Cientistas encontram pistas sobre os motivos hereditários da obesidade

Tim Friend
USA Today

Após uma pesquisa de dez anos, cientistas descobriram o gene que faz com que certos carneiros possuam traseiros grandes e musculosos.

Tal descoberta pode parecer estranha, mas os especialistas afirmam que ela pode esclarecer porque certas pessoas parecem estar destinadas a ser obesas, enquanto que outras nascem para ter um corpo esbelto. E o mais importante é que o método utilizado para encontrar o gene pode também ser empregado para localizar desordens genéticas, tais como o autismo, a desordem bipolar e certos tipos de câncer, afirma Randy Jirtle, professor de oncologia de radiação da Universidade Duke.

Durante o desenvolvimento fetal, o "gene do traseiro grande" (chamado de callipyge, palavra grega que quer dizer "nádegas bonitas") interrompe a produção de células de gordura. Com menos células gordurosas, a energia é convertida em músculos maciços. É possível que um distúrbio no mesmo gene, ou na região em que ele se localiza nos seres humanos, possa fazer com que uma pessoa acumule gordura extra a partir do nascimento.

A história dos carneiros de traseiro grande começou há 20 anos, quando um fazendeiro observou que um jovem carneiro do seu rebanho estava desenvolvendo traseiros avantajados e musculosos, como resultado de uma mutação ocorrida naturalmente. Ele inferiu que, caso pudesse obter, através de cruzamentos, rebanhos compostos por tais carneiros, seria possível obter mais carne por animal. O carneiro foi cruzado com fêmeas normais e, conforme previsto, o resultado foi o nascimento de cordeiros e ovelhas de traseiros grandes. Mas quando fêmeas de traseiro grande foram cruzadas com carneiros normais, as crias não apresentavam traseiros grandes. Esse resultado desafiava os padrões tradicionais de hereditariedade, afirma Jirtle, mas ninguém sabia precisar o porquê.

Dez anos depois, os cientistas passaram a procurar pelo gene do traseiro grande, mas os métodos tradicionais não possibilitaram que se descobrisse nada. Finalmente, o geneticista Brad Freking, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que liderou o estudo, obteve DNA de filhotes do carneiro original, com alto nível de consagüinidade, o decodificaram e o compararam com o DNA de carneiros normais. Dentre as mais de 450 mil "letras" do código genético, ele descobriu uma única fora do lugar. A partir dessa mutação, os cientistas rastrearam os genes. Geralmente, os pesquisadores encontram primeiro um gene para, só depois, procurar por mutações.

O gene era invisível aos métodos tradicionais de identificação, devido ao estranho padrão hereditário observado 20 anos atrás. Esse padrão complexo e mal compreendido é chamado de imprinting. Normalmente, as pessoas herdam duas cópias dos seus genes -- uma da mãe e a outra do pai. Dessa forma, se uma das cópias não funcionar bem, a outra pode desempenhar o seu papel. No caso do imprinting, somente uma das cópias funciona. É como se a outra cópia estivesse amarrada e amordaçada. Uma única mutação é capaz de cancelar inteiramente a função de um gene.

O imprinting já está associado a pelo menos três desordens genéticas graves e, provavelmente, está vinculado a muitas mais, inclusive o autismo, a desordem bipolar, a esquizofrenia e a síndrome de Tourette. Os cientistas já procuraram os genes causadores dessas desordens, sem obter sucesso. Se eles começarem as buscas tendo o imprinting em mente, os genes poderiam ser finalmente identificados. O raciocínio também pode ser válido para o caso do câncer.

Quanto aos carneiros de traseiros grandes, a grande quantidade de músculos, sem a presença de gordura, faz com que a carne fique dura e seca. Ninguém quer comprá-la.

"Tanta carne e nem um pedaço aproveitável", lamenta Jirtle.

Tradução: Danilo Fonseca

Clique aqui para ler mais notícias de saúde.

UOL Cursos Online

Todos os cursos