"Mentalidade taleban" está reaparecendo na vida afegã

Steve Komarow
USA Today
Em Cabul (Afeganistão)

Histórias de democracia, de direitos das mulheres e de progresso econômico atraíram Fahkria Assad de volta à capital do Afeganistão no mês passado. A ex-apresentadora da TV estatal, que foi expulsa do seu emprego por fundamentalistas muçulmanos, pretendia reiniciar a carreira e contribuir para o futuro do seu país.

Ao invés disso, ela está voltando para o exílio no Paquistão, desapontada e rejeitada.

"Não estou otimista", diz ela. Ao invés do progresso continuado ela diz que só vê o fundamentalismo ficar cada vez mais forte no Afeganistão.

Faz um ano que o regime Taleban foi expulso de Cabul, mas a onda de tolerância que se seguiu à guerra foi substituída pela cautela e por indícios crescentes de que os fundamentalistas estariam retornando ao cenário.

Cedendo à pressão dos conservadores, o governo reativou o tão temido Ministério do Vício e da Virtude.

O órgão, que impôs a rígida interpretação da lei islâmica feita pelo Taleban, recebeu o novo nome de Ministério da Instrução Religiosa. Alunas de escolas, que foram proibidas de estudar sob o regime Taleban, também estão sob o ataque dos simpatizantes do movimento fundamentalista em todo o Afeganistão. Na semana passada, quatro escolas na parte central do país foram danificadas por disparos de foguete e incêndios propositais. Ninguém foi ferido com os ataques, que ocorreram quando as escolas estavam fechadas, mas não há dúvidas quanto à mensagem implícita nos incidentes.

Fatos como esses estão estimulando a polêmica sobre o rumo que o país está tomando. O argumento deve se intensificar nos próximos meses, à medida que uma comissão especial elabora uma nova constituição afegã. O documento vai afirmar que o Afeganistão é uma nação islâmica. Há menos certeza quanto ao que isso significa no caso de questões como os direitos das mulheres e a justiça criminal.

"Não estou certa quanto ao rumo que esse processo vai tomar", afirma Fatiha Serour, assessora das Nações Unidas sobre a questão da mulher no Afeganistão. "Os próximos meses serão cruciais".

Desde que Cabul foi tomada pelas forças lideradas pelos Estados Unidos, cinemas foram reabertos, as artes e a fotografia floresceram e a música voltou a ser ouvida. Mas os conservadores do Afeganistão estão sinalizando que é melhor que essa tendência não vá mais além com relação à liberdade de expressão. Líderes afegãos há muito lutam para encontrar um equilíbrio entre a forte tradição islâmica do país e as forças que pressionam rumo à modernização.

Os mujahedins, ou "guerreiros santos", dos anos 80, lutaram não só contra os invasores soviéticos, mas também contra os seus valores seculares.

Atualmente, centenas de milhares de afegãos estão retornando do exílio, muitas vezes trazendo consigo a influência dos anos passados em sociedades ocidentais.

Vários desses afegãos que retornam se lembram do período anterior à invasão soviética de 1979 como sendo uma época de relativa paz e prosperidade. É esse o modelo que eles gostariam de seguir.

A ativista de direitos humanos Sima Wali, que mora em Washington, retornou ao Afeganistão, seu país de origem, no mês passado, pela primeira vez em 23 anos. Wali foi delegada do encontro em Bonn, na Alemanha, quase um ano atrás, que estabeleceu as bases de um governo pós-Taleban para o Afeganistão. Ela diz que, naquela ocasião, alimentou grandes esperanças.

Em junho, uma mulher participou como vice-diretora da loya jirga, o grande conselho que elaborou o atual governo de transição. Programas voltados para mulheres e escolas para meninas se expandiam rapidamente. As punições no estilo Taleban -- tais como as amputações das mãos de ladrões e os espancamentos em público -- pareciam ter sido descartadas.

Mas Wali, de 51 anos, diz que, desde então, os moderados afegãos perderam terreno, e que os extremistas passaram a impor o seu poder, fazendo com que o país ficasse mais próximo ao ideal do Taleban do que em qualquer época desde que aquele regime foi retirado do poder.

"Embora o Taleban tenha sido derrotado, ainda existe a mentalidade taleban em meio a muita gente que tem cargos importantes no governo", explica Wali. "Se não contarmos com uma pressão extremamente forte por parte da comunidade internacional, as forças opressoras e extremistas vencerão".

Talvez a questão mais sensível seja o renascimento da agência do governo acusada de obrigar os afegãos a seguir as regras muçulmanas quanto ao vestuário e ao comportamento.

Durante a era Taleban, o patrulhamento exercido pelo Ministério do Vício e da Virtude era notório. Os seus agentes vasculhavam o país, com autoridade para impor punição imediata. As mulheres que não cobriam as faces e os homens que não tivessem barbas com o comprimento mínimo de um punho eram espancados. Pessoas acusadas de roubo tinham as mãos ou as pernas decepadas, sem passarem por julgamento. No Estádio Olímpico de Cabul, as partidas de futebol deram lugar às sessões de enforcamento.

Se havia um setor desacreditado do governo Taleban, tal setor era o Ministério do Vício e da Virtude.

Mas, em agosto, uma versão supostamente mais branda da agência foi criada de forma discreta, já que o governo do presidente Hamid Karzai procurava atender às reclamações dos comandantes tribais, que se queixavam de que o novo governo seria demasiadamente secular.

O diretor do Ministério de Instrução Religiosa diz que não tem a intenção de voltar a adotar as táticas do Taleban. Segundo ele, devido ao fato de o Afeganistão ser um Estado islâmico, é preciso fornecer orientação aos cidadãos. Mas ele diz que não vai obriga-los a fazer nada com o uso da força.

"O Taleban obrigava as pessoas a agir, e, para isso, usava a força física", afirma Sayed Qasemi, em uma entrevista no seu modesto escritório. "Já a nossa responsabilidade é apenas a de ensinar".

Qasemi diz que os seus 291 funcionários, incluindo 48 mulheres, estão elaborando diretrizes para outras agências do governo e preparando seminários sobre o comportamento muçulmano apropriado. Às sextas-feiras, o sabbath muçulmano, eles devem se dirigir às mesquistas e mercados públicos para fazer advertências verbais, caso, por exemplo, uma mulher for vista usando roupas excessivamente coloridas.

Qasemi explica que o objetivo é promover a tradição islâmica, ao mesmo tempo que se reconhece o valor de conceitos modernos, como, por exemplo, o trabalho da mulher, e inovações globais, como a Internet.

"O islamismo é a religião da luz e da liberdade", afirma.

Nem todos, no entanto, encaram o renovado interesse governamental no patrulhamento religioso como algo benigno. Os esquadrões de educação religiosa do governo têm aconselhado as mulheres que não usam a burca, uma veste que as cobre inteiramente, da cabeça aos pés, a utilizarem roupas de tonalidades escuras e evitarem maquiagem.

"Todas as restrições que existiam antes estão voltando à tona", lamenta Serour, a assessora da ONU.

E essas questões não serão resolvidas facilmente. O país assumiu historicamente uma atitude paternalista com relação à mulher.

Tal atitude chega a estar consagrada na linguagem.

Na língua dari, o idioma dominante no país, a mesma palavra é utilizada para designar "criança" e "filho". Ao serem perguntados sobre quantas crianças (filhos) possuem, a maior parte dos homens afegãos não leva em conta as meninas.

Tradução: Danilo Fonseca

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