Discretamente, EUA se preparam para negociar com a Coréia do Norte

Barbara Slavin
USA Today
Em Washington (EUA)

Apesar de a Coréia do Norte ter descumprido ostensivamente sua promessa de encerrar seu programa de armas nucleares, a administração Bush está discretamente pavimentando o caminho para negociações que poderiam possibilitar que aquele país isolado recebesse petróleo, alimentos e outros auxílios, em troca do fechamento -- sujeito a inspeções -- das instalações onde se poderiam fabricar bombas nucleares.

Publicamente, ambos os países adotaram posições duras desde que a Coréia do Norte admitiu, perante diplomatas dos Estados Unidos, em outubro, que está construindo uma instalação de enriquecimento de urânio, contrariando um acordo de 1994 firmado com os Estados Unidos. Autoridades norte-americanas vinham se recusando a negociar e determinaram que se suspendesse o envio de petróleo, em caráter de auxílio, para o país. E a Coréia do Norte se recusou a manter qualquer conversação até que Washington garantisse que não utilizaria força militar contra ela.

Mas, nos bastidores, o governo Bush está preparando propostas para a complexa tarefa de verificar qualquer nova promessa norte-coreana no sentido de encerrar o seu programa nuclear, segundo fontes do governo norte-americano. Isso é um sinal de que, apesar da retórica bélica, ambos os lados parecem estar caminhando para a mesa de negociações.

"Podemos facilmente implementar um programa de inspeção e de verificação, caso isso seja necessário, se os norte-coreanos realmente estiverem determinados a nos dizer o que estão fazendo e que vão encerrar as suas atividades de produção de armas nucleares", disse em uma recente entrevista o secretário de Estado, Colin Powell.

Outros membros do Departamento de Estado dizem que os procedimentos para verificação já estariam sendo preparados pelo Departamento de Verificação e Acatamento, no escritório de John Bolton, subsecretário de controle de armamentos. Powell disse que funcionários do Departamento de Energia e da Agência Internacional de Energia Atômica já estão monitorando as instalações nucleares norte-coreanas que produziram plutônio.

O plano dos Estados Unidos se baseia na confiança em que a Coréia do Norte cedo ou tarde vai sucumbir à pressão econômica dos seus vizinhos e de uma comunidade internacional unida.

Na segunda-feira, após um encontro de cúpula em Pequim, os líderes dos antigos aliados socialistas da Coréia do Norte, a Rússia e a China, divulgaram um relatório contundente, exigindo que os norte-coreanos encerrem o seu programa de armas nucleares em nome do "destino do mundo e da segurança no nordeste da Ásia". O relatório também solicita aos Estados Unidos que "normalizem as relações" com a Coréia do Norte.

Se houver conversações, estas vão se constituir na admissão por parte de ambos os lados de que não existe outra opção realista. A Coréia do Norte já teria uma ou duas armas nucleares, assim como um exército convencional capaz de infligir danos terríveis tanto à Coréia do Sul e quanto aos 37 mil soldados norte-americanos que estão naquele país.

Segundo uma recente estimativa da CIA, a Coréia do Norte deu início a um programa de enriquecimento de urânio "há cerca de dois anos", capaz de produzir "duas ou mais armas nucleares anualmente" até a metade desta década.

Uma autoridade graduada do governo diz que uma instalação dotada de centrífugas a gás para o enriquecimento de urânio poderia estar pronta já no ano que vem. A instalação está sendo construída com equipamentos adquiridos do Paquistão, da Rússia e de outras fontes, mas as agências norte-americanas de inteligência não sabem onde o complexo -- provavelmente subterrâneo -- está localizado.

Enquanto isso, o acordo de 1994 entre os Estados Unidos e a Coréia do Norte está moribundo. Os Estados Unidos e um consórcio, que inclui a Coréia do Sul, o Japão e a União Européia permitiram a entrega de mais uma remessa de óleo combustível à Coréia do Norte no mês passado, mas cancelaram futuras entregas até que a crise seja resolvida.

Segundo um outro programa, de caráter humanitário, iniciado em 1995, os Estados Unidos ainda estão fornecendo alimentos para a Coréia do Norte. E alguns aspectos do acordo de 1994 continuam a ser implementados. A Coréia do Sul ainda está preparando o local de construção de dois reatores nucleares civis, e os norte-coreanos não manipularam o plutônio da sua instalação nuclear declarada, em Yongbyon.

"Temos bem mais instrumentos econômicos de convencimento", afirma Scott Snyder, representante da Asia Foundation na Coréia do Sul. "Mas pode levar algum tempo até que tais instrumentos surtam efeito".

Tradução: Danilo Fonseca

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