Companhia aérea afegã faz um retorno sacolejante

Steven Komarow
USA Today
Em Cabul (Afeganistão)

O processo de check-in para o novo vôo da Ariana Afghan Airlines, de Frankfurt, Alemanha, para esta capital devastada pela guerra, é surpreendentemente amistoso e eficiente. As filas andam rapidamente, e um funcionário que fala inglês fornece instruções claras para que os passageiros cheguem ao portão de embarque.

O Airbus A-300, de 20 anos de idade, possui o interior um pouco gasto, mas atende às exigências mínimas da indústria de linhas aéreas. Música genérica de Hollywood pode ser ouvida nos auto-falantes acima das poltronas. A seguir, as portas se fecham, e a eficiência germânica desaparece. Uma comissária de bordo é incapaz de demonstrar como se utiliza um colete salva-vidas. Um outro comissário diz em voz baixa para dois figurões que sofrem com a abstinência de nicotina como estes podem burlar a proibição de fumar durante o vôo. "Vão até lá atrás, longe dos banheiros e das crianças, como se não estivessem fazendo nada", sussurra.

O fato de a Ariana não conseguir causar uma primeira boa impressão não é algo que chegue a surpreender. Este novo serviço semanal, inaugurado em 18 de setembro, é o primeiro vôo da Ariana conectando o Afeganistão ao Ocidente em três décadas. É o início do grande esforço da Ariana para se transformar na linha aérea preferida pelos empresários ocidentais e turistas que viajam para a Ásia Central e para o subcontinente indiano.

"Passamos por períodos muito difíceis, devido às guerras e às sanções das Nações Unidas", conta Feda Mohammad Fedawi, diretor de operações, que está há 40 anos no setor afegão de aviação, incluindo 17 nesta empresa. Ele espera que em breve a Ariana faça o trajeto da Europa a Nova York, e firme parceria com uma empresa aérea norte-americana.

Mas esses planos são prematuros. A Ariana possui apenas três aeronaves: o Airbus e dois aparelhos Boeing 727, ainda mais velhos. Dois outros Airbus, doados pela Índia, devem chegar ao país nos próximos dois meses.

No auge das suas operações, na década de 70, a Ariana possuía 17 aviões que voavam para cidades como Paris e Roma. Os seus usuários incluíam europeus e norte-americanos que buscavam a sedução do país, tapetes, antiguidades e até mesmo haxixe do Afeganistão.

Antes da invasão soviética, em 1979, a Ariana possuía até um DC-10 -- uma aeronave de grande porte --, e era parceira da Pan Am. Mas os soviéticos assumiram o controle do país em 1979, o DC-10 foi vendido e os vôos para o Ocidente foram interrompidos. A empresa aérea estatal desmoronou devagar juntamente com o Afeganistão. As guerras civis na década de 90 reduziram o antigo mercado de Cabul e outras atrações turísticas a ruínas. Os vôos internacionais foram suspensos durante o período Taleban, quando o país enfrentou sanções das Nações Unidas.

Quando a Força Aérea dos Estados Unidos terminou o seu bombardeio em novembro do ano passado, somente um Boeing 727, parado em um hangar e um antigo avião turbo hélice russo estavam intactos. O aeroporto internacional de Cabul estava coberto de destroços e as suas pistas repletas de crateras. Atualmente, a Ariana está recomeçando "da estaca zero", afirma Fedawi.

Embora a frota seja reduzida, a Ariana ainda assim precisa de auxílio internacional. A Índia emprestou pilotos ao Afeganistão até que os pilotos da própria empresa possam ser treinados e aprovados nos testes de qualificação. Os comissários de bordo estão sendo treinados em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e outros locais, até que o novo programa de treinamento, em Cabul, tome ímpeto. Empresas aéreas estrangeiras estão fazendo a manutenção nos aviões. O Peru cedeu à Ariana uma equipe de 25 técnicos para garantir que os aviões decolem de Cabul. A Ariana pretende comprar dois aviões turbo-hélices usados. O NA-24, da era soviética, que sobreviveu à guerra, foi aposentado, por ser considerado inseguro.

Mas o plano de longo prazo para fazer da Ariana um sucesso está longe de deslanchar. A ISAF, a força de segurança internacional em Cabul, removeu as minas terrestres e providenciou segurança para o aeroporto da capital, mas os perigos ainda estão presentes.

Em meados de outubro, as Nações Unidas desviaram durante três dias os vôos destinados ao aeroporto de Cabul para uma base aérea dos Estados Unidos, devido a ameaças de um ataque terrorista. Combustível de boa qualidade, que vem de caminhão do Paquistão, é um material escasso. O aeroporto não conta com sistemas modernos de apoio à navegação e muitas vezes falta luz elétrica. Um vôo para Frankfurt, há duas semanas, atrasou três horas devido a um blecaute. Não existem hotéis com padrão executivo, nem no aeroporto nem em qualquer outro lugar no Afeganistão. Os visitantes ocidentais geralmente ficam nas hospedarias da ONU ou no Cabul InterContinental, um hotel que no passado foi luxuoso, mas que hoje é sujo e decrépito, não tendo nenhum vínculo com a famosa cadeia hoteleira que possui esse nome.

As Nações Unidas, que operam os seus próprios aviões de Islamabad, no Paquistão, para Cabul, poderia se tornar uma grande freguesa da Ariana, caso as negociações que estão em andamento viessem a dar resultados. Mas a tarefa de atrair um mercado mais amplo exigirá tempo e aperfeiçoamentos. Menos da metade dos assentos do Airbus, que possui 232 lugares, foi ocupada nos vôos vindos de Frankfurt, no início de outubro. As passagens ainda precisam ser compradas com dinheiro vivo. Não é possível despachar a sua bagagem de qualquer outro local, a não ser o aeroporto de partida. E a jornada ainda tem um toque de aventura.

A maior parte dos passageiros parece ser composta de prósperos exilados afegãos, que visitam a sua pátria. As crianças brincam durante horas no corredor, sem serem importunadas pelos comissários de bordo, que não se importam com o fato óbvio de que alguns passageiros estão tentando dormir durante a viagem que dura a noite toda.

Após uma escala para reabastecimento em Istambul, o café da manhã é servido. As bandejas de alumínio quente são entregues nas mãos dos passageiros, o que não se constitui exatamente em uma maneira agradável de despertar.

Felizmente, os módicos US$ 705 pagos por uma viagem de ida e volta não deixarão que nenhum passageiro sinta que foi roubado.

Tradução: Danilo Fonseca

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