Novo filme de Harry Potter é mais sombrio, provocador e emocionante

Claudia Puig
USA Today
Hartfordshire (Inglaterra)

O diretor Chris Columbus está feliz.

Feliz porque o seu "Harry Potter e a Câmara Secreta", a segunda parte da série enormemente popular, estréia nos cinemas dos Estados Unidos em 15 de novembro. E também porque o filme é "mais sombrio, provocador e emocionante".

Essas três características aparecem em conjunto na forma de um ser híbrido de planta e animal, conhecido como mandrake. Das suas folhas brotam raízes grumosas, semelhantes a nabos, capazes de assumir a forma de bebês sinistros e extremamente gordos. E o pior é que elas emitem gritos terrívei, capazes de matar.

"São uma espécie de budas grotescos, semelhantes a bebês", diz o elaborador de produção, Stuart Craig. "Os alunos precisam retalhá-los como tarefa de uma aula, portanto, não quisemos que eles fossem muito engraçadinhos".

Mas, espere aí! Crianças cortando e picando criaturas semelhantes a bebês?

David Heyman, produtor dos filmes da série "Harry Potter" que descobriu o primeiro filme de J.K. Rowling, afirma: "Temos exercer cuidado, nestes tempos em que tudo precisa ser politicamente correto, para que não acabemos por remover todas as partes emocionantes".

Fãs de todo o mundo gostaram da tensão e da emoção imaginadas por Rowling. As crianças estão contando os dias que faltam para o próximo episódio das aventuras do menino bruxo. A expectativa subiu para patamares astronômicos no ano passado, nas vésperas do lançamento da primeira saga, "Harry Potter e a Pedra Filosofal", que arrecadou US$ 317,6 milhões na América do Norte, e US$ 969 milhões em todo o mundo.

O entusiasmo vai se tornando febril nos pátios escolares e nos Web sites dedicados a "Harry Potter", mas o quadro já parece bastante familiar. Assim como o seu predecessor, o sucesso absoluto de "A Câmara Secreta" está garantido.

O USA Today foi o único jornal norte-americano a receber permissão para visitar as cenas da filmagem do segundo "Harry Potter", no início deste ano. "A Câmara Secreta" foi rodado no Leavesden Studios, que é o maior da Europa, com uma área de 114,4 hectares. Foi lá que as novas criaturas e personagens, assim como a maior parte dos velhos favoritos, se juntaram para criar a experiência mágica do mundo de Harry Potter.

Quase que todos aqui trabalharam no filme original, e a sensação desta vez é de grande confiança e de um alívio palpável. O primeiro filme forneceu uma apresentação de Harry e da Escola de Magia Hogwart. "A Câmara Secreta" assume que o público já está familiarizado com o mundo encantado de Harry Potter.

"O primeiro filme dizia respeito à descoberta, com 40 minutos explicativos", afirma Columbus. "O segundo é uma ação de aventuras de verdade, uma estória de tirar o fôlego. Os personagens estão crescendo e se transformando em adolescentes".

Recentemente, Columbus indicou que o lapso de tempo entre a filmagem de "A Câmara Secreta" e "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban", cuja produção será iniciada em março, poderia fazer com que Daniel Radcliffe, de 13 anos, e os seus companheiros de estrelato, Rupert Grint, também de 13, e Emma Watson, de 12 anos, ficassem muito velhos para estrelarem no quarto filme. "Eles podem ficar grandes demais para os papéis", diz Columbus.

Radcliffe, que interpreta Harry, com os seus óculos, não pode pensar tão longe. "Não estou sequer pensando no quarto filme; ele está muito distante no futuro. Não sei de que forma o sentiria". Mas ele achou o trabalho no segundo filme "fantástico". "O filme é bem mais intenso, e todos nós nos concentramos nele de uma maneira incrível".

Radcliffe enxerga uma diferença em Harry: "Quando ele retorna em 'A Câmara Secreta', a sua casa em Hogwats está sob a ameaça de uma força maligna e ele luta para protege-la, tornando-se, portanto, um personagem ativo".

O mesmo acontece com o restante do elenco. O fato de saber que fizeram um filme que foi um enorme sucesso -- e que conseguiram dar conta da difícil tarefa de agradar aos fãs do livro e a Rowling -- lhes confere espaço para respirar. "Há agora uma atmosfera mais tranqüila", afirma Columbus. "Da primeira vez estávamos todos em uma posição de reverência em relação ao livro. A última coisa que desejaríamos seria desapontar as crianças".

O cenário de "Harry Potter" é conhecido como um local apreciado pelas crianças.

Circulando no local está um dos quatro filhos de Columbus, Brendan, de dez anos, que tem os cabelos tão vermelhos que parece mais um membro da família Weasley, que tem o cabelo cor de cenoura. Ele lê e conversa com a equipe. O garoto senta-se na cadeira de diretor do seu pai, observando com atenção uma cena que é ensaiada seguidamente, e, a seguir, filmada.

A câmera é focalizada em um cenário conhecido como "a Toca", a casa desorganizada, mas aconchegante, dos Weasleys, uma família de bruxos cujo domicílio é pura mágica.

Embora a veterana atriz Julie Walters, no papel da Senhora Weasley, pareça perturbada ao servir café da manhã para seis crianças, ela não necessita de ajuda. Na toca, os pratos lavam a si próprios, e um relógio de pêndulo mostra as diversas localizações e atividades da família Weasley.

Repentinamente, Ginny Weasley, de 11 anos, interpretada por Bonnie Wright, desce as escadas espiraladas vestindo o seu roupão de banho e pergunta se alguém viu o seu suéter. A mãe responde calmamente, "Sim, querida, ele está no gato".

Na porta ao lado estão ajudantes de filmagem com uma frota de automóveis Ford Anglias azul-turquesa, para uma cena difícil, onde Harry e Ron entram no carro do pai deste último e o fazem voar até a escola, passando por sobre a fumegante locomotiva, conhecida como o Expresso Hogwarts.

Harry é arremessado para fora do carro e fica pendurado precariamente, em um dos momentos mais emocionantes do filme. A cena exige a utilização de imagens geradas por computador, combinada com efeitos especiais para simular o vôo sobre o interior da Inglaterra. O carro acaba despencando sobre uma árvore encantada, que foi construída em três etapas, e que é conhecida como "o salgueiro lutador". Ele cai de um ramo a outro e, finalmente, a árvore mágica deixa de bater no carro.

"Há realmente algo de interessante com relação à combinação de imagens geradas por computador e o trabalho prático", diz Columbus, enquanto descansa um pouco das filmagens. "Um cenário gerado inteiramente por computador pareceria irreal. E as telas azuis têm um efeito psicológico sobre os atores. Eles passam a sentir o sabor da artificialidade. Se o mundo fosse feito de telas azuis, teríamos que trabalhar muito mais para conseguir interpretações realistas por parte dos atores".

O quadribol, o jogo aéreo híbrido de basquete com futebol, "é a parte do filme onde existem mais imagens geradas por computador", explica Columbus. Os jogadores de quadribol ficaram nervosos durante o primeiro filme, quando tiveram que ficar suspensos no ar em vassouras hidráulicas. Desta vez, com o auxílio de uma tecnologia aperfeiçoada, eles se sentiram mais confortáveis.

"Nos inspiramos na corrida de bigas de 'Ben Hur'", conta Columbus. "O segredo foi acertar o tempo de ação com os jogadores e também aperfeiçoar o aparato das vassouras voadoras, conseguindo mais movimento, o que cria o elemento de velocidade".

Uma combinação de tecnologia computadorizada e complexa construção de cenário contribui para o clímax de "A Câmara Secreta". A maior sala de sons do estúdio -- que já foi uma fábrica de turbinas a jato da Rolls-Royce -- abriga a enorme câmara de 72 metros de extensão, que tem um toque extra de realismo conferido pelas estalactites. Lá, Harry luta com uma serpente de 25 metros, dotada de garras reluzentes.

A ação no segundo filme exigiu mais esforços físicos por parte de Radcliffe.

"Dan fez a maior parte das suas próprias cenas de ação", diz o diretor. "Fiquei dolorido só de vê-lo lutando contra a basilisk (a serpente gigante)".

Esse nível de envolvimento é uma das razões pelas quais Columbus decidiu não dirigir o terceiro filme. Ele está exausto com a tarefa de fazer de ponta a ponta dois filmes épicos carregados de efeitos especiais. "Não seria mais capaz de dar 150% de mim", afirma. "Com relação a este tipo de filme, é preciso uma dedicação integral".

Columbus ajudará na produção de "O Prisioneiro de Azbakan", que deve estrear em 2004, que será dirigido por Alfonso Cuarsn ("A Pequena Princesa" e "E Sua Mãe Também").

"Prometi às crianças que, não importa quem dirija, sempre estarei à disposição para ajudar", diz Columbus, que dirigiu os filmes infantis "Esqueceram de Mim" e "Uma Babá Quase Perfeita". "Eu me preocupo com as crianças, e prestarei toda a assistência que puder".

Tradução: Danilo Fonseca

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