Saiba como o Iraque engana os inspetores da ONU

Tom Squitieri
USA Today

David Kay, um ex-inspetor de armamentos das Nações Unidas, se recorda do dia - em 1991 - em que a sua equipe apareceu em um edifício iraquiano, munida de informações concretas sobre registros de programas secretos de armas que estariam armazenados em um escritório específico.

"À medida que cruzávamos o corredor, os iraquianos se postavam enfileirados, sorrindo", diz Kay. "Eles sabiam que estávamos vindo e haviam feito uma limpeza no escritório. Dentro dele havia uma mesa, cadeiras, e nada mais".

As informações à disposição de Kay foram passadas por um desertor iraquiano, mas decorreram meses entre a época em que o desertor fugiu do Iraque e o momento em que as informações finalmente chegaram às mãos dos inspetores. A essa altura, os iraquianos haviam descoberto que o cientista fugira, e trataram de encobrir as evidências.

Kay diz que, atualmente, quando se recorda do incidente, o acha engraçado. Mas, à época, não havia nada de engraçado e as suas experiências no Iraque consistem em uma advertência quanto às frustrações com que os inspetores vão se deparar ao tentarem descobrir armas proibidas, assim que retornarem a Bagdá pela primeira vez em quatro anos. Àquela época, eles se defrontaram com uma resistência crescente e persistente por parte dos iraquianos, e deixaram o país pouco antes de os Estados Unidos e o Reino Unido darem início a uma campanha de bombardeio retaliatória.

Hoje, o Conselho de Segurança da ONU deve aprovar uma resolução que poderia enviar os inspetores de volta ao Iraque nas próximas duas semanas, para que começassem as inspeções antes do Natal. De acordo com o cronograma, os inspetores terão que entregar o seu relatório às Nações Unidas até 21 de fevereiro de 2003.

Ao se considerar que o governo Bush está pronto a aproveitar qualquer obstrução dos trabalhos dos inspetores por parte dos iraquianos como justificativa para uma invasão destinada a depor Saddam Hussein, uma questão chave é saber o que seria necessário para provocar uma guerra.

"A nossa maior preocupação é quanto ao tipo de incidente que desencadearia uma resposta militar, e qual seria o limite quanto à gravidade de tal incidente", diz Edwin Lyman, presidente do Instituto de Controle Nuclear, um grupo de não proliferação com sede em Washington. "É de se esperar que o Iraque dê aos inspetores desculpas do tipo "o cachorro comeu o meu dever de casa". Que tipo de manobra evasiva seria necessária para desencadear uma resposta militar imediata?"

Bloqueio dos inspetores

Kay e outros especialistas dizem que o Iraque utiliza uma série de técnicas para frustrar os inspetores: remoção de provas, bloqueio do acesso a instalações, e até mesmo atirar contras os inspetores, ou mantê-los prisioneiros.

Será que o governo Bush desencadearia uma guerra devido a algo como o escritório vazio descrito por Kay? Provavelmente não. Mas, se esse não for o caso, o que exatamente seria necessário para provocar um ataque militar?

A resolução da ONU possui dispositivos para que o novo Conselho de Segurança aja no sentido de autorizar a força militar, incluindo a exigência de que o Iraque aceite a resolução em um prazo de sete dias e que, em 30 dias, forneça uma declaração completa de todos os seus programas de armamentos e instalações com finalidades duplas - civis e militares. Mas o governo Bush não especificou o que desencadearia uma ação militar, em parte para evitar fornecer pistas ao Iraque sobre qual seria o limite até onde o governo de Hussein poderia ser evasivo, antes de sofrer uma retaliação.

Autoridades norte-americanas dizem saber que muitas nações acreditam que Washington está procurando uma desculpa para atacar o Iraque, e que, portanto, o governo Bush não reagiria estrondosamente a pequenas infrações. Tais autoridades querem também dar ao chefe da equipe de inspeção da ONU, Hans Blix, certa liberdade de trabalho no Iraque, já que acreditam que a confiança em Blix e o seu apoio à posição de Washington são fatores cruciais para a credibilidade dos Estados Unidos junto à ONU.

Mas as autoridades dos Estados Unidos advertem que, caso o Iraque cometa uma grande infração, como, por exemplo, expulsar os inspetores de determinado local, isso será considerado como justificativa para a tomada de ação militar, segundo os termos da resolução que se espera ser aprovada.

Se as forças norte-americanas forem invadir o Iraque, a melhor época para tal ação seria durante o inverno, antes que o calor intenso tornasse a luta muito difícil com os incômodos trajes elaborados para proteger as tropas norte-americanas contra agentes químicos ou biológicos. Isso significa que estrategistas dos Estados Unidos poderiam buscar um fato e interpreta-lo como provocação, ao final deste ano ou no início do próximo.

Em Bagdá, a maioria dos iraquianos entrevistados durante uma visita recente disse que vêem a chegada dos inspetores como a sua última esperança para que se evite uma guerra devastadora. Tendo vivendo durante anos de conflito - primeiro contra o Irã, na década de 70; e depois enfrentando uma coalizão liderada pelos Estados Unidos na Guerra do Golfo, em 1991 - os iraquianos se agarram a qualquer fragmento de informação quanto aos inspetores de armas da ONU como um sinal de que estes poderiam evitar um outro desastre. A pequena Bolsa de Valores de Bagdá subiu acentuadamente nos dias em que autoridades iraquianas estavam negociando com a equipe de Blix, em Viena.

Tarefa difícil

Os inspetores terão uma tarefa difícil pela frente quando retornarem a Bagdá. A realização de até mesmo uma inspeção apressada vai, provavelmente, exigir os dois a três meses especificados, segundo o cronograma acelerado que se espera ser aprovado pelo Conselho de Segurança.

"Para nós está bem claro que os antigos inspetores da ONU não encontraram todas as instalações e reservas de armas de destruição em massa de Saddam na sua primeira inspeção", disse recentemente o sub-secretário de Estado, John Bolton. "É possível que, ainda que se conte com uma equipe bastante robusta no Iraque, devido às negativas e evasões de Saddam, não se encontre nada durante muito tempo".

Funcionários da ONU e ex-inspetores dizem que precisariam de pelo menos dois meses, apenas para fazer com que um novo programa de inspeções fosse montado e funcionasse. Esboços de planos prevêem três equipes compostas de 80 a 100 inspetores, se revezando em períodos de quatro meses cada no Iraque.

Cerca de 270 inspetores da ONU estavam recebendo treinamento para atuar no Iraque, ainda que os detalhes finais de uma nova resolução sobre inspeções estivessem sendo negociados. Funcionários da ONU esperam dispersar as equipes por todo o país, de forma a reduzir o tempo necessário para a montagem de operações de inspeção, e para tornar mais difícil para os iraquianos saber para onde os inspetores estarão indo. Antes disso, porém, todos os inspetores ficarão localizados em Bagdá.

Mas, mesmo com essas e outras modificações, ninguém minimiza a magnitude do desafio.

"Os iraquianos possuem um grande programa de engano e negação, e tal programa foi aperfeiçoado", afirma Trevor Findlay, diretor-executivo da organização de controle de armamentos, localizada em Londres, Verification Research, Training and Information Center.

Ainda que os inspetores tenham aprendido a partir da experiência e contem agora com um melhor treinamento e tecnologias mais modernas, os iraquianos ainda estão em vantagem, segundo os especialistas. Kay liderou três equipes de inspetores nos meses que se seguiram à Guerra do Golfo, realizando cerca de 240 inspeções. "Eu diria que somente uma meia dúzia delas realmente pegaram os iraquianos de surpresa, e essas poucas inspeções exigiram que adotássemos estratagemas elaborados", conta Kay.

Táticas de obstrução

Ex-inspetores afirmam que o Iraque neutraliza as inspeções das seguintes formas:

- Reduzindo a velocidade de locomoção dos inspetores, ao criarem engarrafamentos de trânsito. Outras táticas bastante comuns são os problemas mecânicos com os ônibus que transportam as equipes, assim como uma verdadeira epidemia de pneus furados.

- A criação de zonas de exclusão militar que forcem os inspetores a fazer grandes desvios para chegar a um determinado local. Isso dá aos iraquianos tempo para destruírem ou removerem qualquer fator incriminante.

- Remoção de baterias e células de energia solar das câmeras elaboradas para monitorar determinados locais.

- Perturbar e ameaçar os inspetores. Em setembro de 1991, vários inspetores ficaram como reféns durante três dias, em um estacionamento de Bagdá, por se recusarem a entregar documentos incriminantes dos quais haviam se apoderado. Os inspetores já foram alvos de disparos de armas de fogo, tiveram que passar em meio a multidões violentas, foram seguidos e chamados no meio da noite. Os seus quartos de hotel são grampeados com equipamentos de escuta, a sua bagagem é aberta e o conteúdo remexido, e foram feitas ameaças contra as suas famílias.

- A exigência de que os inspetores sejam acompanhados por um destacamento militar, segundo a argumentação de que certas partes do Iraque "não são seguras". Isso diminui a velocidade de movimentação dos comboios, intimida os iraquianos que os inspetores desejam entrevistar e evita os rápidos vôos de helicóptero para observar os fundos dos edifícios que estão sendo inspecionados.

- Fazer com que funcionários chave não estejam disponíveis. Por exemplo, os inspetores chegam a um local e descobrem que o comandante da instalação não está presente, o que obriga os inspetores a aguardar. Em outras ocasiões, a pessoa que possui as chaves do edifício inspecionado some e precisa ser encontrada. "Tudo isso ocorre enquanto eles retiram o material pelo portão dos fundos", diz Kay.

Kay adverte que os iraquianos tentarão atrair os inspetores para locais onde não há armas, mas que exigirão muito tempo para serem inspecionados.

"Às vezes, eles oferecem mais do que o necessário para se ter acesso às instalações, e isso é um sinal de que não há nada por lá", afirma. "Eles adoram fazer com que você passe uma semana extra em um local onde não há nada de importante".

Tradução: Danilo Fonseca

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