000, vários acionistas deixaram de pagar as compras feitas através do sistema badla, após o colapso de um esquema no qual eles orquestraram os negócios entre si, de forma a inflacionar o valor das ações.

Mas, para os crentes nos fundamentos do mercado, as ações paquistanesas exibem um outro traço praticamente desconhecido em outras partes do mundo. A renda do dividendo anual KSE 100, de 11,6%, é substancialmente maior do que a taxa de juros de 7% de títulos do governo. Geralmente, as ações atraem os investidores devido à sua potencial valorização, que é mais elevada do que os títulos e as cadernetas de poupança.

Um exemplo é a Hubco, uma empresa independente de fornecimento de energia elétrica. Abalada por uma série de contratempos, a Hubco vendeu cada uma de suas ações por cerca de US$ 0,25 em meados de setembro, enquanto pagava dividendos anuais de mais de US$ 12 por ação.

Em dois anos, um investidor que tivesse comprado ações a US$ 0,25 seria capaz de recuperar o seu investimento. Nesse ínterim, o preço das ações subira quase 50%.

Esses avanços ainda estão longe de beneficiar o povo paquistanês: Menos de 1% da população de 144 milhões de habitantes -- que tem uma renda per capita diária de US$ 1,08 -- possui ações. Somente 25 mil pessoas negociaram pelo menos 100 ações no ano passado.

Até recentemente, as mudanças não haviam beneficiado, tampouco, os investidores globais. Mas o investimento estrangeiro está voltando pela primeira vez em cinco anos, tendo chegado a US$ 13,4 milhões em julho, comparados aos US$ 32,2 milhões entre setembro e dezembro do ano passado.

Embora a capitalização total do mercado continue 15% abaixo do seu ápice, atingido em dezembro de 1997, que foi de US$ 8,9 bilhões -- o que equivale a uma empresa média norte-americana -- os investidores dizem que há interesse na Europa, no Oriente Médio e nos Estados Unidos.

"Os gerentes de fundos estrangeiros fazem duas perguntas", diz Ali Ansari, chefe-executivo da AKD Securities, a maior firma paquistanesa de corretagem, que movimenta 20% do volume de negócios da Bolsa de Valores de Karachi. "Primeiro, eles querem saber porque as bolsas de valores paquistanesas estão disparando. Em segundo lugar, querem garantias de que elas sejam sustentáveis".

"O 11 de setembro foi um fator estranho para nós", diz Ansari. "Sem os atentados, estaríamos atolados na lama".

Tradução: Danilo Fonseca

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