Árabes temem que ataque ao Iraque inflame o Oriente Médio

John Yaukey
USA Today
Em Baqaa (Jordânia)

A palestina Sukaina Mohammed só conhece o seu local de nascimento, na Cisjordânia, por intermédio das histórias que os antigos refugiados contam, enquanto as crianças brincam em meio a poças de esgoto e sangue de galinha.

"Eu tinha quatro anos quando fui obrigada a partir, devido à ocupação israelense, de forma que me lembro de muito pouca coisa sobre a minha infância", diz a mulher de 39 anos, em uma voz quase sussurrada. "Sei que aquela é a minha verdadeira casa, e temo passar o resto da minha vida aqui, neste campo de refugiados".

O seu marido, Abdul-Hadi, se lembra perfeitamente da fazenda que foi obrigado a abandonar aos 15 anos, quando o Estado de Israel foi criado, em 1948.

"Eu criava vacas e levava uma boa vida nas nossas terras", conta. "Se eu tivesse carne todos os dias aqui no campo de refugiados, e apenas cebolas para comer na minha terra natal, ainda assim eu retornaria para lá. Aqui, estamos mortos. Morremos quando fomos obrigados a deixar as nossas casas".

Atualmente, a casa de ambos consiste em um barracão com telhado de zinco, neste campo de refugiados que já existe há 50 anos. Gerações de palestinos nasceram e cresceram no campo, que tem mais de 100 mil habitantes. Eles passam horas de tédio nos mercados abertos, infestados de moscas, lamentando com amargor o seu destino, que parece pior a cada dia.

Se os Estados Unidos lançarem um ataque contra o vizinho Iraque, os jordanianos temem que este campo e vários dos 58 guetos semelhantes existentes no Oriente Médio explodam em rebeliões violentas contra governos que, sob a ótica dos refugiados, são muito benevolentes para com Israel e os Estados Unidos.

De fato, se uma guerra contra o Iraque tiver resultados tão nefastos como muitos estão prevendo, o conflito poderia abalar a frágil aliança entre as nações árabes, ameaçando as tênues fronteiras nacionais com uma onda de divisões tribais.

E os países que provavelmente sofreriam mais seriam aqueles dos quais os Estados Unidos mais precisam para ajudar na cruzada do atual governo norte-americano pela moderação e modernização dos árabes.

A Jordânia é um dos aliados mais valiosos dos Estados Unidos no Oriente Médio, e o mais vulnerável, altamente dependente do petróleo iraquiano, transportado em caminhões e obtido a preços reduzidos.

Com o seu jovem e carismático rei Abdullah, e sendo um dos dois únicos países da região que possuem acordos de paz com Israel (o Egito é o outro), a Jordânia é candidata a passar por aquele tipo de desenvolvimento democrático que o governo Bush espera ser capaz de reformar as repressoras autocracias árabes.

Porém, imprensada entre o Iraque, a leste, e a explosiva Cisjordânia, ao oeste, a Jordânia é constantemente empurrada na direção dos problemas que flagelam o mundo árabe desde que os europeus dividiram a região em emirados, baseados na conveniência econômica e nas vantagens geográficas, após o colapso do Império Otomano.

A conexão Saddam-Palestina

Grande parte do temor deriva da crença generalizada em que os norte-americanos possuem uma compreensão incompleta com relação aos árabes - um entendimento que é suficiente apenas para causar problemas.

Por exemplo, os norte-americanos se sentem a vontade para falar sobre o problema palestino e o Iraque, como sendo questões distintas. Mas, no mundo árabe, essas questões estão intrinsecamente ligadas. Esse fato é especialmente concreto na Jordânia, onde mais da metade da população de cinco milhões de habitantes é composta por palestinos. E esses palestinos louvam Saddam, pelo fato de o ditador iraquiano conceder pensões às famílias dos homens-bomba que aterrorizam Israel.

"Todos os árabes sentem uma profunda tristeza pelos palestinos", afirma o ex-ministro jordaniano da Informação, Hani Khasawni. "E Saddam Hussein é tido por muitos árabes como um valoroso apoiador dos mártires palestinos. Caso a administração Bush esteja achando que é capaz de remover Saddam sem fazer com que a situação palestina piore ainda mais, estará terrivelmente equivocada".

A conexão entre os dois problemas é bem mais profunda.

Khasawni argumenta que a ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que persiste enquanto Bush fala sobre uma mudança de regime em Bagdá, somente reforça a impressão, entre a população local, que norte-americanos e israelenses são aliados contra os árabes em uma outra campanha colonialista.

Assim, até mesmo para aqueles árabes que estão em cima do muro quanto à questão de Saddam Hussein, a crença é de que existe uma grande conspiração americana-israelense para redesenhar as fronteiras do mundo árabe.

O medo da democracia

Na sua campanha contra o Iraque, o governo Bush falou sobre espalhar as sementes da democracia pela Arábia, começando pela substituição de Saddam. Mas, no momento, pouca coisa poderia ser feita no sentido de se consolidar na região uma rota progressista e simpática ao Ocidente.

Na Jordânia e em outros países moderados, a democracia está em baixa, em grande parte porque as recentes turbulências políticas forçaram a adoção de medidas repressivas. A inquietação palestina e uma guerra contra o Iraque, que parece iminente, estimularam o rei Abdullah, da Jordânia, a suspender as eleições parlamentares por duas vezes.

Ironicamente, em Amã são os muçulmanos da Frente de Ação Islâmica, um grupo que já foi conhecido pelo seu radicalismo, que estão pressionando para que haja eleições no país, desafiando a vontade de um monarquia apoiada pelos Estados Unidos.

"O governo local tem muito medo", diz Jamil Abu-Baker, membro da frente. "Se houver eleições, conquistaremos cadeiras no parlamento".

No Egito, candidatos da organização extremista Hamas têm vencido eleições nas universidades, concorrendo com plataformas anti-americanas e contra o governo.

Na Arábia Saudita há o medo que a alternativa democrática ao regime islâmico ortodoxo praticado pela Casa de Saud possa ser algo tão perigoso quanto o islamismo reacionário defendido por Osama bin Laden.

Quando mais o governo Bush fala sobre uma mudança de regime em Bagdá, mais os líderes do Oriente Médio se arrepiam ao pensar no que poderia acontecer no Iraque e nos seus próprios países, onde um vácuo de poder, súbito e descontrolado, abriria espaços para os radicais.

"Essa idéia de fazer um novo arranjo, de alguma maneira, na região, e de mudar regimes e sistemas de governo de uma forma que atenda aos interesses dos Estados Unidos é realmente muito assustadora", afirma Marwan Muasher, ministro das Relações Exteriores da Jordânia.

Problemas tribais étnicos

Pior do que uma democracia mal sucedida em um Iraque pós-Saddam seria um cenário onde não existisse um Iraque. O temor de que o país pudesse se "balcanizar", dividindo-se segundo diversas linhas tribais, tão logo o fator de coesão representado pelo velho regime despótico desaparecesse, é prevalecente no Oriente Médio.

Essa preocupação é especialmente acentuada entre os vizinhos do Iraque, tais como a Jordânia e a Turquia, que se deparam com a possibilidade de que haja fluxos maciços de refugiados para o interior das suas fronteiras e de que tenham que administrar antigas rivalidades dentro do quadro que emergir após a queda de Saddam Hussein.

"As populações do Iraque são unidas devido à coerção do regime local - e não pela ideologia de um Estado", explica Labib Kamhawi, um analista político bem conhecido na Jordânia. "Remova o regime, e lá se vai o país".

Os curdos, inimigos tribais de Saddam no norte do Iraque, que são protegidos pelos Estados Unidos, são um dos problemas potencialmente mais graves da região. Eles dão indicações de que desejam ajudar na derrubada de Saddam Hussein, mas exigiriam como recompensa a autonomia formal. Mas isso poderia fomentar uma violenta rebelião separatista por parte dos curdos turcos, e uma resposta violenta do governo da Turquia.

No sul do Iraque, vários países árabes estão desconfiados quanto a qualquer governo potencial liderado por muçulmanos xiitas que se identificasse demasiadamente com os xiitas do Irã e fortalecesse a posição dos mulás radicas iranianos. Mas os xiitas são a maioria da população iraquiana e, de alguma forma, terão que ter as suas reivindicações atendidas.

"Se esse problema étnico-tribal sair do controle no Iraque, ele poderia estimular divisões similares em todo o mundo árabe", adverte Rami Khouri, analista do departamento no Oriente Médio do International Crisis Group, uma agência privada dedicada à busca de soluções para conflitos violentos, com sede em Bruxelas.

A falta de um vigoroso apoio regional para o Iraque pós-Saddam também comprometeria bastante a legitimidade de qualquer novo governo.

Apesar de tudo isso, a Jordânia e outros vizinhos do Iraque teriam o potencial para obter muitos lucros com uma derrubada bem sucedida de Saddam Hussein.

Um Iraque livre de um ditador que desrespeita as leis internacionais poderia consistir em uma fonte barata e abundante de petróleo para a Jordânia e outros importadores do produto, enquanto que uma economia iraquiana florescente significaria a abertura de novos mercados para os vizinhos. O Iraque é um país relativamente secular e cuja população tem um nível educacional razoavelmente alto. Além disso, Bagdá já foi uma capital cosmopolita, de forma que muitos avanços poderiam ocorrer no país.

Ma, até mesmo os otimistas advertem que a região faz parte da antiga Arábia, onde mais de um século de interferência ocidental criou uma confederação de 22 países - de uma forma muitas vezes arbitrária e truculenta -, que agora enfrentam aquilo que Khouri define como "uma crise de identidade e de legitimidade".

Mais do que qualquer outro cenário, o que preocupa muitos observadores no Oriente Médio e a maioria dos analistas ocidentais é a determinação dos Estados Unidos em se lançarem de forma agressiva e confiante sobre este campo minado no qual os próprios árabes temem mexer.

Tradução: Danilo Fonseca

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