Franco-atirador dita as regras do jogo para a polícia

Laura Parker e Kevin Johnson
USA Today
Em Washington (EUA)

A caçada ao franco-atirador que apavora a área metropolitana de Washington se transformou, ao que parece, no supremo "reality show" de televisão. Os investigadores estão engajados em um esforço extraordinário para se comunicar, ao vivo, através da TV, com um assassino cuja face e nome são um mistério para os policiais.

Mas o criminoso os conhece. Os investigadores acreditam que o franco-atirador assiste a televisão todos os dias. É algo como jogar poker com um assassino que está por detrás de um desses espelhos que permitem que ele veja a todos sem ser visto.

Este tipo de comunicação é algo de raro e arriscado para a polícia. Os assassinos em série raramente se comunicam com as autoridades policiais e, quando o fazem, geralmente não desejam ser capturados. O que eles procuram é ser notícia nos jornais, ganhar notoriedade, e assegurar um lugar na história. Trata-se de uma declaração de superioridade, um jogo de gato-e-rato. "Ele deseja crédito pelo trabalho que fez", afirma Carl Klockars, criminologista da Universidade de Delaware.

Saboreando a notoriedade

David Berkowitz, o assassino "Filho de Sam" que abateu a tiros seis pessoas em Nova York, entre 1976 e 1977, enviou cartas à polícia e à mídia. Após ter sido capturado, o assassino disse aos policiais que havia se deleitado com a fama obtida. Jack o Estripador, que talvez seja o mais famoso assassino em série da história, enviou centenas de cartas à Scotland Yard, gabando-se do seu talento, e zombando dos investigadores, a quem considerava ineptos.

"Continuo ouvindo estórias de que a polícia teria me pegado mas isso não vai acontecer", escreveu o Estripador. "Quando vejo os policiais tentando aparentar que são muito espertos ou dizendo que estão na pista certa, dou gargalhadas. Estou dizimando as prostitutas e vou estripá-las enquanto tiver vontade".

(Na segunda-feira, Berkowitz, que cumpre prisão perpétua em Nova York, enviou um comentário de três páginas sobre o franco-atirador de Washington a Rita Cosby, da rede de televisão Fox News. Ele apresentou várias teorias sobre o caso e desprezou as técnicas de determinação de perfil criminal como sendo "praticamente inúteis". "É muito estranho, mas, neste momento, faz mais de uma semana que estou sentindo o ódio desta pessoa contra os policiais. Desde o início, esse indivíduo, seja ele um atirador solitário ou membro de um grupo terrorista - não está atirando nas pessoas porque tenha algo contra elas, e sim porque a sua raiva é voltada contra outra coisa", escreveu Berkowitz. "Quem quer que esteja fazendo isso está naquele estado de espírito que seria descrito por muitos cristãos como "uma forte aliança com o diabo").

Um fato sem precedentes quanto ao caso do franco-atirador é o esforço extraordinário que as autoridades policiais têm feito para se comunicar com ele, ao vivo, pela televisão. A aposta é alta, e a pressão a que vem sendo submetidos os investigadores já é evidente. O comportamento exibido recentemente por Charles Moose, chefe de polícia do Condado de Montgomery, em Maryland, é um sinal claro de que a situação se complicou desde que uma mensagem, que se acredita ter sido escrita pelo franco-atirador, foi encontrada na área do último ataque, realizado na noite de sábado, em Ashland, Virginia.

As declarações emotivas e sem foco definido feitas por Moose na televisão, quando ele criticava a mídia e lamentava o tiro disparado contra um garoto, são coisa do passado. No domingo à noite, quando Moose enviou a sua primeira mensagem pela televisão para o franco-atirador, era óbvio que tinha um objetivo em mente. O chefe de polícia foi breve e objetivo na sua fala e fez uma declaração cuidadosamente estudada, que, mais tarde, um porta-voz disse que seria entendida pelo criminoso: "Você nos forneceu um número telefônico. Queremos falar com você. Entre em contato conosco por meio do número que nos forneceu", disse Moose.

Em duas outras mensagens televisadas, Moose se ateve a um roteiro rígido, nitidamente elaborado para estabelecer comunicação com o atirador ou um intermediário. Um policial federal disse na segunda-feira que não está descartada a possibilidade de que haja um segundo atirador.

Uma conversa cuidadosa

Moose está longe de estar sozinho nas suas tentativas de resolver o caso. Outros policiais afirmam que vários especialistas, investigadores do perfil criminoso e chefes de equipes de franco-atiradores estão avaliando declarações públicas e elaborando estratégias para manter abertas as linhas de comunicação com o criminoso.

"Será que essa foi uma decisão que ele tomou agora ou já era parte do seu plano?", questionou uma autoridade policial.

Moose enviou a sua segunda mensagem na segunda-feira, ao vivo, pela televisão.

"A mensagem que precisa ser enviada é que responderemos a um contato que ele fez conosco. Desta vez estamos preparando a nossa resposta", disse Moose.

Depois, no final da tarde, Moose reapareceu em frente aos microfones e falou no mesmo tom comedido que adotou para se comunicar com o franco-atirador: "A pessoa para quem você ligou não foi capaz de ouvir toda a sua mensagem. O som estava ruim, e queremos entender com clareza o que você tem a nos dizer".

Essa declaração veio horas após a polícia ter interceptado um furgão branco da marca Plymouth, estacionado ao lado de um telefone público, próximo a Richmond, Virginia. A polícia ficou vigiando o telefone após ter recebido uma mensagem do franco-atirador.

Os investigadores disseram reservadamente que temiam que a operação envolvendo o furgão branco (os ocupantes do veículo não tinham ligação nenhuma com os assassinatos) pudesse prejudicar as negociações.

"Este é um processo altamente interativo com o assassino, com a mídia e com a população", afirma Mike Rustigan, criminologista da Universidade Estadual de San Francisco. "Ele não está nos fornecendo muitos dados, mas mantém a mídia acesa".

O estabelecimento de um diálogo com o franco-atirador pode proporcionar aos investigadores a melhor chance de captura-lo. No passado, a polícia tentou se comunicar com assassinos em série, sem obter muito sucesso.

Jack, o Estripador nunca foi capturado. Tampouco o matador "Zodiac", que aterrorizou a área da Baía de San Francisco em 1968, e que alegou ter matado 37 pessoas. Zodiac escreveu 21 cartas a jornais, fornecendo detalhes que só poderiam ser conhecidos pelo assassino e desafiando a polícia a encontrá-lo.

Barkowitz escreveu em uma das suas cartas: "Por favor, informe a todos os detetives que estão trabalhando no caso que eu lhes desejo boa sorte. Continuem escavando, dirigindo, pensem positivamene, levantem-se de suas cadeiras, batam com os nós dos dedos nos caixões". Mas as cartas não levaram os investigadores até ele. O assassino foi preso porque um tíquete de estacionamento vinculou o seu carro à cena do seu último assassinato.

Mas há exceções. Theodore Kaczynski, o Unabomber, traiu a si próprio quando escreveu o seu manifesto de 35 mil palavras, que foi enviado ao Washington Post e ao New York Times. O texto foi reconhecido pelo seu irmão, que o denunciou.

Esforços para negociar publicamente são tão incomuns que os investigadores estão trilhando um território desconhecido.

"Simplesmente não contamos com um número suficiente desse tipo de criminoso para que possamos chegar a conclusões a respeito do que eles desejam", afirma Sam Walker, criminologista da Universidade de Nebraska. À medida que os investigadores dão os próximos passos rumo ao diálogo, eles estão conscientes do quanto os resultados de tal iniciativa são imprevisíveis.

"Quando a mensagem do franco-atirador foi divulgada na noite do domingo, vários dos especialistas disseram, 'Eis a peça-chave de que precisávamos'", diz James Alan Fox, criminologista da Universidade Northeastern, em Boston. "Mas eles estão enganados. O atirador está tentando com isso obter fama. É algo calculado para beneficiar a ele, e não a nós".

Tradução: Danilo Fonseca

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