Interesses particulares no Iraque fazem aliados dos EUA condenarem ataque

Bill Nichols e Ellen Hale
USA Today
Em Washington e Londres

Diplomatas dos Estados Unidos e do Reino Unido continuam a trabalhar esta semana junto às Nações Unidas no sentido de dobrar a oposição da China, da Rússia e da França a uma nova e mais rígida resolução que ameaçaria fazer uso da força, caso o Iraque não proporcionasse acesso irrestrito aos inspetores de armamentos.

A retórica exercida em público diz respeito a grandes questões de princípio -- especialmente a atualmente familiar reclamação feita por esses países, segundo a qual o governo Bush faz tudo aquilo que deseja, sem nenhuma consideração para com as leis internacionais.

Mas, uma análise mais minuciosa da disputa que ocorre no Conselho de Segurança da ONU demonstra que ela diz respeito ao petróleo, à política doméstica e às futuras relações econômicas com um Iraque pós-guerra. As reservas de petróleo estimadas do Iraque, de cerca de 100 bilhões de barris, poderiam ser as maiores do mundo -- um grande prêmio econômico para quem quer que tenha acesso a elas após a guerra.

Para um observador externo, a polêmica no seio da ONU pode soar como um embate entre diferentes filosofias de política externa. Mas, para os que nela estão imersos, trata-se mais de um grupo de legisladores de países diversos que tentam obter para si as melhores vantagens.

"Algumas das razões expostas para justificar a oposição aos Estados Unidos são sinceras", afirma Ted Galen Carpenter, analista de política internacional do Instituto Cato, em Washington. "Mas elas estão incompletas. Esses países têm vários outros motivos para assumir tal postura".

Eis alguns dos reais motivos que estão por trás da oposição manifestada pela China, França e Rússia, todos com poder de veto no Conselho de Segurança:


- Rússia: Publicamente, os diplomatas russos citam a longa amizade entre Moscou e o Iraque e a sua preocupação histórica quanto a qualquer iniciativa militar por parte de Washington que não conte com o respaldo do Conselho de Segurança.

Mas, reservadamente, autoridades norte-americanas e russas admitem francamente que a oposição de Moscou a uma operação militar dos Estados Unidos para a remoção de Saddam Hussein gira em grande parte em torno do petróleo, dos futuros laços econômicos com Bagdá e da exigência de que os Estados Unidos não dêem palpites condenando a polêmica guerra movida pela Rússia contra os separatistas islâmicos na Tchetchênia. A Rússia deseja que Washington minimize as suas declarações públicas de repúdio à brutal campanha russa contra os tchetchenos. A contra-insurgência gerou críticas internacionais, mas Moscou afirma que a sua ação faz parte da guerra contra o terrorismo.

Autoridades de ambos os países dizem que a Rússia quer se assegurar de que os US$ 8 bilhões (cerca de R$ 31 bilhões) emprestados pelo país ao Iraque, na época da União Soviética, sejam pagos, e que os dezenas de bilhões de dólares em projetos de desenvolvimento de campos de petróleo, a maior parte congelada pelas sanções da ONU contra o Iraque, sejam um dia recuperados .

O que os presidente russo Vladimir Putin está exigindo, segundo autoridades norte-americanas, é que seja fornecida alguma garantia de que os interesses russos serão preservados por qualquer regime que dê lugar ao de Saddam Hussein.

Nos últimos anos a Rússia emergiu como o maior parceiro comercial do Iraque. Os dois países fazem negócios no valor de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 15,5 bilhões) por ano, segundo um programa da ONU que permite que Bagdá exporte algum petróleo, contanto que o dinheiro arrecadado com as vendas seja utilizado para a aquisição de alimentos, remédios e para a reconstrução das regiões do país destruídas durante a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991.

A Rússia deseja ser um parceiro em pé de igualdade com os Estados Unidos em qualquer processo de privatização do setor petrolífero iraquiano, caso Saddam seja deposto, segundo disse um parlamentar russo durante uma conferência de negócios entre Rússia e Estados Unidos, realizada este mês em Washington.

"Temos interesses no setor petrolífero da economia iraquiana", diz Mikhal Margelov, diretor do comitê de assuntos internacionais do Conselho da Federação Russa.

A Rússia deseja ainda contar com carta branca para realizar operações militares contra supostos terroristas tchetchenos na vizinha Geórgia.


- China: Pequim demonstra desagrado com relação à possibilidade de que se use a força contra o Iraque. Mas autoridades norte-americanas afirmam que a retórica chinesa sobre o Iraque é bem mais discreta do que durante confrontos diplomáticos ocorridos no passado com os Estados Unidosk, quando Washington utilizou a força contra um outro país.

Por exemplo, o presidente chinês Jiang Zemin disse ao secretário-geral da ONU, Kofi Anann, em Pequim, na segunda-feira, que "a China sempre acreditou que a questão do Iraque deve ser resolvida pacificamente, através de meios políticos".

Os diplomatas dizem que tal declaração contrasta vivamente com a oposição bem mais veemente à guerra liderada pelos Estados Unidos contra a Iugoslávia, em 1999.

Autoridades de ambos os países dizem que, embora a China vá criticar Washington nas Nações Unidas, Pequim deseja evitar grandes desentendimentos com os Estados Unidos, devido a razões ligadas à política doméstica.

O que a China realmente quer? Jiang está deixando o posto de presidente este ano e vai fazer uma visita de despedida aos Estados Unidos este mês. Ele deseja que sólidas relações com Washington sejam uma grande parte do seu legado e não tem interesse em uma disputa de última hora entre Estados Unidos e China, que destoasse da sua saída cuidadosamente coreografada do poder.

Um outro fator a ser considerado é que Jiang sinalizou que poderia reter alguma influência política, embora ainda se espere que o atual vice-presidente, Hu Jintao, se torne o líder central. As chances de Jiang conseguir alguma espécie de papel emérito no novo governo seriam prejudicadas caso ele fosse criticado internamente por colocar em risco as relações comerciais multibilionárias com os Estados Unidos.


- França: A França também possui interesses substanciais no petróleo iraquiano, embora a maior parte dos especialistas políticos europeus insistam em dizer que isso terá pouca influência sobre a maneira como o governo do presidente francês Jacques Chirac votará no Conselho de Segurança. O que a França quer, aos olhos das autoridades dos Estados Unidos, é ser reconhecida como um país cuja visão tenha que ser levada em conta em todas as grandes questões mundiais.

Uma companhia petrolífera francesa possui direitos exclusivos de negociação, atuais e para o futuro, da exploração de dois vastos campos de petróleo no sul do Iraque, segundo Fadhil Chalabi, ex-ministro do petróleo do Iraque, e que atualmente é consultor do Centro para Estudos Globais de Energia, em Londres.

Porém, devido às sanções da ONU, o negócio ainda não foi fechado. "O perigo é que qualquer novo governo iraquiano diga à França que sente muito, mas que não há um acordo assinado entre os dois países", diz Chalabi.

Além disso, alguns políticos franceses temem que um novo regime desse as costas aos vínculos comerciais que Paris estabeleceu com Bagdá. A França já foi um grande fornecedor de armas para o Iraque.

"Deve-se ter em mente que, por trás dos interesses políticos, há sempre interesses econômicos", afirma Chalabi. "Não é o povo francês que toma as decisões, mas sim os empresários que têm acesso às decisões políticas".

As autoridades francesas discordam e continuam a afirmar que a principal preocupação de Paris é garantir que todas as opções sejam esgotadas antes de se partir para o uso da força contra o Iraque. Essas autoridades dizem que a decisão final sobre desencadear uma guerra deve ser tomada pelas Nações Unidas, e não pelos Estados Unidos.

O ex-ministro das Relações Exteriores da França, Hubert Vidrine, apelidou Washington de "hiper-potência", devido ao poder e à influência sem paralelos exibidos atualmente pelos Estados Unidos no cenário internacional. Os políticos franceses tradicionalmente ganharam pontos junto aos seus eleitores ao exigir que os presidentes norte-americanos levassem em consideração os argumentos europeus antes de agir.

O analista político francês, Dominique Moisi, diz: "A posição francesa não é motivada pelo petróleo. É claro que há um elemento relativo ao petróleo envolvido na questão, mas o foco principal do problema é diplomático".


(Nichols contribuiu de Washington e Hale de Londres)


Tradução: Danilo Fonseca

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