Grupos de apoio ajudam mulheres que foram vítimas de estupro

Marilyn Elias
USA Today

Toda vez que sete mulheres norte-americanas se encontram, uma delas, provavelmente, já foi vítima de estupro, conforme demonstram pesquisas do governo federal. Apesar de o crime ser comum, "muitas vezes a sua ocorrência é mantida em segredo", afirma Mary Koss, psicóloga da Universidade do Arizona que há 30 anos estuda o impacto do estupro sobre as mulheres. Mas ela diz que tentar sepultar o trauma é uma estratégia que dificilmente auxilia uma mulher a se recuperar.

Agora há uma nova opção para aquelas mulheres que desejam falar anonimamente sobre o que lhes aconteceu e receber suporte de outras vítimas de estupro. É algo de diferente da terapia e de outros grupos de apoio, já que se baseia nos programas de 12 passos dos Alcoólicos Anônimos.

Nos encontros, os membros contam uns aos outros como estão trabalhando com os "12 passos", que consistem, entre outras providências, em buscar o perdão de outras pessoas que foram prejudicadas pelo comportamento da vítima após o estupro, e confiar no poder de Deus ou de outro ser superior após "admitirem" que foram tomadas por uma sensação de impotência. Participantes agradecidos afirmam que o método dos 12 passos pode ajudar as vítimas de estupro a se recuperarem, mas os críticos alegam que ele é sem sentido, e que poderia mesmo fazer mal a certas mulheres.

O grupo Sobreviventes de Estupro Anônimos (RSA) foi criado em março deste ano em Melrose Park, Illinois, um subúrbio de Chicago, segundo a porta-voz da organização, Roxanne Traviss. Atualmente, três grupos se reúnem na área de Chicago, e novos grupos foram criados em Linden, Michigan, e em São Francisco, este mês. "Todos os dias estou recebendo pedidos de mulheres e conselheiros que desejam ter grupos similares em suas regiões", diz Traviss.

O primeiro encontro ocorreu quando uma amiga mútua sugeriu a duas vítimas de estupro que se falassem por telefone, já que elas poderiam ajudar uma a outra. "A nossa conversa durou seis horas", conta Careole, uma vendedora de 37 anos da área central de Michigan. Ela se tornou amiga de Lucy, de 30 anos, professora de Stone Park, em Illinois. Ambas já tinham experimentado outros programas de 12 passos e sentiram que poderiam se beneficiar de um projeto similar voltado para as vítimas de estupro.

A RSA criou um Web site e tem publicado notícias sobre outros grupos de 12 passos, hospitais e centros de mulheres. Os homens podem participar, caso tenham sido vítimas (cerca de 2% foram estuprados, segundo o Departamento de Justiça).

Embora a RSA não diga que o estupro é culpa da vítima, as participantes são solicitadas a fazer uma lista de todas as pessoas "que foram prejudicadas por nossas ações, após termos sido estupradas", e, a seguir, a se desculpar junto a essas pessoas. Os passos também incluem a avaliação pessoal da conduta e "quando estamos erradas, admitimos o fato prontamente e pedimos humildemente a Deus que nos livre de nossas limitações".

Esses passos foram planejados para superar os vícios - álcool, drogas, comida, etc. - e poderiam parecer inúteis para curar as vítimas de estupro. Porém, há freqüentemente um vínculo entre o comportamento compulsivo e o ataque sexual. As mulheres muitas vezes desenvolvem vícios, à medida que tentam escapar das conseqüências traumáticas do estupro, afirma Traviss, que é ex-conselheira para viciados. "Tive clientes viciadas que eram juízas, enfermeiras e policiais, e que tinham sido violentadas".


Auxílio de outras vítimas

Segundo Traviss, uma boa terapia pode auxiliar as vítimas de estupro. Mas nem todo mundo tem acesso a tratamento de alta qualidade e, ainda que o tenham, algumas pessoas precisam de apoio extra para evitar a volta dos ataques de ansiedade.

Lucy, que aos 15 anos foi estuprada por um vizinho, diz que entrou e saiu de vários programas de terapia, mas os terapeutas muitas vezes não tinham idéia daquilo pelo qual u estava passando. "Senti um tremendo alívio da carga que levava sobre os ombros após ter falado com Careole... Pela primeira vez percebi que alguém realmente entendia aquilo pelo qual eu tinha passado sem sentir pena. Geralmente as pessoas não sabem o que dizer ou sentem pena, mas esse sentimento de piedade não faz com que você se sinta melhor", diz Lucy.

As sessões da RSA diminuíram o sentimento de culpa e estimularam uma maior confiança nas pessoas, diz ela. Os seus pesadelos estão se tornando menos freqüentes e mais amenos.

Careole gosta da abordagem espiritual dos grupos. "Esse é o único motivo pelo qual estou me recuperando", diz ela. Ela estava dirigindo cinco horas e meia por dia para participar dos grupos da área de Chicago, antes que um grupo posse formado no Michigan.

Careole ficou bastante ferida por um estuprador armado de uma faca, em uma noite em que trabalhou até tarde no escritório, há dois anos. Em uma época em que pacientes que fazem mastectomia recebem alta em apenas dois dias, ela passou duas semanas no hospital. Careole conta que não quis falar nada a maior parte dos seus familiares e amigos sobre o incidente, meses após ter sido estuprada, porque tinha medo de ser estigmatizada.

"Pelo menos agora não estou sozinha. Posso ligar para alguém do grupo caso tenha um ataque de pânico no meio da noite".

Catalina, uma professora primária de 30 anos de São Francisco, foi estuprada e molestada sistematicamente na infância pelo irmão mais velho. Isso fez com que fosse difícil para ela confiar nas pessoas e estabelecer relacionamentos de longo prazo, afirma. Ela também teve problemas para relaxar suficientemente de modo a experimentar o prazer sexual. "Quero participar de uma comunidade que me entenda, e não que me julgue", afirma. Foi por isso que decidiu abrir um grupo RSA em São Francisco, após ter ouvido falar do programa em uma sala de discussões na Internet só para mulheres.

Tais programas não atendem às necessidades de todos, mas podem ajudar as mulheres inclinadas para a espiritualidade ou religiosas, afirma David Foy, psicólogo da Universidade Pepperdine e especialista em traumas. Aqueles que participaram de outros programas de 12 passos podem se adaptar mais facilmente, diz ele.

Mas Koss se preocupa com a possibilidade de as mulheres que freqüentam os grupos RSA logo após terem sido estupradas - e que antes tinham necessidade de terapia - se tornarem mais ansiosas ao ouvirem outras histórias, em um período em que ainda estão se recuperando de seus próprios traumas.

Ela argumenta que o modelo dos 12 passos não se encaixa perfeitamente nas experiências das vítimas de estupro. "O vício é algo que a pessoa faz a si própria, enquanto que o estupro é realizado por outras pessoas, portanto, tais passos do programa não são intercambiáveis", adverte Koss.

A parte que diz respeito a se desculpar junto aqueles que foram prejudicados pelo comportamento da vítima após o estupro não soa bem para Heidi Resnick, do Centro Nacional de Treinamento e Pesquisas de Vítimas de Crimes, da Universidade de Medicina da Carolina do Sul. Resnick, uma psicóloga que tratou várias vítimas de estupro, acha que este tipo penitência poderia reforçar os sentimentos infundados de culpa comuns após o estupro. (Os participantes do RSA dizem que muitas vezes se isolaram e magoaram membros da família ou amigos devido ao estupro, e é a isso que as desculpas diriam respeito. Além disso, várias pessoas se desculpam perante elas mesmas por um sentimento injustificado de culpa).

Resnick afirma que terapias rápidas que enfatizam técnicas pragmáticas para a resolução de problemas muitas vezes ajudam a aliviar o trauma. "Não estou endossando o programa RSA. Porém, se ele ajudar realmente as vítimas de estupro, acho que é mais uma oportunidade a ser tentada".

O impacto do estupro sobre a mulher depende principalmente de como era a sua vida antes do crime, afirma Koss. "Fatores emocionais existentes antes do problema podem exacerbar o trauma. A reação das diversas mulheres que sofreram estupro é muito variada", diz ela.

Alguns problemas muitas vezes aparecem após o estupro. "São reações normais de quem foi vítima de violência sexual", diz Koss.


Dentre os problemas típicos que se seguem ao estupro estão:


- Depressão, que varia da tristeza e sentimento de perda até os pensamentos suicidas.

- Problemas relacionados ao sono, incluindo insônia e pesadelos recorrentes.

- Ansiedade e memórias do ataque.

- Sensação de impotência.

- Dificuldade em confiar nas pessoas.

- Sentimento de culpa.

- Problemas sexuais, tais como falta de desejo e dificuldade de sentir prazer.


Tradução: Danilo Fonseca

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