Madonna procura desesperadamente repetir o sucesso de "Susan"

Susan Wloszczyna
USA Today

Madona provou que possui os atributos para ser uma estrela de cinema ao interpretar uma cativante prostituta de rua, na comédia "Procura-se Susan Desesperadamente" (EUA, 1985). Usando o seu estilo desinibido, ela deixou uma impressão indelével, ao ousar comer petiscos de queijo com os mãos enluvadas.

"Avaliei muitas atrizes para fazer o papel -- Melanie Griffith, Jennifer Jason Leigh e Kelly McGillis", lembra a diretora Susan Seidelman. "Mas fiquei curiosa a respeito da cantora Madonna. Ela foi escolhida pela sua personalidade, já que não tinha ainda trabalhos produzidos que servissem como indicadores do seu talento. Ela possuía aquela liberdade de espírito e uma segurança incrível".

A aspirante a atriz de 26 anos levou a arte a sério, diz Seidelman. "Embora estivesse convincente no papel dessa mulher das ruas, ela era também incrivelmente auto-disciplinada. Quando tínhamos trabalho às 7h, costumávamos pegá-la no clube onde nadava, de onde ia direto para as filmagens".

Desde então, ela acumulou sucessos no cinema. Embora a sua performance em "Evita" (EUA,1996), que ganhou o Globo de Ouro, tenha chegado perto, Madonna tem procurado desesperadamente um outro papel que se coadune tão bem com a sua mega-personalidade. De fato, a sua mais recente tentativa de alcançar a imortalidade cinematográfica, "Swept Away" (EUA, 2002), que estréia na próxima sexta-feira nos Estados Unidos, já está se deparando com a ameaça de uma onda antecipada de críticas.

Até mesmo os seus poucos sucessos, tais como "Uma Equipe Muito Especial" (EUA, 1992), mal alcançaram uma renda de US$ 100 milhões nas bilheterias. Por outro lado, até o ano passado, ela já havia vendido mais de 153 milhões de álbuns em todo o mundo. "Evita" conseguiu faturar apenas US$ 50 milhões. Já a trilha sonora do filme vendeu quatro milhões de cópias.

A primeira experiência real de Madonna em frente às câmeras não foi exatamente auspiciosa. Um espetáculo de baixo nível, pontuado de rituais satânicos e sexo grupal, "Um Certo Sacrifício" (EUA, 1979) foi filmado quando ela era uma desconhecida em Nova York, no final dos anos 70. Madonna tentou proibiu a sua divulgação, em 1985, que foi feita para coincidir com a sua fama crescente.

Vários críticos não teriam reclamado tão barulhentamente, caso a perene candidata ao superestrelato do cinema tivesse entrado na Justiça, de forma similar, para tentar impedir o lançamento de porcarias como "Surpresa em Xangai" (EUA, 1986), "Quem é Essa Garota?" (EUA, 1987) e "Corpo em Evidência" (EUA, 1993). Mas, se ela o fizesse, acabaria com um dos passatempos favoritos de tais críticos: espinafrar o trabalho cinematográfico da Material Girl.

Eis um trecho da crítica de Roger Ebert ao seus último filme, "Sobrou pra Você" (EUA, 2000): "Madonna jamais emerge como um ser humano verossímil... ela parece mais uma porta-voz de um vídeo sobre estilos alternativos de maternidade. A atriz começa o filme com um sotaque quase britânico mas, na metade da fita, está falando como norte-americana".

Até mesmo os seus fãs mais leais manifestam reservas quanto a sua atuação nas telas. Quanto lhe perguntaram se ela devia fazer mais filmes, um fã do site madonnarama.com tentou dar uma conotação positiva às deficiências da atriz, afirmando que a estrela precisaria praticar mais.

"Swept Away" estreará nos cinemas em meio a rumores de que por pouco não foi arquivado e relegado às prateleiras das vídeo-locadoras. Os críticos estão se preparando para massacrar o projeto, o seu primeiro com o diretor -- e marido -- britânico, Guy Ritchie, que é uma reedição de um romance italiano de 1974.

O papel de uma bela e prepotente esposa abandonada em uma ilha deserta do Mediterrâneo com o oficial de um navio parece ter sido feito sob encomenda para Madonna. Mas a estória ficou diluída em uma espécie de mistura de "A Megera Domada" (EUA, 1957) com "Náufrago" (EUA, 2000), uma lição de humilhação, que não chega aos pés dos ardentes encontros na praia e dos poderosos embates de classe que aparecem no original.

Críticas sobre as suas cenas em "Swept Away" colocam o filme naquela mesma categoria do "é uma pena que seja engraçado", a que pertencem "Glitter" (EUA, 2000) e "Showgirls" (EUA/França, 1995). O crítico Peter Travers, da revista "Rolling Stone", não discorda de tal avaliação. "Nenhum iate sofreu danos durante as filmagens", diz ele. "Ao invés disso, o filme é que é o barco naufragado. É uma porcaria, e não só por causa das suas impropriedades. No decorrer da sua carreira, ela demonstrou um talento para poses especiais, com a habilidade de uma atriz de verdade. Quando o filme era bom, ela geralmente era capaz de projetar mais do que uma emoção. Mas, desta vez, isso não ocorre".

Não é a primeira vez que Madonna naufraga junto com um marido. Sean Penn, o primeiro marido, ajudou a detonar a bomba que foi "Surpresa em Xangai", em 1986.

No entanto, Ritchie e Madonna já demonstraram ser capazes de produzirem um filme de sucesso juntos -- um hilariante curta-metragem de sete minutos. Mas, Ritchie, que só traz na bagagem produções como "Snatch -- Porcos e Diamantes" (EUA, 2000), não entende absolutamente nada de romances em ilhas da fantasia.

Há quem se pergunte porque Madonna, mãe de dois filhos e dona de uma conta bancária provavelmente grande o suficiente para comprar o seu próprio estúdio de cinema, insiste em se submeter ao massacre dos críticos. No verão passado, ela teve que se esquivar de petardos disparados contra a sua atuação em uma peça londrina.

"Por que se importar em ser medíocre em um meio que está além do seu alcance, quando ela reina como a estrela da música pop mais influente das duas últimas décadas, e quando as suas técnicas de sobrevivência no mundo das gravadoras, onde diva come diva, não perdem para nenhuma outra?".

"Ela é muito ambiciosa", afirma J. Randy Taraborrelli, autor do livro "Madonna: An Intimate Biography". "É algo que está além do ego. O fenômeno tem a ver com a expansão dos seus dotes artísticos. É algo que ela tem que fazer para si própria. Madonna quer fazer disso uma oferta. O problema é aquele que desafia todos os ícones. Ela possui uma personalidade tão forte que é difícil ser qualquer outra pessoa, a não ser Madonna."

A sugestão do autor? Ela é o tipo de mulher que precisa gostar do que faz para ficar viva. Espero que ela e Guy tenham se divertido durante as filmagens de "Swept Away".

A própria Madonna fez os seguintes comentários sobre o filme: "Tomei decisões realmente infelizes. Por isso, embora não mereça ser massacrada pela crítica, o trabalho me ensinou a ser mais seletiva quanto às minhas escolhas. Ainda estou com medo e insegura. 'Será que sou boa o suficiente?'. É isso o que alimenta a minha criatividade".

Mas não há sinal de que vá haver um racionamento de seus filmes tão cedo. Os fãs podem pelo menos se consolar com o fato de a atriz Madonna apresentar o seu melhor desempenho em doses menores, e é a isso que ela se propõe. Madonna faz o papel de uma instrutora de esgrima no thriller de James Bond, "Die Another Day", que será lançado em 22 de novembro. Talvez os seus detratores não a critiquem tão facilmente quando ela estiver com uma arma nas mãos.

Tradução: Danilo Fonseca

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