Investidores estrangeiros acompanham eleições brasileiras com nervosismo

James Cox
USA Today

Wall Street e Washington estão acompanhando com nervosismo as eleições presidenciais brasileiras deste domingo, já que o favoritismo do candidato de esquerda gerou o temor de que seja declarada uma moratória que abalaria os mercados globais e poderia colocar um fim à experiência sul-americana com reformas econômicas.

O ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva - chamado simplesmente de Lula pela maioria dos brasileiros - lidera a corrida, da qual participam quatro candidatos principais. Segundo as pesquisas de opinião, Lula conta com algo entre 46% e 49% dos votos válidos.

José Serra, o candidato governista, escolhido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso - que está se despedindo do cargo - é o segundo colocado, com cerca de 21% das intenções de votos.

Caso nenhum candidato consiga mais de 50% dos votos válidos no domingo, os dois candidatos mais votados disputarão um segundo turno em 27 de outubro. Em tal cenário, a maioria das pesquisas indica que Lula derrotará Serra.

A probabilidade cada vez maior de que Lula seja o novo presidente abalou os mercados de ações e a moeda brasileira. O real caiu 37% em relação ao dólar este ano, porque os investidores e bancos estrangeiros, abalados com a crise econômica mundial e com a moratória de US$ 141 bilhões da Argentina, retiraram frenéticamente o capital que haviam aplicado no Brasil.

Lula amenizou a sua retórica socialista nos últimos meses e enfatizou o seu desejo de impedir que a maior economia do país embarque em uma moratória, no estilo argentino, da sua dívida pública de US$ 260 bilhões.

O Brasil possui vastas reservas cambiais, US$ 30 bilhões provenientes de um recente pacote de ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI), um superávit da balança comercial e uma economia em crescimento - tudo o que é necessário para cumprir as suas obrigações para com a dívida, afirma Francisco Larios, economista da Decision Economics.

O Brasil é o maior país da América Latina, com 170 milhões de pessoas, incluindo 40 milhões que vivem na pobreza. O medo dos investidores estrangeiros é que Lula invista muito dinheiro na criação de empregos e em programas sociais dirigidos aos pobres, fazendo com que sobre pouco para o pagamento da dívida.

Uma moratória brasileira poderia:

- Punir economias de países em desenvolvimento, como a Turquia e a Indonésia, devido ao aumento das taxas de juros, que são um reflexo do risco que os investidores acreditam estar correndo quando aplicam em países de mercado emergente.

- Prejudicar companhias norte-americanas que fizeram grandes apostas no Brasil. Bancos como o Citigroup, o J.P. Morgan Chase, o FleetBoston Financial e o Bank of America possuem grandes negócios no Brasil. A Ford Motor, a General Motors, a Alcoa, a Cargill e dezenas de outras companhias norte-americanas investiram pesadamente no país.

- Desacreditar a liberalização econômica e o FMI na América Latina. O FMI e os Estados Unidos pressionaram os países latino-americanos para que abrissem as portas para os investimentos estrangeiros, desregulamentassem as suas economias e privatizassem empresas estatais. Vários países latinos abandonaram a desregulamentação, alegando que tal medida não fez com que o povo saísse do seu estado de pobreza.

"O que está prestes a acontecer no Brasil pode ser uma importante virada histórica", afirma Riordan Roett, especialista em América Latina da Universidade Johns Hopkins.

Tradução: Danilo Fonseca

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