Polêmica entre democratas e republicanos sobre Iraque era inevitável

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington (EUA)

Para um político, até que Tom Daschle não tem pavio curto. Mas é um pavio que, no final, atinge altas temperaturas.

A sua manifestação indignada no Senado a respeito dos comentários feitos pelo presidente Bush sobre a questão da segurança interna, durante um evento para arrecadação de fundos no Estado de Nova Jersey, surpreendeu muita gente, mas não aqueles que o conhecem bem.

Mais paciente e persistente do que a média dos seus colegas, Daschle também possui a sua maneira de deixar que as pessoas saibam que está descontente. Um ex-assessor, Bob Martin, certa vez descreveu uma "atitude gelada" que Daschle é capaz de dispensar àquelas pessoas que ele acha que o ludibriaram. O colega John Holum, também nativo de Dakota do Sul, e especialista em controle de armas da administração Clinton, disse que a aparência calma de Daschle esconde "o aço de que é feita a sua espinha".

Enquanto fazia campanha em Nova Jersey, Bush atacou o Senado, que é controlado pelos democratas, acusando-o de atrasar a legislação que criaria um novo Departamento de Segurança Interna, tendo ainda questionado se o Senado -- liderado por Daschle -- estaria realmente comprometido com a segurança dos norte-americanos. A declaração de Bush foi considerada como uma utilização imprópria do palanque eleitoral, e gerou preocupações quanto a possibilidade de que o governo esteja aplicando um "teste patriótico" a qualquer pessoa que questione as minúcias dos planos se segurança interna do presidente.

Daschle afirmou que as observações de Bush são ultrajantes e, em um discurso exaltado e emocionado no plenário do Senado, exigiu desculpas do presidente. Bush se recusou a se desculpar. E, de repente, as ilusões de que o debate sobre o Iraque e o terrorismo ficariam acima das questões políticas se desvaneceram.

Mas, na verdade, a manifestação de Daschle foi muito mais do que apenas a reação a uma frase do discurso feito por Bush em Nova Jersey.

Durante semanas, os democratas vinham tentando encontrar uma forma de dizer como os Estados Unidos deveriam confrontar Saddam Hussein. Os liberais, que desejam evitar a guerra, e que são a favor das inspeções realizadas pela ONU, reclamaram de que Daschle, que em geral vinha apoiando Bush quando se tratava de questões relativas ao terrorismo e às ameaças representadas por Saddam Hussein, na lhes estaria dispensando o crédito necessário. Já os conservadores sugeriram que qualquer atitude que não fosse o apoio total a Bush equivaleria a compactuar com um ditador do quilate de um Hitler.

Daschle há pouco viu Al Gore, oponente de Bush em 2000, conquistar as manchetes de jornais com um discurso em que advertiu sobre uma ação unilateral dirigida contra o Iraque e questionou o momento em que se trava o debate sobre o assunto, às vésperas das eleições parlamentares. Tratou-se de um discurso que poderia ter sido feito pelos senadores democratas, caso estes não estivessem preocupados com a possibilidade de que expressar reservas sobre a ameaça iraquiana pudesse fazer com que fossem tidos como condescendentes com Saddam.

Após o seu discurso, Gore foi violentamente criticado pelo porta-voz do Partido Republicano, Jim Dyke, e alguns comentaristas acusaram o ex-vice-presidente de oportunismo político. Mas os liberais comemoraram o fato de haver uma voz distinta que não se limita apenas a fazer eco a Bush.

Dentro de todo esse quadro, a equipe de Daschle diz ter descoberto que o comentário feito por Bush em Nova Jersey não foi algo isolado, mas sim parte da sua estratégia política para arrecadar verbas. Os assessores de Daschle afirmam que Bush fez insinuações semelhantes em seis outras ocasiões.

Portanto, tratou-se de um acúmulo de frustrações para Daschle, que pode disputar a Presidência em 2004.

O desentendimento entre Bush e Daschle aconteceu dias após lideranças democratas e republicanas terem afirmado enfaticamente que o debate a respeito do Iraque e a guerra contra o terrorismo não deveria afetar as disputas pela Câmara e pelo Senado este ano.

"Não creio que haja um desentendimento interpartidário com relação à guerra, e a minha grande esperança é que tal desavença não seja gerada neste momento", afirmou o diretor do Comitê Nacional Republicano, Marc Racicot.

O diretor do Comitê Democrata, Terry McAuliffe, concorda. "Não haverá benefícios políticos para os republicanos; não se trata de uma questão partidária", disse ele.

Mas essas mostraram ser expectativas irrealistas. O fato de pedir aos norte-americanos que ignorem a posição de um político com relação a questões de guerra e paz é algo como pedir que ignorem um elefante em um extremo de uma sala e um burro na outra (os dois animais são símbolos dos partidos republicano e democrata, respectivamente). E esperar que haja unanimidade quanto ao melhor rumo a ser seguido quanto a inimigos evasivos como os terroristas e ditadores que vivem sob um manto de segredo também é algo nada realista.

A Constituição concede ao Congresso o poder para "decidir sobre a defesa comum" e para declarar guerra. Os fundadores da nação também elaboraram um corpo legislativo com a finalidade de sondar as demandas do povo, levando em conta as diversas regiões e pontos de vista.

Os democratas já trilharam essa estrada anteriormente. O próprio Gore é uma prova disso.

Na votação de 1991 sobre a Guerra do Golfo Pérsico, a maior parte dos democratas no Senado queria dar mais tempo para que as sanções econômicas fizessem com que Saddam e suas tropas saíssem do Kuait. Mas o Senado ainda assim aprovou a resolução favorável à guerra, por 52 votos a 47, com oito votos democratas a favor. Um dos votos democratas favoráveis à guerra foi o de Gore. Desde então esse voto se transformou em motivo de polêmica em toda a campanha na qual ele se engaja.

Tradução: Danilo Fonseca

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