O novo Gore é o mesmo velho Gore?

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington (EUA)

Qual é a peculiaridade do jornalismo político que assimila com tanta facilidade a teoria do Novo Candidato?

A referência é a Al Gore, que tem concedido entrevistas cuidadosamente planejadas a jornalistas de televisão, jornal e rádio, supostamente para vender um novo livro, mas também para avaliar se pode aquecer o seu nome para a eleição presidencial de 2004.

Gore embarcou em um projeto de uma série de entrevistas coreografadas para acompanharem o lançamento nacional do seu livro. Ele está sendo tão rigoroso com sua agenda que reclamou junto ao "The Washington Post" pelo fato de o jornal ter feito algumas citações a seu respeito, um dia antes da data em que achava que seria publicado um encarte especial sobre ele. Foi um exemplo clássico de uma armação política da multimídia moderna, elaborada para desenhar o retrato do Homem Integral: desde o bizarro (uma passagem por David Letterman), ao pesado (uma entrevista séria na National Public Radio), até o espetáculo (Al e Tipper Gore trocando piadas com Barbara Walters).

Infelizmente, para Gore, todo o projeto mostrou o velho Gore: movendo-se segundo um roteiro pré-determinado, cuidadosamente analítico, com posições e imagens recentemente adotadas sobre determinadas questões. Mas era preciso ler nas entrelinhas de grande parte do trabalho jornalístico para entender o que se passava.

Quando Al Gore falou sobre "deixar as aparas cair" caso concorra novamente -- será que estava fazendo uma observação espontânea ou era uma frase escolhida com antecedência?

A jornalista Susan Page, do "USA Today", foi uma das poucas pessoas que não deixou as coisas descansarem nas entrelinhas: "Após quase dois anos de hibernação política, Al Gore está de volta. As notícias inquietantes: membros do Partido Republicano parecem mais ansiosos para ver Gore disputar uma nova eleição do que os democratas".

Mas várias outras entrevistas giraram em torno de um velho tema: poderia o novo Gore, que entrou no cenário político nacional como um novo democrata de centro, no início dos anos 90, ressuscitar em 2004 como um velho liberal democrata?

Um homem que foi vice-presidente quando Bill Clinton declarou que acabara a era dos "grandes governos" poderia disputar a presidência defendendo uma maciça investida do governo para conquistar o controle sobre o sistema de saúde?

Poderia o indivíduo que apoiou a Guerra do Golfo em 1991 e que destoou dos outros democratas devido a essa posição concorrer como um pacifista com relação à questão do Iraque em 2004?

Ao "deixar as aparas cair", estaria esse espírito carregado de princípios de Gore emergindo, após ter sido amordaçado por estrategistas políticos em 2000, ou se trataria simplesmente do Velho Gore rearranjando a sua filosofia, da mesma forma que os críticos dizem que ele rearranjou o seu guarda-roupas e o seu estilo de debate em 2000?

Esse roteiro do Novo Candidato é familiar na política norte-americana.

Um "novo Nixon" emergiu e venceu em 1968, ou pelo menos essa foi a versão oficial dos fatos. Não importa que a atmosfera marcada pelo Vietnã fosse bem diferente daquela quando ele perdeu por pouco para John Kennedy, em 1960, ou que os democratas estivessem profundamente divididos quanto à guerra, ou que a velha paranóia de Nixon terminasse por destruí-lo politicamente.

Aquele era, com certeza, o velho Nixon maquinando planos para pegar os seus inimigos e enlameando-se em auto-compaixão quando explodiu o escândalo de Watergate.

O "novo" Bob Dole deveria ser a resposta a Clinton em 1996. O Dole da safra 96 não era bem o cão de ataque das campanhas anteriores, mas as suas idéias e a sua idade o acorrentaram fortemente ao velho Dole e ele perdeu estrondosamente.

Tantas Hillarys Clinton evoluíram que ela terminou por fechar o ciclo.

Todos os políticos evoluem. Os melhores o fazem sem darem a entender que o fenômeno faz parte de um plano de mestre para ludibriar as pessoas de forma que estas pensem que seus representantes são algo diferente do real. Ou então que estão engajados em uma busca constante de uma marca política que venda. A própria audácia de Clinton - o fato de ele ser o melhor líder para uma transição de geração precisamente devido à sua flexibilidade política -- fez com que conquistasse um número suficiente de apoiadores leais para que fosse eleito duas vezes.

Dole e George McGovern, que no passado foram oponentes ferrenhos quanto à Guerra do Vietnã, se aproximaram com a idade devido a questões sobre as quais concordam, como a luta contra a fome.

Com quem poderia o Al Gore que emergiu neste mês formar uma aliança neste momento?

Com o Congresso, que está nas mãos dos republicanos, e que adoraria que Gore disputasse a eleição?

Bill Clinton, de quem Gore se distanciou em 2000?

Os democratas no Congresso, que Gore afirmou serem muito confusos com relação a várias questões?

Ou mesmo o Al Gore que subiu ao palco político nacional em 1992 como um sulista moderado e pragmático, mas que atualmente parece estar reeditando o roteiro de campanha do liberal nortista Walter Mondale em 1984?

Fiquem atentos. Esse foi apenas o ato de abertura da peça.

Tradução: Danilo Fonseca

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