Veto do parlamento iraquiano foi político, e não um desafio à ONU

Vivienne Walt
USA Today

Os parlamentares do Iraque recomendaram que Bagdá rejeitasse a resolução da ONU que determina a volta dos inspetores de armamentos ao país, mas as autoridades norte-americanas disseram que a ação pode ser interpretada como uma postura política, e não como um desafio às Nações Unidas.

Em inflamados discursos perante a assembléia nacional, os legisladores afirmaram que a resolução adotada unanimemente pelo Conselho de Segurança da ONU na semana passada seria apenas uma desculpa para se atacar o Iraque.

"Essa resolução da ONU busca um pretexto e não uma solução ampla", disse o porta-voz do parlamento, Saadoun Hammadi, um assessor próximo de Saddam. Ele disse que a resolução da ONU "violou a lei internacional e a soberania deste país".

A assembléia tem um papel em grande parte decorativo e especialistas acreditam que a ação da segunda-feira teria sido premeditada, para permitir que o governo iraquiano manifestasse o seu repúdio antes que Saddam finalmente viesse a aceitar a resolução, até o prazo final estabelecido, na sexta-feira.

"Saddam convoca a assembléia quando necessita de apoio público para uma decisão difícil", afirmou em uma entrevista por telefone, da sua casa, em Londres, o líder exilado do Congresso Nacional Iraquiano, um grupo de oposição. "Tudo isso não passa de um show".

O governo Bush advertiu que não se deve levar a sério a ação da assembléia.

"É preciso que se seja um pouco cético em relação à independência do parlamento iraquiano quanto a Saddam Hussein", afirmou na Casa Branca, na segunda-feira, a assessora de Segurança Nacional de Bush, Condoleezza Rice. "Não creio que alguém acredite que tal governo seja algo mais do que uma ditadura absoluta, e tal decisão cabe a Saddam Hussein".

Ela disse que o Iraque não tem o direito de aceitar ou rejeitar a resolução. "Eles são obrigados a aceitar, mas a ONU achou por bem pedir um recibo", disse Rice.

Saddam tem até a sexta-feira para aceitar a resolução, caso contrário, corre o risco de sofrer um ataque.

Saddam convocou a sessão de emergência na assembléia para que esta fizesse uma recomendação. Discursos na assembléia não possuem muito peso no Iraque, e a assembléia não tem poder de tomada independente de decisão, formal ou não.

A ação parlamentar da segunda-feira veio na forma de uma recomendação do chefe do comitê de relações internacionais do parlamento, Salim al-Kuabaisi. O parlamento inteiro votou a respeito da recomendação na terça-feira (12).

A seguir, a recomendação será despachada ao Gabinete, que o envia para o Conselho do Comando Revolucionário. Saddam preside o Conselho, o verdadeiro centro do poder no Iraque.

No entanto, a assembléia consiste em um veículo através do qual Saddam expressa o seu repúdio à resolução da ONU, sem entretanto rejeitá-la, já que isso poderia desencadear uma guerra.

"Os iraquianos simplesmente são incapazes de balançar a cabeça e dizer sim à resolução da ONU", afirma Denis Halliday, ex-assistente do secretário-geral da ONU, que administrou o programa "petróleo por comida" das Nações Unidas no Iraque no final da década de 90.

"O governo de Saddam está emparedado entre a soberania e a sobrevivência", disse Halliday, por telefone, de Nova York. "É um dilema terrível".

Os iraquianos acompanharam atentamente pela televisão o debate ao vivo da segunda-feira, que parecia reforçar a sensação geral no país de que os Estados Unidos atacarão de qualquer forma, quer o Iraque aceite a resolução ou não.

"A população espera por uma guerra iminente", afirmou Riad El-Taher, um imigrante iraquiano que mora em Londres, e que dirige a Friendship Across Frontiers, uma organização anti-sanções, após ter falado com várias autoridades em Bagdá na segunda-feira. "Eles acatarão a resolução. Caso contrário, estarão embarcando em uma rota suicida. Mas essa é uma expressão da objeção do povo. Eles acharam que a resolução fere a sua soberania", disse, por telefone, El-Taher.

O presidente Bush voltou a prometer que derrubará Saddam com o uso da força, caso o líder iraquiano não acate as determinações da ONU. "O ditador do Iraque vai se desarmar completamente, ou os Estados Unidos liderarão uma coalizão para desarmá-lo", disse ele em uma cerimônia do Dia dos Ex-Combatentes, no Cemitério Nacional de Arlington.

"Não permitiremos que um ditador que usou armas de destruição em massa ameace os Estados Unidos com armas químicas, biológicas ou nucleares", afirmou Bush. "Esta grande nação não viverá a mercê de qualquer esquema estrangeiro de poder".

Encerrando uma reunião de dois dias no Cairo, na segunda-feira, a Liga Árabe encorajou o Iraque a acatar a resolução da ONU.

"Nas nossas deliberações, o consenso foi no sentido de lidar com a resolução do Conselho de Segurança, aceitando as suas diretivas, e ficou a cargo do governo do Iraque decidir acatá-las ou não", afirmou aos jornalistas, no Cairo, o secretário-geral da Liga, Amr Moussa.

Tradução: Danilo Fonseca

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