Estados Unidos ajudam a criar um exército no Afeganistão

Elliot Blair Smith
USA Today
Em Cabul (Afeganistão)

Observados por corpulentos soldados norte-americanos, cuja respiração quente lança nuvens de vapor no ar gélido, todos os dias recrutas do exército afegão envolvem os ombros estreitos com cobertores feitos à mão e caminham, usando sandálias de sola fina, pelo pátio do ex-colégio militar - atualmente semeado de destroços -, que fica na periferia da cidade.

As tropas do Centro de Treinamento Militar de Cabul estão aprendendo o básico: como usar um uniforme, disparar um fuzil e marchar em formação. Eles recebem US$ 30 por mês (cerca de R$ 108) - e lhes foi prometido que passarão a ganhar US$ 50 (cerca de R$ 195) após a conclusão do curso - e contam com três refeições por dia.

"O treinamento foi fantástico", diz Dadullah, um coronel do recém-criado 1º Batalhão. "A formação militar que tivemos no passado foi inútil".

Mas falta muito para que, a partir do atual estágio, seja criado um exército nacional, um fator que tanto as autoridades afegãs quanto as norte-americanas acreditam ser imprescindível para a estabilidade do país.

"Temos que realizar essa tarefa da maneira certa, como uma coalizão de forças. Caso contrário nada daquilo que estamos fazendo no Afeganistão terá importância", afirma o sargento Don Dees, um porta-voz do exército dos Estados Unidos no centro de treinamento de Cabul.

O projeto, que vem sendo realizado há seis meses, tem esbarrado em vários problemas. O exército é dominado por tajiques e uzbeques, minorias étnicas que compõe a maior parte da Aliança do Norte, um aliado-chave dos Estados Unidos na ofensiva no Afeganistão. Os pashtuns, o maior grupo étnico do país, está subrepresentado. O recrutamento em nível nacional raramente funcionou no Afeganistão e, inicialmente, o exército teve que confiar nos comandantes regionais - que a nova organização tem a intenção de substituir - para obter soldados.

A meta é ambiciosa. Em dois anos, o novo Exército Nacional do Afeganistão, com 70 mil homens, deverá substituir os 200 mil combatentes que formam as milícias espalhadas pelo país, e colocar um ponto final em um quarto de século de conflitos. Até o momento, o novo exército só conseguiu formar quatro batalhões, compostos de cerca de 1.400 soldados.

Esta não é a primeira vez que o país tenta criar um exército nacional para substituir os comandantes tribais e os exércitos particulares que dominaram a história do Afeganistão. Houve quatro tentativas no passado. Todas elas terminaram em fracasso. Historicamente, as tribos se unem para repelir um invasor estrangeiro, mas eles voltam rapidamente a combater entre si após essa missão ter sido cumprida.

Autoridades norte-americanas e afegãs afirmam que desta vez será diferente. Milhares de soldados estrangeiros estão garantindo a segurança do governo do presidente Hamid Karzai. Bilhões de dólares em auxílio estrangeiro foram prometidos para a reconstrução do país. A esperança é que isso crie uma base estável sobre a qual possa ser construída uma nova força militar.

Sem um exército nacional leal ao governo, seria difícil para Karzai se manter no poder e impedir o ressurgimento da organização terrorista Al Qaeda, que prosperou durante o regime do Taleban.

Em julho deste ano, o vice-presidente de Karzai, Haji Abdul Qadir, um pashtun da parte oriental do Afeganistão, foi assassinado em frente ao seu escritório na capital. E, na semana passada, as autoridades frustraram uma tentativa de assassinato contra o ministro da Defesa, Muhammad Qassem Fahim. O suspeito de tramar a morte do ministro disse que o seu alvo original seria Karzai.

"Se o apoio internacional fosse retirado, o governo de Karzai não duraria sequer um dia", afirma Ali Jalali, historiador especializado no exército afegão.

Mas a mais recente reencarnação do exército nacional não é importante apenas para o destino pessoal de Karzai.

Lakhdar Bhahimi, representante oficial das Nações Unidas no Afeganistão, disse em outubro no Conselho de Segurança: "Não haverá nenhuma solução de longo prazo para os problemas de segurança no Afeganistão, a menos que o país conte com uma polícia e um exército nacionais bem treinados, bem equipados e que recebam um salário regular".

Nos países do Terceiro Mundo, as forças armadas são muitas vezes a instituição mais progressista da nação, promovendo a educação, a mobilidade social, a disciplina e a ordem, o que ajuda os jovens a superar as rivalidades étnicas que dividem a geração dos seus pais e avós. Com freqüência, as instituições militares se constituem em um bloco de construção desses países.

"No final das contas, eles não são membros de tribo alguma, e sim soldados do exército nacional do Afeganistão. Os oficiais são etnicamente misturados, assim como os soldados. Eles se dão bem juntos", afirma um oficial das Forças Especiais dos Estados Unidos, um dos cerca de 400 instrutores militares que atuam no Centro de Treinamento Militar de Cabul. Segundo diretrizes militares de sigilo, ele pode ser identificado apenas como "Capitão Robert".

Mas, até o momento, o exército não é tão etnicamente heterogêneo quanto esses oficiais esperavam.

Mais de 40% dos primeiros 1.400 soldados do exército nacional afegão são tadjiques, uma minoria étnica do norte que compõe apenas cerca de 25% da população total do país, segundo dados do exército norte-americano.

O maior grupo étnico do Afeganistão, os pashtuns, que representam cerca de 44% da população, compõe apenas pouco mais de um terço do novo exército. E certas evidências indicam que os pashtuns estariam deixando o novo exército mais rapidamente do que os recrutas do norte, que em sua maioria são tadjiques e uzbeques.

Teoricamente, o exército nacional deveria se fundamentar em voluntários, mas os oficiais admitem que os militares têm recorrido aos comandantes tribais para fornecer alguns dos seus "voluntários".

E poucos comandantes tribais querem abrir mão dos seus melhores soldados.

Um ex-comandante da Aliança do Norte, o general Atiqullah Bariali, que atualmente é a segunda autoridade mais importante no Ministério da Defesa, admite que os comandantes das províncias inicialmente enviaram para a capital apenas os seus recrutas menos capazes e pior equipados. "No início, os comandantes regionais não entendeu muito bem a filosofia de um exército nacional. Eles não nos enviaram os seus melhores soldados e armas", reclama Bariali.

Um grupo de recrutas enviado pelo comandante tribal de Herat, Ismail Khan, foi considerado tão inapto que o comandante da base, general Ghulam Sakhi Asifi, diz que devolveu os homens e exigiu o envio de 12 novos soldados em seu lugar.

Autoridades governamentais recomendam que se tenha paciência. Instrutores norte-americanos e franceses estão atualmente formando forças multi-étnicas compostas de grupo de 300 a 500 novos soldados afegãos a cada 10 semanas, submetendo-os desde ao treinamento militar básico até a graduação no ex-colégio militar.

"O exército nacional vai defender o governo e derrotar qualquer exército regional", assegura Asifi.

Enquanto o novo exército nacional está sendo treinado, um do rivais potenciais de Karzai, o ministro da Defesa Fahim, garante a segurança na capital por meio do seu exército particular. E a segurança fora da capital fica por conta de forças milicianas irregulares sob o comando de líderes tribais rivais.

Devido ao fato de Karzai comandar apenas teoricamente essas forças, o governo quer desarmá-las e desmobilizar as milícias em um prazo de um ano. A proteção pessoal de Karzai não é garantida pelo exército ou pela polícia, mas pelo Serviço de Segurança do Departamento de Estado.

Novos soldados do exército, recém-treinados, e o próprio porta-voz de Karzai, Sayed Fazel Akbar, dizem acreditar que o próximo passo do presidente será enviar os primeiros batalhões do Exército Nacional Afegão - incluindo os quatro que já estão prontos e dois em formação - para áreas ainda controladas pelos comandantes tribais.

Tradução: Danilo Fonseca

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