Estudo questiona eficácia de produtos para emagrecer

Nanci Hellmich
USA Today
Em Washington (EUA)

As pessoas que fazem dieta para emagrecer precisam tomar cuidado com as propagandas de produtos e serviços para perda de peso, que alegam "de forma grosseiramente exagerada" ser eficazes, segundo um relatório divulgado na última terça-feira pela Comissão Federal de Comércio (FTC) dos EUA.

A agência examinou 300 propagandas referentes a emagrecimento no ano passado, relativas a 218 diferentes suplementos dietéticos, substitutos de refeições, adesivos epidérmicos, cremes, vestes e outros produtos e serviços para emagrecer.

O relatório revelou que 40% das propagandas fizeram pelo menos uma alegação que quase com certeza era falsa, e 55% fizeram alguma que era provavelmente inverídica ou destituída de substância.

Uma comparação dos atuais anúncios com aqueles de 1992 sugere que houve um aumento significativo da quantidade de propagandas enganosas de produtos de emagrecimento, segundo a agência.

Atualmente, mais de 120 milhões (cerca de 61%) de pessoas nos Estados Unidos estão acima do peso ou são obesas, o que significa que elas estão com mais de 14 quilos acima do peso saudável. Os norte-americanos estão gastando bilhões de dólares em produtos e serviços com o objetivo de perder peso, de acordo com a FTC.

Os especialistas dizem que várias dessas propagandas estão desviando a atenção dos indivíduos daquelas medidas que realmente poderiam ajudá-las a atingir um peso corporal saudável.

"Não existe nenhuma pílula milagrosa que provoque o emagrecimento", afirma o secretário de Saúde, Richard Carmona. Ele diz que, para emagrecer, é necessário que o indivíduo se comprometa em adotar por toda a vida uma alimentação saudável e atividades físicas.

O estudioso da obesidade, George Blackburn, da Escola de Medicina de Harvard, afirma que "ao disseminarem falsas esperanças de uma cura rápida e barata, essas mensagens fraudulentas fazem com que as pessoas se desviem dos programas e serviços que têm se mostrado seguros e eficazes, segundo estudos científicos verossímeis".

A análise da FTC foi realizada com a assistência da organização Parceria para o Gerenciamento Saudável do Peso, uma coalizão de cientistas, acadêmicos, profissionais de saúde, agências de governo e grupos de interesse público.

Desde 1990, a agência moveu 93 processos, devido a propagandas enganosas relativas a emagrecimento, envolvendo medicamentos, suplementos alimentares, artefatos, centros de emagrecimento e equipamentos de exercício. Mas, apesar dessas iniciativas, o relatório deixou claro que "o problema está piorando", afirma o diretor da FTC, Timothy Muris.

Annette Dickinson, do Conselho para uma Nutrição Responsável, a associação comercial da indústria de suplementos dietéticos, diz que a FTC "está certa ao combater a propaganda enganosa, mas os consumidores precisam também entender que existem produtos razoáveis à venda que podem ser úteis".

O relatório afirma que há várias técnicas comuns, utilizadas nas propagandas, que deveriam deixar os consumidores desconfiados. Entre elas:

- Depoimentos e fotografias do tipo "antes e depois". Um exemplo daquilo que a agência chama de "testemunho implausível de consumidor": "Sete semanas atrás eu pesava 121 quilos, e agora estou com apenas 67! Durante esse período eu não modifiquei os meus hábitos alimentares nem um pouco: os quilos que perdi devem ter desaparecido somente devido a esta nova cápsula de emagrecimento".

- Alegações de perda de peso rápida. Há quem diga que as pessoas que fazem dieta podem perder até cinco quilos por semana usando certos produtos.

- Não é necessária a adoção de nenhuma dieta ou exercício. Essa alegação é comum em propagandas de pílulas de efeito rápido, adesivos epidérmicos, poções e programas, apesar da evidência científica de que, tanto a dieta quanto o exercício são fatores fundamentais para a perda de peso, diz a agência. Uma propaganda diz o seguinte: "Você pode comer o quanto quiser e, ainda assim, perderá peso".

Algumas propagandas prometem perda de peso em longo prazo, se gabam de que o produto é clinicamente testado ou aprovado por um médico, ou ainda elogiam tal método ou remédio por ser capaz de proporcionar a perda de peso de forma natural e segura.

A agência recomenda que:

- A mídia adote métodos razoáveis de averiguação que identifiquem as propagandas enganosas. A FTC afirma que as grandes redes de televisão, como a ABC, a NBC e a CBS já utilizam métodos rigorosos para filtrar tais produtos.

- As pessoas que fazem dieta sejam informadas sobre aquilo que é necessário para que mantenham um peso saudável, que aprendam como comprar inteligentemente serviços e produtos para o emagrecimento, e que tomem cuidado com as propagandas que prometem resultados rápidos.

- As associações comerciais e os grupos auto-reguladores se esforcem mais para educar os seus membros a respeito dos padrões de propaganda honesta e que garantam que esses padrões sejam colocados em vigor.

Louis Hodges, professor de ética no jornalismo da Universidade Washington and Lee, em Lexington, Virginia, diz que a idéia de se solicitar às organizações de mídia que sejam mais rigorosas quanto à veiculação das propagandas é bem razoável.

"Essas organizações devem procurar evitar a publicação de qualquer tipo de informação enganosa, quer se trate de propaganda ou de divulgação de notícias", afirma Hodges. "Realizar tal tarefa de forma perfeita seria algo difícil, mas poderíamos fazer um trabalho melhor do que o atual".

"Trata-se de uma conclamação para que essas organizações façam algo além de agirem em puro interesse próprio", diz ele.

Segundo Jeffrey Seglin, professor de editoração e redação da Universidade Emerson, em Boston, muitos veículos de mídia já analisam criticamente as propagandas. "Aqueles que já o fazem vão continuar a fazê-lo, e os que ainda publicam propaganda enganosa vão, provavelmente, romper com tal prática no futuro".

Ele diz que parece que "a FTC está pedindo aos veículos de mídia que façam o trabalho que cabe à comissão".

Tradução: Danilo Fonseca

Clique aqui para ler mais notícias de saúde.

UOL Cursos Online

Todos os cursos