Economia chinesa se abre, mas política ainda está fechada

David J. Lynch
USA Today
Em Pequim (China)

Duas décadas de reformas voltadas para o livre mercado fizeram com que a economia da China se abrisse cada vez mais para o mundo. Mas, às vésperas de uma histórica mudança na cúpula do governo, a política nacional chinesa continua tão fechada como nunca.

"Nesse sentido, a China ainda é uma ditadura autoritária de linha dura", explica Richard Baum, um conhecido analista de questões relativas àquele país, e autor do livro "Enterrando Mao".

No dia 8 de novembro, uma convenção do Partido Comunista vai começar a transferir o poder para uma geração de líderes mais novos, cujas carreiras começaram após a criação da República Popular da China, em 1949. Caso a sucessão transcorra como é esperado, o 16º Congresso do Partido vai se constituir na primeira vez em que um secretário-geral do Partido Comunista é substituído antes de morrer ou ser vítima de um expurgo. Cinco dos sete membros do Comitê Permanente do Politburo, o mais importante órgão elaborador de políticas do país, também devem ser substituídos, juntamente com os líderes do Exército Popular de Libertação.

Os fatos básicos sobre a mudança há muito são conhecidos. Mas as nomeações pessoais específicas, assim como a forma como estas serão realizadas, continuam sendo obscuras para observadores externos e para o povo chinês. "Realmente não sabemos quais são os verdadeiros planos, o que eles estão pensando e qual é a dinâmica do processo", afirma Minxin Pei, da organização Carnegie Endowment for International Peace, em Washington.

Algumas dezenas de homens determinarão a nova linha do partido; os 1,3 bilhão de habitantes da China são meros expectadores. A batalha política entre facções partidárias não oficiais, desde o grupo de Xangai, que apóia o presidente Jiang Zemin, aos conservadores partidários do ex-primeiro-ministro Li Peng, ocorre longe dos olhos da população. Até mesmo as pesquisas de opinião para determinar o que o povo chinês acha dos seus líderes são um tabu, segundo Victor Yuan, diretor da Horizon Market Research, em Pequim.

A opacidade política contrasta vivamente com a economia cada vez mais aberta da China. Mais pobre do que seus vizinhos menores, os "Tigres Asiáticos", e confrontando-se com enormes desafios econômicos, a China optou, em 1999, por ingressar na Organização Mundial de Comércio (OMC). O ingresso na organização passou a vigorar há quase um ano, obrigando Pequim a suspender barreiras tarifárias e a fazer com que fosse mais fácil para os empresários estrangeiros competir no potencialmente lucrativo mercado chinês. No longo prazo, a filiação à OMC deverá tornar a China mais próspera. Mas a transição de uma economia planificada para o comércio global significará, em curto prazo, demissões inevitáveis de milhões de operários e camponeses que trabalham para o Estado.

As autoridades chinesas têm sido ousadas ao correr o risco de enfrentar o descontentamento doméstico em troca de um ganho ainda impalpável. Mas elas têm sido bem mais cautelosas quanto a dar passos igualmente arriscados no sentido de reformar o seu sistema político leninista.

Acima de tudo, os poucos homens que lideram, a partir do interior da instalação conhecida como Zhongnanhai, no centro de Pequim, querem evitar uma repetição dos eventos de 1989, que culminaram na repressão sangrenta do movimento pró-democrático na Praça da Paz Celestial.

Os líderes chineses temem que o início de reformas políticas gerem inevitavelmente um efeito dominó, no qual um número sempre crescente de demandas públicas resultasse na perda do monopólio do poder pelo partido.

"Desde a Praça da Paz Celestial... o sistema se endureceu no alto escalão, ao invés de se abrandar", afirma Baum. "Eles não foram capazes de relaxar o controle que exercem sobre a sociedade".

O segredo generalizado mantido a respeito do processo político cria uma "mística do poder" que ajuda a evitar que disputas travadas entre os membros da alta hierarquia do governo se transformem em uma ampla convulsão social, explica Andrew Nathan, cientista político da Universidade Colúmbia, que estuda a China. "Mas isso diminui a legitimidade da nova liderança chinesa, tanto no cenário interno quanto internacionalmente, devido à impressão de que eles foram ungidos em um processo misterioso, no qual ninguém foi consultado".

Devido a uma cortesia de Nathan, uma aparente brecha no secretismo veio à tona: arquivos internos do Politburo sobre candidatos à liderança, que foram revelados por um funcionário que a eles tinha acesso. Os arquivos se constituem na base para o livro "As Novas Regras da China", escrito por Nathan e Bruce Gilley, que será publicado em dezembro.

Os especialistas questionam a validade dos arquivos. Mas, independentemente da precisão dos documentos, os analistas concordam com o fato de que há evidências de uma abertura no processo político nos círculos mais baixos de poder. Yuan fez uma pesquisa em oito grandes cidades, perguntando aos moradores se eles estavam satisfeitos com o desempenho de seus prefeitos, uma pergunta que é oficialmente proibida de ser feita quando se refere aos membros do governo central. Yuan diz que espera expandir gradualmente as suas pesquisas, a fim de que estas incluam os governadores das províncias chinesas - algumas das quais possuem populações maiores do que as da Inglaterra ou da França - e, um dia, os líderes do país.

Algumas vilas chinesas também fizeram eleições, que incluíram uns poucos candidatos não comunistas. A província de Jiangxi, no sudeste do país, passou a realizar auditorias públicas sobre as políticas do governo. E o círculo de comentários públicos permitidos tem se expandido lentamente.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos