Cientistas buscam gelo perfeito para construir telescópio no Pólo Sul

Dennis Thompson Jr.
USA Today

Pode parecer bobagem estudar a melhor maneira de criar gelo no Pólo Sul, mas pesquisadores da Universidade de Delaware acham que essa pode ser a chave para se desvendarem alguns segredos do Universo.

Em um par de tanques de 3.790 litros, localizados em um depósito de Port of Wilmington (Delaware), cientistas do Instituto de Pesquisas Bartol da Universidade de Delaware estão tentando congelar inteiramente um gelo totalmente claro.

Quando aperfeiçoado, esse processo será utilizado como parte de um projeto de US$ 250 milhões (cerca de R$ 907 milhões) para transformar um quilômetro cúbico de gelo antártico em um gigantesco telescópio de partículas, projetado para capturar traços de partículas subatômicas quando estas passam através da Terra, segundo Leonard Shulman, engenheiro projetista do instituto, que realiza pesquisas em física e leciona na Universidade de Delaware.

O gelo precisa ser perfeitamente claro, a fim de que os sensores implantados no seu interior sejam capazes de detectar traços tênues de luz, produzidos pela passagem das partículas, denominadas neutrinos, diz Shulman.

Isso significa que o gelo não pode conter nenhuma das rachaduras, bolhas ou áreas turvas que se formam quando a água congela. Essas imperfeições podem ser vistas em cubos de gelo produzidos na geladeira.

"Pode-se pensar que produzir gelo no Pólo Sul seja uma tarefa trivial", diz Shulman. "Na verdade, criar gelo dotado de boas qualidades óticas para capturar a luz oriunda de uma partícula em trânsito pode ser tudo, menos trivial".

No momento, os cientistas estão procurando determinar se congelar um tanque de água de cima para baixo ou de baixo para cima resulta em um gelo mais claro, afirma o pesquisador.

Os neutrinos se deslocam à velocidade da luz e praticamente não sofrem os efeitos da gravidade ou da matéria na sua trajetória reta, explica Shulman.

Devido a essas características, os neutrinos proporcionam a melhor oportunidade para a coleta de informações sobre regiões do Universo que são ou invisíveis ou difíceis de serem observadas, afirma David Seckel, professor do Instituto Bartol.

"Se conseguirmos detectá-los, poderemos aprender algo sobre as suas fontes, sem nos preocuparmos com o que existe no espaço intermediário", afirma Seckel. Os cientistas esperam aprender, por intermédio dos neutrinos, sobre os núcleos violentos de galáxias distantes, as origens dos raios gama, o funcionamento dos buracos negros e outros mistérios cósmicos.

O telescópio de gelo, conhecido como IceCube, utilizará 80 feixes de sensores óticos enterrados a 2,18 quilômetros de profundidade no gelo, que forma uma crosta de 3,22 quilômetros sobre o Pólo Sul.

O telescópio utiliza a Terra como escudo para filtrar todas as outras partículas, com exceção dos neutrinos.

Na superfície, cada feixe de sensores será acompanhado de dois tanques de 3.790 litros de gelo claro, afirma Shulman.

Os tanques que os pesquisadores estão ajudando a preparar serão utilizados para ajudar na calibragem dos sensores subterrâneos.

O projeto envolve 11 instituições e universidades estrangeiras e 12 dos Estados Unidos, além da estação de pesquisas do Pólo Sul.

Tradução: Danilo Fonseca

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