Especialista em bioética condena busca da imortalidade pela genética

Dan Vergano
USA Today

Certas pessoas olham para as promessas implícitas na terapia genética, nas células-tronco e na seleção de embriões e visualizam vidas mais longas e de melhor qualidade para os indivíduos, sem sofrimento e mal-estar.

Já o especialista em bioética, Leon Kass, se debruça sobre as mesmas promessas e vê um "Admirável Mundo Novo" surgindo no horizonte.

A morte, o sofrimento e a ignorância contidos no destino genético de um indivíduo não são elementos tão ruins, argumenta Kass no seu novo livro, "Vida, Liberdade e a Defesa da Dignidade". Presidente do Conselho de Bioética, Kass adverte que, embora a biotecnologia possa ser capaz de eliminar alguns desses males, esta ciência eliminará também algumas das virtudes que dão sentido e dignidade à vida, segundo o seu ponto de vista.

"É uma barganha bastante difícil", diz ele.

No ano passado, Kass, 63, emergiu como figura central na polêmica de âmbito nacional sobre clonagem, células-tronco e o futuro da biotecnologia. Membro do American Enterprise Institute, uma instituição de pesquisas que busca soluções para problemas da sociedade com base nas empresas privadas, além de professor da Universidade de Chicago, Kass foi nomeado pelo presidente Bush para chefiar um seminário de bioética que fiscalizaria a política do governo relativa às pesquisa com células-tronco embrionárias. Kass passou a ser visto como um dos principais assessores para o plano do governo, que permite o financiamento federal para pesquisas com colônias, ou linhagens, pré-existentes, de células-tronco embrionárias, proibindo, porém, os estudos feitos com quaisquer embriões criados após o dia nove de agosto de 2001, quando foi anunciada publicamente a política de Bush para o setor.

Com a designação de Kass para o cargo, os norte-americanos passaram a contar com um homem que alertou consistentemente sobre os perigos da ciência descontrolada, durante uma carreira de 40 anos, que teve início quando ele era médico e bioquímico do Instituto Nacional de Saúde.

"Tudo o que procuro é levantar questões", afirma Kass no seu livro mais recente. O espectro do "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, assombra os capítulos escritos por Kass sobre tópicos que incluem a clonagem, a pesquisa com embriões e a venda de órgãos. Kass faz um alerta sobre a "tragédia" da tecnologia, sobre o esforço contínuo para romper as fronteiras naturais humanas e sobre a reconstrução do corpo humano. Assim como as massas imaginadas no livro de Huxley, geneticamente manipuladas, estuporadas por ação de drogas e entretidas de maneira obsessiva, a humanidade atual se depararia com um futuro de avanços tecnológicos que ele acredita ameaçar a dignidade humana.

Ele diz que essa dignidade "reside no fato de as nossas vidas serem limitadas e de termos consciência disso". Ele adverte que a busca por parte da medicina moderna de curas para doenças que causam sofrimento é, na realidade, uma caçada à imortalidade que ameaça lançar a humanidade em um mundo de perfeição estéril.

Ele se opõe, por exemplo, à realização de forma não crítica de testes genéticos: "Muita gente que opta por viver de forma espontânea, ao invés de se nortear pela medicina preventiva praticada racionalmente, preferiria não saber a provável causa de sua morte", escreve.

"Não estou afirmando que sofrer seja uma coisa boa", acrescenta Kass, mas o sofrimento pode ser uma necessidade para que as pessoas tenham vidas realizadas. A busca da perfeição pela medicina ameaça essa oportunidade, sugere ele, no seu livro. Segundo Kass, a imortalidade eventualmente conquistada por meio da engenharia genética poderá acabar com a motivação humana para o aperfeiçoamento, fazendo com que a sociedade entre em um rumo ao mesmo tempo monótono e árido.

Mas como as noções de dignidade expostas por Kass são vistas por alguém cujos entes queridos poderiam ser ajudados pelos avanços da biotecnologia?

Steve Leider, de Sussex, Nova Jersey, observou a sua mulher, Linda, de 44 anos, se deteriorar durante oito anos, devido à doença de Alzheimer. Ele confessa que está aguardando ansiosamente que as pesquisas com células-tronco embrionárias criem alguma terapia capaz de ajudar a mulher, e diz que gostaria que ela recebesse tal tratamento, não importa para onde isso conduzisse a humanidade. Mas após ler o livro de Kass, a pedido do USA Today, ele admite que alguém provavelmente fará mau uso da tecnologia, segundo os temores do escritor. A mulher de Leider é muito nova para se candidatar às experiências clínicas relativas a tratamentos para a doença de Alzheimer, diz ele, e a sua experiência de vida o deixou tão desconfiado quanto Kass a respeito dos motivos ocultos que moveriam as pesquisas médicas.

"Talvez não valha a pena ficar sabendo sobre certas coisas", admite Leider.

Kass também condena os especialistas em bioética por aprovarem a futura revolução genética na medicina. Ele diz no seu livro que, com as suas abordagens excessivamente racionais para resolver problemas como, por exemplo, quando interromper o tratamento de pacientes terminais, e os prós e contras de vários esquemas de doação de órgãos, os especialistas em bioética "transformaram as grandes questões humanas em um mingau bastante ralo". Kass sugere que tais profissionais ignoram a grande questão que diz respeito ao rumo que toma a medicina, enquanto dissecam questões menores.

Um dos problemas com a sua argumentação é o fato de vários especialistas em bioética já estarem levantando as mesmas questões, diz John Lantos, da Universidade de Chicago, presidente da Sociedade Americana de Bioética e Humanidades (ASBH). Em discussões durante a reunião do grupo, realizadas na semana passada, em Baltimore, grande parte das preocupações ficou centralizada na possibilidade de os especialistas em bioética serem cooptados pela indústria farmacêutica e receberem grandes somas para fornecerem um rótulo de aprovação a pesquisas duvidosas relativas aos genes e a sintomas como ansiedade e timidez.

Além do mais, diz o especialista em bioética Carl Elliot, da Universidade de Minnesota, em Minneapolis, "O problema com o seu argumento é a alegação que vários dos cientistas estariam buscando a imortalidade, quando o que eles buscam na verdade é o aumento da longevidade. Se a manipulação genética for capaz de permitir que as pessoas tenham vidas mais longas e saudáveis, qual o problema? O que haveria de errado caso os indivíduos, ao invés de viverem até os 75 ou 80 anos em um estado de crescente fragilidade, doença e incapacidade física, pudessem viver até os 100 em boas condições de saúde e vigor?".

Até mesmo aqueles que não aceitam as posições políticas de Kass admiram a sua ampla abordagem, diz Elliott, argumentando que Kass resgatou um vocabulário moral que costuma se perder no campo da bioética -- palavras como dever, virtude, honra, vergonha, dignidade, degradação e alma. Contrastando com isso, a atual linha mestra da bioética prefere tomar decisões com base na maximização das escolhas individuais e das relações de risco e benefício, diz Elliott.

Embora seja admirado pelos conservadores, a ambivalência de Kass quanto ao progresso da ciência e da medicina acabou por refletir opiniões similares expressas por indivíduos mais liberais, observa Lanto. A combinação surgiu no início deste ano, quando o crítico da tecnologia, Jeremy Rifkin, se uniu aos oponentes do aborto, ao pedir a proibição total das pesquisas com células-tronco embrionárias.

"Kass deseja se voltar para as questões humanas mais amplas, que dizem respeito a vida, morte, sexo e reprodução, que muitos especialistas em bioética não querem ou tem medo de enfrentar", afirma Elliot. "Ele injetou uma grande dose de seriedade moral nessa área".

Tradução: Danilo Fonseca

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