Discretamente, EUA seguem minando o governo de Fidel Castro

Bill Sternberg
USA Today
Em Havana (Cuba)

James Cason, o principal diplomata dos Estados Unidos em Cuba, apresentou uma surpresa, juntamente com os drinques "mojitos", feitos de rum, servidos a um grupo de editores de jornais norte-americanos que visitaram a sua residência na semana passada. Três dos mais conhecido dissidentes políticos da ilha apareceram na varanda de sua casa para expressar as suas críticas ao governo de Fidel Castro.

O encontro fazia parte do pouco divulgado trabalho do governo Bush para promover uma mudança de regime em Cuba. As autoridades norte-americanas não estão pensando em realizar uma operação militar como aquela planejada para derrubar Saddam Hussein no Iraque. Tampouco está sendo considerado algo como a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961, que objetivava tirar Castro do poder.

Mas, para a irritação dos líderes cubanos, autoridades dos Estados Unidos estão trabalhando em Cuba para promover a democracia e colocar um fim ao regime de Fidel Castro, que já dura 43 anos. Tais iniciativas tem atrapalhado as relações entre os Estados Unidos e Cuba, em um momento em que Castro está engajado naquela que tem sido chamada "uma ofensiva charmosa", que visa a fazer com que os Estados Unidos coloquem um fim ao boicote de 40 anos sobre as atividades de turismo e negócios na ilha. As atividades diplomáticas dos Estados Unidos, que aumentaram durante o governo Bush, incluem:

Encorajamento dos dissidentes. Oswaldo Paya, presente entre aqueles que se reuniram com os editores, é um técnico de equipamentos médicos que pressiona para que haja um plebiscito a respeito da liberdade de expressão, da criação de pequenos negócios e da anistia para prisioneiros políticos. A petição de Paya, conhecida como Projeto Varela, atraiu a atenção internacional e angariou mais de 11 mil assinaturas em Cuba. Ela enfureceu os líderes cubanos, que afirmam que a proposta de plebiscito é inconstitucional. "A constituição pertence a toda a população, e não a um único homem", diz Paya. O homem a quem ele se refere -- Castro -- deveria se encontrar com os editores, mas cancelou a reunião na última hora, porque, segundo um assessor, tinha outros trabalhos urgentes a realizar.

Distribuição de rádios e livros. Funcionários da U.S. Interests Section, conforme é denominada a missão diplomática composta de 51 pessoas, distribuiu mais de mil rádios de ondas curtas a cubanos. Os rádios, pagos com o dinheiro do contribuinte norte-americano, permitem que os ouvintes captem sinais de todo o mundo, especialmente da Radio Marti, a estação anti-Castro, financiada pelo governo dos Estados Unidos.

Os kits de US$ 10 (cerca de R$ 40) consistem de um aparelho receptor de fabricação chinesa, pilhas, um carregador, fones de ouvido e um panfleto com dizeres de Jose Marti, o herói nacional cubano do século 19. Os diplomatas também doam livros em espanhol sobre a democracia.

Apoio aos jornalistas que se opõe ao governo. Jornalistas cubanos que não trabalham para a imprensa controlada pelo Estado estão recebendo permissão para usar os computadores da Interests Section, a fim de ter acesso à Internet e a mensagens e-mail com publicações feitas fora de Cuba. Claudia Marquez Linares, de 25 anos, diz que ela e outros jornalistas independentes têm permissão para usar os computadores uma hora por semana.

"A população está ansiosa pela oportunidade de ler informações que não tenham sido produzidas pelo governo", afirma Linares.

Os cidadãos norte-americanos na ilha reconhecem que, especialmente após o fim da Guerra Fria, não é normal que os diplomatas dos Estados Unidos tentem sabotar o governo do país para o qual foram designados. Segundo Cason, Cuba é "um lugar diferente". Ele diz que a política norte-americana consiste em ajudar o povo cubano a passar por uma transição rápida e pacífica rumo à democracia.

Não é de se surpreender que as autoridades governamentais cubanas estejam agitadas quanto aquilo que vêem como ingerência inapropriada dos Estados Unidos nas suas questões internas. "Eles contribuíram para a causa da democracia em Cuba? Não. Não é esse o seu objetivo", denuncia o ministro cubano das Relações Exteriores, Felipe Perez Roque. "Não é tarefa de Cuba garantir que haja eleições limpas na Flórida", acrescenta Roque, de forma mordaz.

No entanto, devido ao seu interesse em que seja suspensa a proibição de visitas de turistas norte-americanos, os cubanos não estão partindo para retaliações contra diplomatas ou dissidentes, embora alguns dos rádios tenham sido confiscados. Se as sanções ao turismo forem suspensas, dizem as autoridades cubanas, cerca de um milhão de norte-americanos visitariam a ilha por ano, trazendo consigo os dólares necessários para ajudar a esfrangalhada economia cubana.

"Acreditamos que, caso os norte-americanos recebam permissão para conhecer Cuba, eles virão em grande número", diz Nilo Diaz Fundora, presidente da assembléia regional em Matanzas, a província onde se localizam algumas das praias mais belas da ilha.

Caso possam vir a Havana, esses turistas provavelmente ficarão chocados com a deterioração sofrida por esta capital de dois milhões de habitantes. Com a exceção de alguns novos hotéis e prédios recentemente reformados no bairro de Havana Velha, a cidade, de forma geral, lembra uma zona de guerra. Milhares de edifícios estão desmoronando ou precisando desesperadamente de pintura. O sistema de transporte urbano consiste de uma confusa amálgama de Fords e Chevrolets da década de 50, Ladas da era soviética, lambretas, bicicletas e ônibus velhos.

Bem a gosto do último regime comunista fora da Ásia Oriental, não há nenhum distrito comercial com a estética do século 21, no distrito comercial. Ao invés de produtos de consumo, há painéis com slogans e retratos de heróis da revolução de 1959, especialmente Che Guevara. Mendigos e prostitutas abordam os turistas em frente aos hotéis.

Os problemas econômicos enfrentados desde que os subsídios soviéticos chegaram ao fim, mais de uma década atrás, forçaram Castro a se voltar para o norte, em busca dos turistas e dos dólares que foram criticados pela sua revolução. Nos últimos meses, ele recebeu a visita do ex-presidente Jimmy Carter, estimulou a realização de uma feira de alimentos para empresários norte-americanos que desejam vender produtos para consumidores cubanos, patrocinou um simpósio sobre o 40º aniversário da crise dos mísseis cubanos e concedeu uma entrevista a Barbara Walters, da rede de televisão ABC.

As iniciativas de Castro tiveram repercussão no Congresso dos Estados Unidos. A Câmara aprovou por 262 votos a 167, em julho, a suspensão das restrições às viagens a Cuba (segundo a lei em vigor, somente acadêmicos, jornalistas, missionários e pessoas que estejam visitando parentes próximos podem visitar legalmente a ilha).

Ainda que o Senado também aprove a medida, o presidente Bush e os seus assessores de linha dura sobre questões relativas à América Latina estão resistindo aos charmes de Castro. A Casa Branca afirma que, suspender às restrições quanto as viagens a Cuba "significaria ajudar um regime desesperado e repressor".

Devido à pressão política exercida pelos exilados cubanos anti-castristas no sul da Flórida, parece improvável que haja alguma melhoria nas relações entre Estados Unidos e Cuba até as eleições de 2004 - ou até que Castro, que tem 76 anos de idade, saia de cena. Aquilo que os dissidentes chamam de "abordagem biológica" quanto a uma mudança de regime é algo que pode levar anos.

"A má notícia é que Castro tem um excelente perfil genético e parou de fumar charutos", costuma dizer o diretor da CIA, George Tenet.

Tradução: Danilo Fonseca

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