Aparente sobrevivência de Bin Laden é um golpe para Bush

Judy Keen e Andrea Stone
USA Today
Em Washington (EUA)

A evidência de que Osama bin Laden pode estar vivo é um lembrete de que o presidente Bush não atingiu todos os seus objetivos na primeira fase da guerra contra o terrorismo, em um momento em que ele se prepara para uma possível segunda fase -- uma guerra contra o Iraque.

Oficiais de inteligência dos Estados Unidos dizem que a voz em uma fita de áudio que contém novas ameaças de terrorismo, e cujo conteúdo foi transmitido pela rede de televisão árabe Al-Jazira, é de Bin Laden. Se isso for mesmo verdade, o fato significa que o homem que Bush jurou pegar "vivo ou morto" ainda está à solta.

Bush disse na quarta-feira que a fita significa que a nação "precisa levar essa mensagem bastante a sério". Ele repetiu a sua tradicional promessa de "perseguir essas pessoas, uma de cada vez. Não importa quanto tempo leve, nós os encontraremos e os levaremos perante a justiça".

Desde que Bin Laden evitou a captura nas primeiras semanas do ataque norte-americano aos campos da Al Qaeda, no Afeganistão, no ano passado, autoridades da Casa Branca têm dito freqüentemente que pegar o saudita não se trata de um parâmetro para medir sucesso ou fracasso. "Esta guerra contra o terrorismo diz respeito a mais do que qualquer indivíduo único", afirmou novamente, na quarta-feira, o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan.

Mas as notícias sobre a aparente sobrevivência de Bin Laden voltaram a trazer a tona questões quanto ao serviço não terminado e à opção do governo em se concentrar no problema do Iraque enquanto a Al Qaeda continua sendo uma ameaça:

"Essa idéia fixa no Iraque não consiste em uma política externa adequada para os Estados Unidos", criticou a deputada Jane Harman, democrata da Califórnia, que faz parte da Comissão de Inteligência do Congresso.

"O nosso primeiro objetivo deve ser o de ir atrás de Bin Laden", afirmou o deputado John Spratt, democrata da Carolina do Sul.

"Temos que nos manter neste rumo e encontrá-lo", disse a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia.

Mas o senador Richard Shelby, republicano do Alabama, disse que a fita deve fazer soar os alarmes quanto à possibilidade de um novo ataque terrorista e mostrar que é preciso reforçar a guerra contra o terror. "A fita demonstra que Bin Laden está vivo, confiante e enviando uma mensagem para nós e nossos aliados", afirmou. "Não podemos focalizar as nossas atenções em um só indivíduo ou líder, em detrimento da totalidade da guerra".

Logo após os ataques de 11 de setembro, Bush falou várias vezes sobre Bin Laden. O presidente chamou o saudita de "o maligno". Mas ele deixou de citar publicamente o nome de Bin Laden no início deste ano. No seu discurso do Estado da União, em 29 de janeiro, Bush falou sobre a guerra, mas não fez menção a Bin Laden. Bush e os seus assessores chegaram à conclusão de que o fato de fazer de Bin Laden a personificação do inimigo faria com que a população se recordasse do fracasso em capturá-lo.

Pesquisas de opinião sugerem que, para os norte-americanos, o destino de Bin Laden é uma questão importante. Em uma pesquisa USA Today/CNN/Gallup, feita entre os dias cinco e oito de julho, 50% dos entrevistados disseram que não considerariam a guerra contra o terrorismo como sendo um sucesso até que Bin Laden fosse capturado; 38% afirmaram que a guerra poderia ser vencida sem a captura do saudita. Em uma pesquisa realizada nos dias três e quatro de setembro, 59% disseram considerar provável que Bin Laden fosse capturado ou morto.

Embora algumas autoridades do governo tenham dito acreditar que Bin Laden estivesse morto, Bush sempre afirmou que não tinha certeza quanto a isso. Ele muitas vezes pediu paciência ao povo quando repetiu as suas promessas de neutralizar a Al Qaeda.

"Estamos pedindo a todas essas nações que amam a liberdade que se juntem a nós em uma caçada internacional", disse ele em um discurso na terça-feira. "Não há caverna suficientemente profunda para essas pessoas se esconderem, até onde estou informado. Não existe no mundo sombra escura o bastante para que eles se ocultem sob ela. Estamos atrás deles, mas vai demorar um pouco para pegá-los. Pode demorar um pouco".

Samuel Berger, assessor de segurança nacional do governo Bill Clinton, disse que, se Bin Laden estiver vivo e dirigindo a sua rede, isso poderia significar que o saudita seria capaz de ordenar novos ataques, caso os Estados Unidos fizessem uma guerra contra o Iraque. Ele disse ainda que o capítulo final dos ataques de 11 de setembro não pode ser escrito antes que Bin Laden seja preso ou morto.

"Temos que apurar qual é o paradeiro de Bin Laden", disse Berger. "É algo que devemos às famílias das vítimas. Não poderemos afirmar que temos controle sobre a guerra contra o terrorismo até que o destino de Bin Laden seja determinado".

Tradução: Danilo Fonseca

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