Em novembro, Bush teve o mês mais produtivo do seu governo

Judy Keen
USA Today
Em Washington (EUA)

O presidente Bush talvez hesite no momento de virar a folha do seu calendário de mesa para dezembro. Quem sabe ele prefira ficar em novembro, que foi o mês mais produtivo da sua administração? Vamos os fatos:

- Ele superou as dúvidas quanto ao bom senso e à necessidade de confrontar o Iraque. A ONU, a Otan e o Congresso decidiram em votação apoiar a exigência feita por Bush no sentido de que o presidente iraquiano, Saddam Hussein, revele e destrua as suas armas nucleares, químicas e biológicas, se não quiser sofrer "sérias conseqüências".

- O presidente ajudou os candidatos republicanos a vencer as eleições que garantiram ao seu partido o controle sobre o Congresso, um fato que desafia a história parlamentar. Após um presidente norte-americano tomar posse, o seu partido quase sempre perde cadeiras na primeira eleição parlamentar.

- Ele fez articulações junto a parlamentares e conseguiu criar o Departamento de Segurança Interna, além de ter sucesso ao ver aprovadas indenizações a seguradoras no caso de haver ataques terroristas contra o país.

Outros presidentes também tiveram meses prolíficos. Mas os historiadores e analistas políticos dizem que a amplitude do sucesso de Bush é incomum. Eles dizem que as conquistas do presidente são um reflexo do aperfeiçoamento dos seus talentos legislativos e diplomáticos, da mudança de visões quanto ao mundo desde os ataques de 11 de setembro, e da sorte. Mas eles advertem que os triunfos de novembro pouca utilidade terão para protegê-lo dos problemas que o aguardam nos próximos meses.

"Essas realizações podem parecer maiores neste momento do que o serão nas páginas da história", afirma Stephen Hess, acadêmico da Brooking Institutions. "Mas, atualmente, elas parecem ter grande magnitude, e o mais importante é o que nos dizem sobre Bush: ele sabe muito bem como usar o seu poder".

Bush gerenciou a sua habilidade pessoal e mobilizou os principais diplomatas do seu governo, liderados pelo secretário de Estado Colin Powell, no sentido de angariar apoio internacional para as resoluções da ONU e da Otan que ameaçam o Iraque. Ele investiu o seu tempo no levantamento de fundos e fazendo campanha para os candidatos republicanos, o que gerou um número surpreendente de vitórias em 5 de novembro. Bush exigiu que os membros do Congresso que estão em final de mandato finalizem seus trabalhos pendentes antes de saírem da cidade para os feriados de fim de ano.

Especialistas atribuem as vitórias de Bush à sua disposição em estabelecer metas ambiciosas e ao respeito que ele conquistou após o 11 de setembro.

"Não há nada de pequeno com relação à sua presidência", afirma Richard Norton Smith, diretor do Instituto de Políticas da Universidade do Kansas. "Ele demonstrou a sua audácia ao interpretar o seu mandato de forma ambiciosa, imediatamente após tomar posse, ao propor e obter reduções de impostos da ordem de US$ 1,35 trilhão distribuídas por um período de dez anos, apesar do controverso resultado eleitoral da sua campanha.

Smith diz que a habilidade de Bush foi ampliada pela sede por liderança em tempos de medo. Assim como o prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, após o 11 de setembro, e o primeiro-ministro Winston Churchill, durante o ataque a Londres na 2ª Guerra Mundial, Bush cresceu com a conjuntura.

O atual nível de confiança e a estatura adquiridas pelo presidente perante a população podem não ser permanentes, "mas nunca mais veremos Bush como ele era no dia 10 de setembro de 2001. Isso foi algo que mudou para sempre", diz Smith.

Autoridades da Casa Branca chamaram a recente série de vitórias no Congresso de "semana de realizações". Eles forneceram aos jornalistas uma lista sublinhando o "histórico de realizações" de Bush nos últimos dois anos. Mas os assessores do presidente estão evitando se gabar excessivamente. Eles reconhecem que a guerra iminente com o Iraque, a ameaça de terrorismo e as incertezas que cercam a economia poderiam arruinar rapidamente todo o brilho conquistado em novembro.

"Nos sentimos bem com relação a esses fatos no momento, mas todos sabemos que há difíceis desafios pela frente", afirmou uma alta autoridade do governo.

A história sugere que há motivos para eles serem cautelosos. Em julho de 1964, o presidente Johnson obteve vitórias legislativas que incluíram a aprovação de uma inédita lei de direitos civis. Mas, em 2 de agosto, o Vietnã do Norte atacou o destróier norte-americano Maddox, no Golfo de Tonkin. Cinco dias mais tarde, o Congresso aprovou a Resolução do Golfo de Tonkin, conferindo a Johnson amplos poderes para iniciar uma guerra não declarada. A Guerra do Vietnã infernizou Johnson pelo restante do seu mandato.

O presidente Clinton passou também por um período favorável, em julho de 1996, quando o Congresso aprovou importantes elementos da sua agenda política. Mas, em 7 de julho daquele ano, Clinton fez um depoimento, gravado em videoteipe, em um tribunal de Arkansas, a respeito de dois banqueiros acusados de terem utilizado fundos de suas instituições para contribuir politicamente para a sua campanha.

O julgamento foi resultado de uma investigação sobre os negócios imobiliários relativos ao Caso Whitewater, envolvendo Bill e Hillary Clinton, que evoluiu para uma investigação do relacionamento do presidente com a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky. As mentiras de Clinton sobre o caso levaram a um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, em 19 de dezembro de 1998.

Bush orientou os seus assessores a não se fixarem nas realizações de novembro, e sim para se prepararem para o difícil ano que virá pela frente. Eles estão discutindo novas reduções de impostos para estimular a economia, a avaliação dos custos humanos e financeiros de uma guerra com o Iraque, além de estarem preocupados com a possibilidade de novos ataques terroristas. Prever sucessos futuros com base em um mês apenas, diz Hess, "seria um erro terrível".

Tradução: Danilo Fonseca

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