Saiba as respostas para as principais dúvidas sobre um possível ataque ao Iraque

Susan Page
USA Today

Por que a guerra é iminente, e por que logo agora? Como ela seria travada? Quais são os riscos para as tropas norte-americanas, para os aliados dos Estados Unidos e para a economia? E o que aconteceria após tal guerra?

Jornalistas do USA Today em Washington e na região do Golfo Pérsico entrevistaram autoridades norte-americanas e estrangeiras, especialistas independentes e líderes da oposição iraquiana, a fim de obter respostas para estas e outras perguntas. Autoridades dos Estados Unidos descrevem um conflito que poderia ter início já em dezembro, e terminar -- assim eles esperam -- em algumas semanas. Se Saddam fosse capturado, poderia ser julgado por crimes de guerra, mas ainda não se sabe onde. A sua derrubada poderia estabilizar a região, ou inflamá-la.

Muitas dessas perguntas não têm respostas fáceis -- e, de fato, só serão respondidas retrospectivamente, pela história.

Pergunta: A guerra é inevitável?

Resposta: Apesar de não se ter certeza de que ela vá ocorrer, a guerra é nitidamente provável. O presidente Bush estabeleceu a meta de não só eliminar as supostas armas de destruição em massa iraquianas, como também de "mudar o regime" -- e ninguém espera que Saddam Hussein deixe o poder voluntariamente. A CIA está trabalhando em conjunto com grupos de oposição e procurando aliados potenciais dentro do Iraque, no intuito de encorajar um golpe, mas tal possibilidade parece remota.

Bush afirma que ainda não tomou uma decisão final a respeito da guerra. Mas somente a derrubada ou a renúncia de Saddam, ou algum fato inesperado, poderia impedir Bush de adotar uma ação militar contra o Iraque.

Pergunta: Por que fazer uma guerra neste momento?

Resposta: Bush afirma que o regime de Saddam representa "uma ameaça séria e cumulativa", devido ao risco de que o líder iraquiano esteja desenvolvendo armas de destruição em massa -- químicas, biológicas ou nucleares -- e que possa fornecê-las a terroristas. O governo delineou uma doutrina estratégica de prevenção: atacar inimigos potenciais antes que estes ataquem os Estados Unidos. Essa é uma mudança filosófica fundamental dos elaboradores de políticas norte-americanas, motivada pelos ataques terroristas de 11 de setembro. Mas alguns críticos rebatem o argumento de Bush de que a ameaça representada por Saddam seria iminente.

Pergunta: Quando começaria a guerra?

Resposta: A partir do início de dezembro, quando terá terminado o mês sagrado muçulmano do Ramadan e o clima estará mais moderado, segundo analistas. As altas temperaturas dificultam a movimentação de tropas norte-americanas em veículos blindados, cujo interior pode ficar aquecido a níveis perigosos. Temperaturas amenas também facilitam a utilização dos pesados trajes de proteção contra armas químicas e biológicas.

Pergunta: Quanto tempo duraria a guerra?

Resposta: Especialistas em defesa acreditam que Saddam poderia ser retirado do poder em questão de semanas, caso a maior parte do exército iraquiano o abandonasse, assim como fizeram milhares de seus soldados durante a Guerra do Golfo de 1991. Mas esses especialistas admitem ser possível que a batalha dure mais tempo, caso o exército regular e a Guarda Republicana de elite de Saddam se dispersem em Bagdá e outros centros urbanos. As forças norte-americanas foram treinadas para guerrilha urbana, mas esse tipo de combate implica em grandes riscos de que haja baixas entre a população civil, e minimiza as vantagens de um arsenal de alta tecnologia. Os estrategistas de guerra dos Estados Unidos querem que a guerra termine até o final de abril, quando começa o período mais quente do ano.

Pergunta: Com que intensidade lutariam os iraquianos?

Resposta: As autoridades norte-americanas estão apostando em uma repetição do conflito de 1991, quando dezenas de milhares de soldados iraquianos preferiram se render, para não morrer. O Pentágono lançaria uma maciça campanha de propaganda, usando panfletos e transmissões de rádio -- a chamada "psyops", a sigla, em inglês, de operações psicológicas -- a fim de minar a determinação iraquiana, argumentando que a guerra não é dirigida contra o povo iraquiano, e sim contra o seu líder tirânico.

Uma campanha mais elaborada de psyops teria como alvo os oficiais que controlam os mísseis iraquianos, que se suspeita conterem ogivas com agentes químicos ou biológicos. A mensagem seria: desobedeçam as ordens de Saddam para disparar tais armas, ou vocês serão tratados como criminosos de guerra.

Pergunta: Que tipo de guerra seria essa?

Resposta: Bastante diferente da Guerra do Golfo. Naquela época, o objetivo era derrotar o exército iraquiano e libertar o Kuait. Agora, a meta seria derrubar Saddam, mas não necessariamente derrotar as suas forças armadas, especialmente se a maior parte das forças iraquianas pudesse ser persuadida a não lutar.

Nesta guerra, os Estados Unidos utilizariam armas de alta tecnologia -- incluindo aviões de reconhecimento não tripulados e "bombas inteligentes" guiadas por satélite --, e não uma força maciça. Ao invés disso, uma campanha de bombardeio seria seguida por forças terrestres norte-americanas de avanço rápido, incluindo tropas de operações especiais de elite.

Historiadores militares comparam a guerra que parece iminente com uma misto de invasão do Panamá, em 1989, que tirou do poder o ditador Manuel Noriega, com a recente guerra no Afeganistão.

Pergunta: Seria possível que Saddam fugisse, ao invés de lutar?

Resposta: O secretário de Defesa Donald Rumsfeld sugeriu que os Estados Unidos aceitariam o seu exílio: "Há vários ditadores vivendo em vários países do mundo em um discreto esplendor". Ele mencionou Jean-Claude Duvalier, do Haiti, que fugiu para a França, e Idi Amin, de Uganda, que se exilou na Arábia Saudita. Autoridades diplomáticas e do governo norte-americano citam a Argélia, a Mauritânia e o Marrocos como possíveis refúgios para um Saddam deposto.

Mas não há indicações de que Saddam tenha interesse por essa alternativa. Desde o final da Guerra do Golfo, ele construiu mais de 50 fortalezas, que chama de palácios presidenciais. Ele cerca a sua movimentação de sigilo, utiliza dublês para fazer com que seja mais difícil conhecer o seu paradeiro e dificilmente dorme no mesmo lugar por duas noites seguidas.

Uma terceira possibilidade é que, ao invés de lutar ou fugir, ele faça como Osama bin Laden. Ou seja, desapareça, sem, no entanto, abdicar do poder.

Pergunta: A campanha de bombardeio já começou?

Resposta: Não oficialmente, mas Rumsfeld reconhece que os Estados Unidos modificaram a sua reação no caso de aeronaves norte-americanas serem assinaladas por radares ou baterias anti-aéreas, quando estão patrulhando as zonas no norte e no sul do Iraque, onde aeronaves iraquianas estão proibidas de operar desde o fim da Guerra do Golfo. Ao invés de disparar contra as instalações anti-aéreas ou de radar, os aviões começaram a bombardear infra-estruturas maiores de defesa aérea, tais como centros de controle e comando. Oficiais do Pentágono dizem que estão aproveitando a oportunidade para enfraquecer a rede de defesa anti-aérea de Saddam.

Pergunta: Saddam possui armas de destruição em massa -- e ele as utilizaria?

Resposta: Oficiais de inteligência acreditam que Saddam possui estoques de gás sarin, antraz e, talvez, da toxina do botulismo. Mas eles dizem que o Iraque ainda é incapaz de produzir o plutônio ou o urânio enriquecido necessário à fabricação de uma arma atômica.

Quanto a saber se ele usaria ou não tais armas, trata-se de uma incógnita, e de um risco que, atualmente, é maior do que durante a última Guerra do Golfo. Na época, os Estados Unidos ameaçaram retaliar de forma avassaladora, caso o Iraque fizesse uso de armas de destruição em massa, e Saddam preferiu retroceder. Desta vez, ele pode acreditar que não tem nada a perder. Os mísseis iraquianos possuem um alcance máximo estimado entre 644 Km a 885 Km. As autoridades se preocupam com a possibilidade de que o Iraque arme um míssil Scud com ogivas químicas ou biológicas e o dispare contra Israel, ou que carregue peças de artilharia com agentes químicos ou biológicos para serem utilizados contra tropas norte-americanas. Uma aeronave teleguiada dotada de equipamento de pulverização agrícola seria capaz de lançar uma nuvem de agentes biológicas sobre tropas israelenses ou norte-americanas. Ou, ainda, um terrorista poderia se infiltrar com uma arma química ou biológica nos Estados Unidos.

Segundo o general Richard Myers, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, acabar com a capacidade de Saddam em utilizar armas de destruição em massa seria uma prioridade máxima. Ataques aéreos alvejariam sistemas antiaéreos, mísseis e aeronaves. As autoridades do Pentágono lançariam ataques com tropas terrestres de elite contra os locais que têm grande probabilidade de ocultarem arsenais químicos ou biológicos.

Um cenário que preocupa os estrategistas é a possibilidade de que os Estados Unidos sejam capazes de derrubar Saddam Hussein, mas que não consigam assumir o controle sobre as suas armas químicas e biológicas, que se acredita estarem dispersas em vários pontos. Eles reconhecem que isso significaria uma vitória vazia.

Pergunta: Até que ponto a inteligência dos Estados Unidos no Iraque é confiável?

Resposta: Na melhor das hipóteses a inteligência tem sido circunstancial desde que os inspetores de armamentos da ONU deixaram o país, em 1998, em meio a uma desavença a respeito de supostos depósitos de armamentos. Desde então, oficiais de inteligência suspeitam que o Iraque ocultou laboratórios de armas biológicas em escolas, mesquitas e outros locais. Os iraquianos monitoram as órbitas dos satélites espiões dos Estados Unidos, e se engajam em atividades suspeitas quando os satélites não estão sobre o país.

Pergunta: As inspeções de armas feitas pela ONU poderiam ser uma alternativa à guerra?

Resposta: Provavelmente não. O governo Bush prometeu impedir o retorno dos inspetores, a menos que estes estejam respaldados por uma nova resolução do Conselho de Segurança, exigindo acesso às instalações iraquianas "a qualquer hora e a qualquer lugar", inclusive aos palácios presidenciais de Saddam. Dificilmente o Iraque aceitará tais condições. O governo norte-americano acredita que uma polêmica a respeito das inspeções fortaleceria os argumentos favoráveis à guerra.

Além do mais, Rumsfeld e o vice-presidente Cheney dizem que apenas a saída de Saddam, e não somente as inspeções, poderia garantir o fim do programa iraquiano de fabricação de armas químicas, biológicas e nucleares.

Pergunta: Sendo assim, qual seria o papel das Nações Unidas?

Resposta: O governo Bush gostaria que o Conselho de Segurança aprovasse uma resolução dura e que autorizasse a adoção de "medidas que teriam sérias conseqüências", caso o Iraque não a acatasse. Mas Bush deixou claro que os Estados Unidos estão preparados para ir em frente com o seu projeto bélico mesmo sem uma resolução por parte da ONU.

Pergunta: Como o povo iraquiano responderia a um ataque?

Resposta: É difícil avaliar a opinião de um povo que vive sob uma ditadura. Os muçulmanos xiitas, que são maioria em um país governado por uma minoria sunita, há muito tempo são oprimidos por Saddam e, provavelmente, veriam com bons olhos a sua deposição. Os curdos iraquianos também sofreram sob o regime de Saddam, mas querem estar certos de que não perderão a sua autonomia relativa no norte do Iraque, onde são protegidos por aeronaves norte-americanas e britânicas desde o fim da Guerra do Golfo.

Já os sunitas provavelmente deverão ficar nervosos quanto à possibilidade de perderem a sua supremacia. E, caso um ataque cause grande número de baixas iraquianas, ou se a guerra for prolongada, a opinião pública pode se voltar contra os Estados Unidos.

Pergunta: Uma invasão liderada pelos Estados Unidos estimularia a eclosão de manifestações de desagrado ou de violência em outros pontos da região?

Resposta: Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe, adverte que uma guerra dos Estados Unidos contra o Iraque "abriria as portas do inferno" no Oriente Médio. Poderia haver violentos protestos em toda a região, especialmente se Israel se envolver na guerra. O maior desafio estaria na Jordânia, que possui uma população majoritariamente palestina e um jovem rei que é pró-ocidente. "As ruas vão ficar furiosas", prevê o ministro das Relações Exteriores jordaniano, Marwan Muasher. "A população nas ruas vai encarar o evento como uma guerra entre norte-americanos e árabes e entre norte-americanos e muçulmanos".

A reação árabe vai depender, em parte, de se o ataque vai contar ou não com o apoio da ONU, de quanto tempo vai durar a guerra, de quantos árabes vão morrer e de como o povo iraquiano responderá, caso Saddam seja derrubado. Se os iraquianos forem vistos comemorando nas ruas, isso poderia desestimular protestos árabes em outras áreas.

Pergunta: Como responderiam os líderes árabes da região?

Resposta: A maioria dos líderes árabes não gosta de Saddam Hussein, mas se opõe a um ataque, a menos que este seja sancionado pelas Nações Unidas. Mesmo neste caso, esses governantes ficariam inquietos devido à possibilidade de ocorrerem revoltas populares. Líderes do Irã, um vizinho muçulmano ­ mas cuja população não é árabe - que travou uma longa guerra com o Iraque na década de 80, teriam uma posição ambivalente. Eles ficariam satisfeitos com a derrubada de Saddam, mas talvez preocupados com a possibilidade de que o seu país fosse o próximo alvo dos Estados Unidos.

Pergunta: E se Israel for atacado, vai retaliar?

Resposta: Provavelmente. As autoridades israelenses dizem que tem o direito de retaliar, e os Estados Undios forneceram a Israel os "códigos de identificação de amigos e inimigos", necessários para que aeronaves israelenses participem da campanha sem o risco de derrubarem aviões norte-americanos. Isso representa uma mudança de posição em relação à Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos solicitaram a Israel que não retaliassem, a fim de evitar que a coalizão ­- composta de vários países árabes -­ se esfacelasse. Israel concordou, ainda que o país tivesse sido atingido por 39 mísseis Scud iraquianos.

Pergunta: E quanto ao povo e ao Congresso norte-americanos?

Resposta: Os norte-americanos tradicionalmente se unem em torno do presidente quando a nação vai à guerra. O Congresso parece inclinado a aprovar resoluções que autorizem o presidente a agir. Todos os prováveis candidatos às prévias para a escolha do candidato democrata à Presidência em 2004, que atualmente fazem parte do Congresso, devem votar favoravelmente, embora o oponente de Bush em 2000, o ex-vice-presidente Al Gore, argumente que os Estados Unidos deveriam se dedicar primeiramente a combater a rede terrorista Al Qaeda.

No entanto, as pesquisas de opinião demonstram que o público manifesta ceticismo quanto a uma abordagem unilateral, e que preferiria que Bush conseguisse primeiramente o apoio do Congresso e das Nações Unidas. E, caso a guerra se estender, se as baixas norte-americanas se acumularem, ou se terroristas atacarem os Estados Unidos como forma de retaliação, o apoio do público poderia desaparecer.

Pergunta: Uma guerra provocaria ataques terroristas contra os norte-americanos?

Resposta: A Guerra do Golfo, em si, não desencadeou ataques terroristas, mas a guerra levou à ampliação da presença dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, especialmente na Arábia Saudita. A expulsão dos norte-americanos da Arábia Saudita, onde estão os locais mais sagrados para o islamismo, se transformou em uma bandeira de luta para Bin Laden, e em uma arma de recrutamento para a rede Al Qaeda. Desta vez, os estrategistas militares acreditam que haverá uma presença militar norte-americana de longo prazo no Iraque após Saddam ser derrubado. Essas tropas poderiam ser alvos de ataques. A sua presença, e a própria guerra, poderiam alimentar sentimentos anti-americanos, e estimular a realização de mais ataques terroristas.

Pergunta: Qual seria o custo de uma guerra? Quem pagaria a conta?

Resposta: Lawrence Lindsey, assessor econômico de Bush, estima que os custos fiquem entre US$ 100 bilhões e US$ 200 bilhões. Mesmo US$ 100 bilhões é uma quantia que representa mais do que os orçamentos anuais somados para o departamento da Educação e o de Veteranos de Guerra. Parlamentares democratas do Comitê do Orçamento, na Câmara dos Deputados, estimam que os custos para uma guerra que dure entre 30 e 60 dias fiquem entre US$ 48 bilhões e US$ 93 bilhões, dependendo de quantos soldados norte-americanos sejam mobilizados.

O Departamento de Orçamento do Congresso, suprapartidário, afirma que a guerra teria um custo que ficaria entre US$ 6 bilhões e US$ 9 bilhões mensais; e uma posterior ocupação custaria algo entre US$ 1 bilhão e US$ 4 bilhões por mês. O envio inicial de tropas custaria entre US$ 9 bilhões e US$ 13 bilhões, segundo o departamento. Trazer as forças norte-americanas de volta para casa custaria entre US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões.

Em 1991, governos aliados arcaram com a maior parte do custo de US$ 61 bilhões da Guerra do Golfo (o equivalente a US$ 80 bilhões, considerando-se a inflação). Desta vez, os Estados Unidos vão ter que pagar sozinhos a maior parte da despesa.

Pergunta: Qual seria o impacto da guerra sobre a economia norte-americana?

Resposta: Preocupações com a possibilidade de uma guerra já estão tendo um peso adverso sobre a frágil recuperação econômica. Quando o Iraque invadiu o Kuait, em 1990, o S&P 500 caiu 15% em dois meses. Mas, assim que a campanha de bombardeio norte-americano começou, este índice subiu, e, após ter sido declarado o cessar-fogo, ficou em um patamar 3% mais elevado do que aquele anterior ao ataque.

Pergunta: E quanto à produção de petróleo?

Resposta: A perda do petróleo iraquiano durante uma guerra não provocaria carência importante do produto, segundo os especialistas, e diplomatas norte-americanos estão buscando compromissos por parte de outros países produtores no sentido de que estes compensem a falta da produção iraquiana. No entanto, pode haver problemas se um outro grande país produtor de petróleo for afetado, por razões políticas, ou se o conflito se disseminar. Os economistas se preocupam com a possibilidade de que um aumento constante do preço do petróleo possa empurrar o país de volta para uma recessão.

Pergunta: O que os Estados Unidos fariam com Saddam Hussein, caso o capturassem?

Resposta: Ele seria julgado por crimes de guerra, embora ainda não esteja claro como isso seria feito. O Departamento de Estado está financiando um grupo que prepara documentos para acusar formalmente Saddam de crimes contra a humanidade, tais como a utilização de armas químicas contra os iraquianos curdos nos anos oitenta. Mas tal esforço poderia ser mal sucedido, devido à oposição manifestada pelo governo Bush ao novo Tribunal Criminal Internacional. Os Estados Unidos poderiam solicitar a um outro país que organizasse um tribunal, como aquele na Holanda, que está julgando o ex-líder iugoslavo Slobodan Milosevic. Alguns iraquianos gostariam de organizar um tribunal no próprio país, para julgar Saddam e os seus principais aliados.

Pergunta: Quem governaria o Iraque, caso Saddam fosse deposto?

Resposta: Até o momento, não existe nenhum nome óbvio para substituir Saddam. As possibilidades entre a comunidade iraquiana no exílio incluem Hatem Mukhlis, cirurgião de Binghamton, Nova York, que é nativo da cidade natal de Saddam, Tikrit, e que veio de uma importante família árabe, além de Najib Salhi, um ex-general que mora na Virginia. Em Londres, Sharif Hussein Bin Al-Ali, primo do último rei, que foi deposto em 1958, lidera um grupo de exilados que deseja que haja um plebiscito para reinstituir a família real.

Ahmed Chalabi, líder do Congresso Nacional Iraquiano, um grupo com sede em Londres, possui vínculos estreitos com o Pentágono. Mas esse ex-banqueiro não conta com simpatizantes no Iraque.

Os analistas dizem que serão necessárias tropas estrangeiras para policiar o Iraque, por um período de pelo menos um ano, e talvez até mais tempo, após Saddam ser derrubado. Barham Salih, primeiro-ministro de um governo regional, criado no norte do Iraque, sob a proteção dos Estados Unidos, afirma que eleições para compor uma assembléia constituinte poderiam ser realizadas no prazo de um ano. Ministros leais a Saddam seriam removidos dos seus cargos ­ neste momento, autoridades norte-americanas discutem quantos deles seriam afastados -, mas a maior parte dos funcionários públicos seria mantida nas suas funções.

Pergunta: Que papel seria desempenhado pelos líderes oposicionistas iraquianos que atualmente estão no exílio?

Resposta: Autoridades dos Estados Unidos estão divididas quanto ao papel dos grupos de oposição e não sabem se eles poderiam ajudar a preencher o vácuo de poder em Bagdá e prevenir a eclosão do caos, quando Saddam fosse deposto. Cogita-se a criação de um governo de transição no exílio, com vagas reservadas para alguns indivíduos que ainda estão no Iraque. O Departamento de Estado tem patrocinado reuniões nos últimos seis meses com os seis principais grupos de oposição, a fim de discutir aspectos relativos a um governo do Iraque após a derrubada de Saddam. Mas fontes de oposição reclamam da ausência de um plano coerente. Esses grupos planejam se reunir novamente neste mês (outubro) na Europa.

O Pentágono está considerando a possibilidade de treinar cerca de mil membros da oposição iraquiana, para usa-los como tradutores, guias e batedores para as unidades militares dos Estados Unidos.

Não há consenso sobre quantos iraquianos voltariam para casa, caso Saddam fosse derrubado. Desde que ele se consolidou no poder, em 1979, milhões de pessoas fugiram do país.

Pergunta: Qual seria o papel dos Estados Unidos na criação de um novo governo?

Resposta: O governo já começou a fazer alguns planos para um Iraque pós-Saddam. Mas Bush tem pouca paciência para com a "construção de nações", um conceito que foi alvo de suas zombarias durante a campanha presidencial de 2000. Ele estaria inclinado a passar grande parte dessa responsabilidade para as mãos das Nações Unidas. Os custos da reconstrução do pós-guerra poderiam ser altos. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos contribuíram com US$ 1,3 bilhão ­ quase US$ 11 bilhões, a preços de hoje ­ sob o Plano Marshall, para a reconstrução da Alemanha.

O vice-secretário de Defesa, Paul Wolfowitz, defensor da guerra, diz que o Iraque, que possui uma população educada e uma fonte imediata de rendimentos, que é o petróleo, poderia se transformar em um modelo florescente de democracia em um mundo árabe destituído de governos democráticos. Mas há quem duvide de que o governo Bush vá se preocupar com quem, no final das contas, governe o país, contanto que se trate de uma liderança pró-americana.

Pergunta: O Iraque poderia se dividir em vários países?

Resposta: As autoridades dos Estados Unidos defendem a manutenção de um Iraque unido, mas há preocupações de que os curdos, no norte, e os xiitas, no sul, possam tentar se separar. A Turquia, um aliado chave dos Estados Unidos, se opõe veementemente a um Curdistão independente, que poderia agir como um pólo de atração ou um modelo para os seus próprios curdos, que compõe cerca de um quinto da população turca. O Irã nutre preocupações semelhantes. Há muito tempo, os curdos da região desejam ter o seu próprio Estado.

Pergunta: Qual seria o impacto de uma guerra na região?

Resposta: Vários opositores da guerra com o Iraque temem que tal conflito venha a unir as nações árabes do mundo contra os Estados Unidos e os seus aliados. Brent Scowcroft, assessor de segurança nacional do primeiro presidente Bush durante a Guerra do Golfo de 1991, diz que ataques iraquianos contra Israel poderiam provocar uma resposta israelense com artefatos nucleares, "desencadeando um Armagedon no Oriente Médio". Outros governos árabes podem se tornar instáveis, criando o pano de fundo para décadas de conflitos no Oriente Médio e incitando terroristas, que veriam a guerra como um conflito entre norte-americanos e o mundo muçulmano.

Aqueles que apoiam a guerra dizem que um governo novo e democrático no Iraque poderia se tornar um modelo para o resto da região. Um ditador perigoso seria varrido do mapa. Governos repressores, que são refúgios para fundamentalistas islâmicos, poderiam se sentir compelidos a caminhar rumo à democracia e a eliminar terroristas, caso se convencessem que os Estados Unidos não fossem tolerar as suas atuais conjunturas.

Pergunta: Após uma guerra contra o Iraque, os Estados Unidos lançariam ataques preventivos contra outros países?

Resposta: Bush deixou claro que pretende fazer das ações preventivas um ponto fundamental da sua política externa, e rotulou o Irã e a Coréia do Norte, juntamente com o Iraque, de membros de um "eixo do mal". Mas não há sinais de que o governo pretenda realizar "ações preventivas" contra a Coréia do Norte. A administração está pressionando para que haja inspeções, no sentido de verificar se a Coréia do Norte honrou os compromissos assumidos em 1994, no sentido de abandonar o seu programa de armas nucleares, em troca de dois reatores nucleares civis. No Irã, autoridades do governo norte-americano esperam que uma geração mais nova rompa com os clérigos muçulmanos, que atualmente estão no poder.

Porém, a grande preocupação é com a possibilidade de que outras nações aleguem que a ação preventiva seja uma lógica para justificar ataques contra velhos inimigos ­ ou seja, a Rússia poderia atacar a Georgia, a China poderia invadir Taiwan, e a Índia e o Paquistão poderiam entrar em guerra pela Cashemira.

Apesar das questões relativas a uma guerra contra o Iraque, o presidente Bush diz estar preparado para agir. "Nas mentes das pessoas não há dúvidas quanto a isso. É assim que entendo as coisas", ele disse em setembro, em uma cerimônia de levantamento de verbas em South Bend, Indiana. Mas ele afirma não ter dúvidas de que os Estados Unidos "não permitiriam que os piores líderes do mundo mantivessem os Estados Unidos como refém, que colocassem em risco a nossa paz, e que ameaçassem nossos amigos e aliados com as piores armas do mundo".

Tradução: Danilo Fonseca

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