Resíduo nuclear pode ser usado na produção de bombas atômicas

Dan Vergano
USA Today

Cientistas especializados em armamentos do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Estado do Novo México, afirmam que a quantidade de um tipo de lixo nuclear comum, o elemento radioativo neptúnio, necessário para a fabricação de bombas atômicas é significante menor do que se pensava.

Em meio à recente revelação da existência de um programa de armas nucleares norte-coreano e aos medos quanto ao terrorismo nuclear no mundo, a descoberta, anunciada na semana passada, aumenta a preocupação quanto à possibilidade de que resíduos nucleares estejam sendo utilizados na fabricação de bombas. "Existe muito desse material por aí", diz o porta-voz de Los Alamos, Kevin Roark.

Encontrado dentro de varetas de combustíveis de reatores nucleares usadas, o neptúnio fica entre o urânio e o plutônio na tabela periódica de elementos químicos. Os pesquisadores de Los Alamos descobriram que a quantidade do material necessário para se atingir a "massa crítica", o ponto imediatamente anterior ao início de uma reação nuclear em cadeia, é cerca de 25% menor do que se pensava. Realizada em um período de 12 anos, a pesquisa foi conduzida como parte do programa de segurança nuclear do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Na experiência liderada por René Sanchez e David Loazia, da equipe de Tecnologia Nuclear Avançada do laboratório, os cientistas juntaram -- em um processo controlado remotamente -- duas metades de uma esfera de neptúnio, e as deixaram nesse estado durante quatro dias, a fim de descobrir a partir de que momento uma reação teria início. A radioatividade média ficou em um patamar limitado e a fissão atômica, a reação em cadeia utilizada nas bombas atômicas, não ocorreu durante a experiência.

A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), com sede em Viena, instituiu um sistema de monitoração voluntário do neptúnio em 1999, logo após ter sido divulgado publicamente que o elemento é uma matéria-prima em potencial para a fabricação da bomba atômica.

O amerício, um outro resíduo de reatores nucleares, também pode servir como matéria prima para a bomba e, por isso, também é monitorado, de forma voluntária, embora a agência não considere este elemento como uma ameaça tão grande.

O sistema voluntário é incapaz de assegurar ao mundo que o neptúnio não estaria sendo desviado para projetos secretos de bombas atômicas, afirma Michael Levi, da Federação dos Cientistas Americanos, em Washington. "Certamente, este sistema possui brechas que precisam ser tapadas". Segundo ele, um fato especialmente preocupante é a possibilidade de o neptúnio poder ser adaptado a alguns projetos de bombas atômicas de maneira mais fácil do que o plutônio. Além disso, as novas pesquisas sugerem que operadores de um reator nuclear podem subestimar a radioatividade do neptúnio existente nas varetas de combustível, o que representaria um problema de segurança.

O fato de se determinar a quantidade exata de neptúnio necessária para que se atinja uma massa crítica também vai indicar aos futuros vigilantes da não proliferação nuclear quando é que eles precisam começar a se preocupar, diz Roark. "Isso vai ajudar os cientistas de armamentos interessados na questão da não proliferação a saber a quem vigiar".

Levi sugere que haja um aumento do orçamento para vigilância por parte da IAEA, uma agência ligada à ONU, a fim de fazer com que a monitoração do neptúnio e do amerício passe a ser uma atividade obrigatória. "Duvido que alguém dotado de boas intenções fosse se opor a um aumento da monitoração", afirma Levi.

O orçamento da agência no ano passado foi de US$ 230 milhões (cerca de R$ 899 milhões).

Tradução: Danilo Fonseca

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