É difícil definir o sucesso na guerra contra o terrorismo

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington (EUA)

Durante o primeiro ano da guerra contra o terrorismo, o sucesso foi muitas vezes algo difícil de se avaliar, em um conflito que o presidente Bush advertiu que seria travado nas sombras. E, à medida que essa guerra vai se desenrolando, os norte-americanos não estão tendo que fazer muitos sacrifícios.

Mas essa situação pode estar mudando. Uma guerra iminente contra o Iraque -- muita gente aqui nesta cidade acredita que o conflito é uma questão de "quando", e não de "se" -- certamente vai proporcionar meios de avaliação de sucessos e fracassos em meio a novos perigos. E, talvez subestimados quanto ao seu peso cumulativo, houve uma série de aparentes sucessos durante o mês de setembro nessa guerra entre as sombras que se desenrola em todo o globo.

Quase que diariamente, parece que os Estados Unidos ou os seus aliados, especialmente o Paquistão, anunciam a prisão de supostos líderes terroristas ou de membros de células de elementos extremistas. Ninguém forneceu ainda uma versão oficial sobre o quanto esses fatos teriam diminuído a ameaça do terrorismo ou abalado a Al Qaeda. Mas a ausência de um ataque sério no aniversário do 11 de setembro, até mesmo por parte de um imitador atrapalhado, poderia ser um sinal de que a inteligência dos Estados Unidos e de seus aliados, bem como as forças policiais, estão no rumo certo.

Ambas as comunidades precisam de fatos positivos, depois que auditorias no Congresso denunciaram detalhadamente como as agências norte-americanas de inteligência falharam em neutralizar ameaças específicas e persistentes de terrorismo.

Apesar da aparência de fortaleza exibida por setores oficiais de Washington, das medidas de segurança em espaços públicos e do pesar generalizado na nação, após o 11 de setembro, os Estados Unidos, como um todo, não foram tomados por uma sensação de sacrifícios de tempos de guerra no decorrer do ano que se seguiu aos ataques.

Não há versões do século 21 de jardins da vitória, cartelas de racionamento ou medidas drásticas para a redução do consumo de energia. O único fato diferente para a frota de carros esporte que invadem esta cidade todos os dias é o apelo para que os motoristas fiquem de olhos abertos, a fim de identificarem qualquer coisa incomum. No mais, os preços da gasolina estão em geral mais baixos do que no ano passado.

Parece que o sacrifício está sendo definido como reação a vagos e coloridos alertas de terror, e paciência nas longas filas dos aeroportos.

Será que se perdeu uma janela de oportunidade? Bush poderia ter estabelecido uma série de metas nacionais durante o período de unidade que se seguiu a 11 de setembro de 2001, que não só seriam direcionados para a vitória na guerra, mas também para a identificação dos fatores que estão por detrás da ameaça terrorista? Entre tais fatores, um dos principais é a enorme dependência dos Estados Unidos com relação ao petróleo oriundo do caldeirão político do Oriente Médio.

Em meio à Guerra Fria, não muito antes de um grave impasse nuclear com a União Soviética, John F. Kennedy desafiou a nação a ir à Lua até o final da década de 60. A missão foi cumprida. E os benefícios colaterais foram bem maiores do que o impacto psicológico e o orgulho cívico devido ao fato de os astronautas terem fincado a bandeira dos Estados Unidos em uma duna lunar.

Grande parte das tecnologias de computadores, aeroespaciais e outras, que hoje tornam as nossas vidas diárias mais fáceis, derivam dos bilhões de dólares empregados nesse sonho exploratório. Quando Neil Armstrong pisou na Lua naquela noite de julho, 33 anos atrás, os benefícios do seu passo gigantesco estavam apenas começando a ser sentidos.

O que teria acontecido se, logo após o pesar do 11 de setembro, Bush tivesse feito um discurso nacional, conclamando a nação a reduzir o consumo de combustíveis fósseis em 25% no decorrer da próxima década? Atualmente, quando certos fabricantes de veículos fazem carros híbridos, movidos a eletricidade e combustível convencional, isso poderia ser possível sem uma meta nacional.

Mas o governo pode fazer mais do que pressionar e bajular. O desenvolvimento de energia alternativa -- solar, eólica e de biomassa -- entra e sai periodicamente de moda desde a crise de energia dos anos setenta. No entanto, os tempos de guerra tem a capacidade de fazer com que as coisas sejam reduzidas aos seus aspectos essenciais.

Bush, que possui laços fortes com a indústria petrolífera, teria a suprema legitimidade para conclamar a nação a consumir menos e a reduzir a sua dependência com relação a uma região perigosa do planeta.

Os políticos afirmam freqüentemente que nunca subestimam a determinação do povo norte-americano, mas este pode ter sido um caso em que eles fizeram exatamente tal coisa. Uma meta nacional de redução do consumo de energia poderia não ser tão sedutora quanto colocar um homem na Lua. Mas ela daria aos norte-americanos uma sensação maior de divisão de sacrifícios, naquilo que Bush afirmou que será uma longa luta.

Tradução: Danilo Fonseca

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