Pearl Jam consolida fase tranqüila em "Riot Act"

Edna Gundersen
USA Today

Intranqüilidade e insurreição são fatores que não tem lugar em "Riot Act", talvez o álbum mais pacífico já produzido pelo Pearl Jam até o momento. De fato, o quinteto de Seattle encarou as sessões de gravação de "Riot" como um santuário para se refugiar das tensões globais e dos problemas que se seguiram ao 11 de setembro.

"Em um momento no qual a atmosfera estava tão carregada politicamente que poderia fazer com que você fosse virado de cabeça para baixo, o ato de ir até uma sala com o conjunto e os aparelhos de gravação se constituía em uma fuga saudável", diz o vocalista Eddie Vedeer. "Parte da confusão se dissipou. A paz de espírito advinda de nos expressarmos é algo de valor inestimável".

E igualmente importante é a química estável forjada pela maturidade e familiaridade. "Riot Act", co-produzido pelo conjunto e por Adam Kasper, se desenrola em meio a um raro momento de calma na tumultuada história da banda. Lutas pelo poder, que marcaram o passado do grupo, se dissolveram. As ansiedades que cercaram "Binaural", de 2000, o primeiro projeto com o baterista Matt Cameron e o produtor Tchad Blake, se dissiparam.

"Poderíamos nos preocupar menos com uma interpretação rigorosa e nos concentrarmos mais em sentir o som e em fazer justiça às melodias", afirma o baixista Jeff Ament. "E isso seria mais fácil, porque sabemos como articular as nossas opiniões de forma calma e amável. Antes a coisa era como uma extração de dente. Agora, a amizade é mais genuína do que nunca, e esse alto nível de respeito transparece na música".

Vedder, há muito tempo considerado a voz dominante do grupo, diz: "Pode ser que estejamos em um período de graça no nosso longo relacionamento. Precisamos criar uma distribuição igualitária de poder. Creio que, devido ao fato de eu ser o membro do conjunto mais exposto, a descrição do meu trabalho superou um nível com o qual eu me sentiria confortável. Mas superamos esse problema, e agora todos somos iguais".

"E não estamos sobrecarregando a nossa música com excesso de pensamento. Costumávamos passar muito tempo filosofando sobre como um solo de guitarra soaria, teoricamente, ao ser acrescentado a uma melodia. Agora adotamos uma abordagem mais simples. Podemos mudar as regras em uma reunião de dois minutos, durante um intervalo de gravação. Estar tanto tempo em um conjunto e ser capaz de gravar uma música enquanto ela ainda está pulsante de vida, isso é realmente uma realização".

Surtos de crescimento em arte e maturidade não foram acompanhados por ondas de lucratividade. Pelos padrões da indústria fonográfica, a queda das vendas do Pearl Jam indica que a sua significância declina. Em 1991 o grupo vendeu quase nove milhões de cópias de "Ten", contra 718 mil unidades de "Binaural", segundo a Nielsen SoundScan. "Riot Act" vendeu 247 mil cópias desde o seu lançamento, em meados de novembro. Embora nunca tenha antecipado um declínio tão acentuado, o conjunto se sentiu aliviado por recuar da linha de frente formada pelas maiores celebridades da música pop.

"Mas não creio que estivéssemos tentando recuar tanto assim", diz Ament.

Ele cita a falta de apetite da banda por promoção e a sua relutância por manipular os fãs como fatores de estímulo para as vendas. Ament diz que uma mudança nos hábitos de audição do público também os prejudicou.

"Não sei se as pessoas ainda ouvem música segundo a estrutura dos álbuns", afirma. "Tentamos da melhor forma possível fazer uma peça de música coerente com 50 minutos, e muita gente está procurando apenas uma ou duas músicas".

"Creio que poderíamos ser como o U2, fazendo shows por dois anos e ganhando todos os prêmios. Mas não acho que valha a pena. Gosto da idéia de sermos um conjunto pequeno e de ter equilíbrio em nossas vidas".

Vedder diz que a fortuna arrecadada pelo grupo no inicio da carreira dissipou quaisquer preocupações quanto aos rendimentos futuros.

"Ganhamos tanto dinheiro naqueles dois primeiros anos que nunca tivemos muito com o que nos preocupar", afirma. "Desde então, temos tentado nos retrair e diminuir o ritmo. Parece que, quanto menos tentamos, melhor nos saímos".

Basta ouvir "Last Kiss". Uma música de um álbum de vinil, que foi um sucesso de J. Frank Wilson & The Cavaliers, em 1964, e que foi regravado pelo Pearl Jam em fevereiro de 1999, motivando um lançamento comercial em junho.

"É a melhor música que já tivemos no rádio, e ela não estava sequer à venda", explica Vedder. "Isso é bem mais estimulante e mágico do que colocar em prática algum plano bem sucedido de marketing".

Após dois shows beneficentes em Seattle, em 8 e 9 de dezembro, o Pearl Jam vai se preparar para uma turnê mundial que começará pela Austrália, em fevereiro, e chegará aos Estados Unidos, em meados de 2003. Como sempre, o conjunto está envolvido com várias questões além da venda de ingressos.

As bilheterias distribuirão materiais incentivando o combate à fome, ao câncer, à violência, ao ódio, à censura e à Aids, além de outros que promovem a participação eleitoral, o ativismo, o conservacionismo, o direito ao aborto, a paz e as artes. O grupo apóia 44 organizações ativistas na sua página no Web site da Sony.

Mas Vedder não sabe ao certo se a música e a política se misturam de forma efetiva.

"A última vez em que a música e a política ajudaram a promover mudanças foi, provavelmente, no decorrer do movimento pela paz, no final dos anos 60. Mesmo naquela época, não foi a música que terminou com a Guerra do Vietnã. Foi a revolta da população, as grandes passeatas e os corpos dos jovens voltando para casa em sacos.

"Ainda assim, nos sentimos melhor sendo politicamente ativos".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos