A história de dois "Leos"

Andy Seiler

NOVA YORK - Essa é a história de dois Leos. Na verdade, é a história de dois "pares" de Leos.

Os primeiros dois Leos são os primeiros filmes em quase três anos do astro de cinema e ídolo adolescente Leonardo DiCaprio, que fez um cruzeiro rumo ao superestrelato internacional no mega-sucesso "Titanic" (EUA, 1997), um filme que rompeu todos os recordes e regras nas bilheterias dos cinemas.

Os dois filmes são o épico sombrio "Gangs of New York" ("Gangues de Nova York"/ Alemanha, 2001), do lendário diretor Martin Scorsese, que estréia nos cinemas internacionais em 20 de dezembro, e "Catch Me If You Can" ("Prenda-me se For Capaz"/EUA, 2002), do igualmente lendário diretor Steven Spielberg, que também terá estréia generalizada apenas cinco dias depois.

Não se conhece nenhum astro de cinema que tenha contado com a estréia de dois filmes de tal magnitude no intervalo de uma semana.

E, depois, há os "outros" dois Leos. Há o Leo oficial, aquele que os companheiros de elenco, os diretores e amigos insistem em dizer que é o Leo real, um ator sério que demonstrou sua competência em filmes difíceis como "This Boy's Life" ("O Despertar de Um Homem"/ EUA, 1993), e "WhatŽs Eating Gilbert Grape" ("Gilbert Grape - O Aprendiz de Sonhador"/ EUA, 1993), que lhe garantiu uma indicação ao Oscar.

Mas há ainda o Leo dos tablóides, que leva uma vida boa, namora as mulheres mais bonitas do mundo (a mais famosa delas é a modelo brasileira Gisele Bundchen) e é chamado de "mulherengo lendário", já que está sempre com garotas de shows de strip-tease, dançarinas e supermodelos.

Finalmente, DiCaprio, de 28 anos, está pronto para falar sobre todos os quatro Leos - assim como sobre um certo navio condenado que fez com que a notoriedade do ator subisse aos céus, enquanto a embarcação afundava rumo ao fundo do oceano.

"'Titanic' transformou completamente a minha vida", diz o morador de Los Angeles, que está usando um bigode e uma barbicha. "Eu de repente passei a ser perseguido por quatro ou cinco paparazzi em locais onde dirigi ou andei por toda a minha vida. Em qualquer lugar que eu fosse, alguém deixaria vazar histórias sobre a minha presença. Pensando bem, eu provavelmente deveria simplesmente ter -" DiCaprio corta a frase abruptamente.

"Eu estava a ponto de dizer que talvez devesse ter ficado mais em casa", afirma. "Mas eu tinha que ser um garoto quando tinha vinte e poucos anos e fazer tudo que quisesse, assim como passar por experiências diferentes. Não me arrependo de nada. Mas com certeza foi uma experiência de aprendizado. Ela fez com que eu me concentrasse mais nas decisões que tomei como ator".

Mas, para muitos fãs do "Titanic", DiCaprio não foi um ator. Ele foi um ídolo, um símbolo sexual para um milhão de garotas adolescentes.

"Ele foi forçado a passar por um estranho ritual de passagem", afirma Daniel Day-Lewis, que atua com DiCaprio em "Gangs of New York". "É como se ele tivesse nascido com o advento do 'Titanic' e de alguma forma fosse obrigado a suportar o peso do sucesso daquele filme. Mas "Titanic" não tem relação com o grande trabalho que ele fez alguns anos antes. Eu nunca o vi atuando mal".

Uma outra companheira de atuação no filme "Gangs of New York", e amiga de muito tempo, Cameron Diaz afirma que achou estranho que Leo tenha concordado em fazer "Titanic", já que ele sempre preferiu trabalhos mais baratos e artisticamente sofisticados. Assim como DiCaprio, Diaz conhece os perigos de um rosto bonito.

"As pessoas precisam colocar rótulos nos atores para mantê-los em patamares confortáveis", afirma Diaz. "Elas se sentem desconfortáveis caso achem que alguém de boa aparência seja também talentoso. Isso não tem nada a ver com o indivíduo que estão julgando. Mas faz com que esse indivíduo tenha que trabalhar um pouco mais arduamente".

O que, sem dúvida, é o que DiCaprio está fazendo. "Na verdade, tive que impedi-lo de trabalhar mais", conta Scorsese, cujo problemático "Gangs of New York" manteve DiCaprio ocupado no local das filmagens, na Itália, por mais tempo até do que "Titanic", que foi uma verdadeira maratona cinematográfica. "Eu dizia constantemente para ele passar para outra cena".

Scorsese diz que uma notícia repetida com freqüência pela mídia italiana, segundo a qual ele teria chamado a atenção do astro em frente a todo o elenco, devido ao suposto hábito de DiCaprio de cair na gandaia até altas horas da noite seria falsa. "Ninguém acredita em mim, mas posso jurar que essa história não é verdadeira".

Apesar de todo o seu empenho, DiCaprio provavelmente não vai surpreender aqueles que o viram em papéis também simpáticos, como em "Titanic" e "The Man in the Iron Mask" ("O Homem da Máscara de Ferro"/ EUA-Inglaterra, 1998). Em "Gangs of New York" ele faz o papel de um órfão arrojado e paupérrimo do século 19, que se vincula ao líder de uma gangue (Day-Lewis), que matou o próprio pai, um imigrante irlandês.

Mas realmente surpreendente é "Catch Me If You Can", no qual DiCaprio faz o papel do ilusionista da década de 60, Frank Abagnale. Ele não só interpreta o sedutor garoto de rua Abagnale, mas todos os outros papéis encarnados pelo personagem real, incluindo o de piloto, cirurgião e advogado.

E DiCaprio o faz de forma convincente.

"Isso se deve em grande parte aos dias que passei com o Frank Abagnale real", explica DiCaprio. "Abagnale entendia todos os mecanismos ocultos capazes de convencer os outros a acreditarem nele".

Saber quem o está iludindo e em quem se pode confiar é essencial para qualquer um que fica subitamente famoso, afirma DiCaprio.

"Têm pessoas que entram em nossas vidas e que são melhores atores do que pensamos, e que podem nos enganar mais do que imaginamos", afirma DiCaprio com um sorriso. "Ao pensar na quantidade de pessoas que apareceu na minha vida (após "Titanic"), acho que me saí muito bem ao escapar de muitos picaretas".

O lado bom, segundo DiCaprio, é que você se aproxima ainda mais das pessoas em quem confiava antes da explosão da fama. "A fama me fez ficar mais íntimo daquelas pessoas que já conhecia". (Um dos seus amigos famosos é Tobey Maguire, o "Homem-Aranha").

"Leo ama muito a mãe e a avó", afirma Diaz. "Ele é um dos caras mais legais que já conheci".

Ok, ok. Nós entendemos. Mas e quanto à selvagem festa de aniversário em um cassino de Las Vegas no mês passado, onde ele teria se abraçado a "showgirls" e fumado maconha ostensivamente?

Será que algo disso é verdade?

"Há um pouco de verdade em tudo", afirma DiCaprio. "Assim que você fica sob os holofotes da mídia, as pessoas realmente exageram o que se passou. Freqüentemente, em situações como essa, os indivíduos têm os seus próprios planos, e querem pintar os fatos segundo uma visão extremista que não corresponde à realidade. Querem promover seus restaurantes, hotéis, clubes".

DiCaprio atribui a sua ausência das telas não a um estilo de vida hedonista, mas a viagens, ao aprendizado sobre o aquecimento global (ele é o narrador de um programa especial sobre o tópico, que será exibido em breve pela rede de televisão PBS), à administração da sua companhia de produção e ao fato de "ser um cara de vinte e tantos anos fazendo tudo o que um cara normal faria".

Mas, com certeza, o fato de ser um símbolo sexual traz as suas vantagens. Afinal, a maior parte das garotas que tinham pôsteres de Leo nas suas paredes não é mais adolescente.

"Não penso nesse tipo de coisa", afirma DiCaprio. "Todo o fenômeno que ocorreu após o "Titanic", que me expôs à toda mídia, foi realmente algo que eu nunca procurei. Essas garotas cresceram; eu cresci. E seria simplesmente chato e repetitivo para mim, como ator, tentar perpetuar tal fato".

Ao invés disso, DiCaprio utiliza a dianteira que conseguiu com "Titanic" para garantir que trabalhe somente com os melhores diretores. Ele viu grandes roteiros serem diminuídos por diretores de segunda categoria, e roteiros de segunda categoria serem elevados por grandes diretores. Portanto, acredita que observar o diretor é a coisa mais inteligente a ser feita. Ainda assim, é melhor que o roteiro também seja bom.

"Não quero fazer a versão reciclada de algo que já vi um milhão de vezes antes", afirma DiCaprio. "Algo que não me atrai é o filme convencional de ação. Muitas vezes me pergunto: com todo o dinheiro e os recursos presentes em Hollywood e todo o talento vinculado a isso, por que não pode haver um escritor capaz realmente de acrescentar alguma inteligência a alguns desses filmes de ação, mundanos e ridículos, que vejo a todo momento?".

DiCaprio tem ainda menos simpatia pelas comédias contemporâneas. "Se eu fizer uma comédia, terá que ser algo baseado na realidade, porque simplesmente não consigo achar mais nada engraçado. As comédias vulgares realmente não me atraem. Preciso ter algum sentimento e atração pelos personagens para chegar a rir. Fiz o papel de um camafeu em uma comédia real, "Celebrity" ("Celebridades"/ EUA, 1998). Gostei do filme, porque acredito nos mundos criados por Woody Alen nos seus trabalhos".

E se tudo sair segundo o plano, o belo conquistador mulherengo Leo um dia será esquecido.

"Daqui a dez anos, quero olhar para trás e dizer que exibi uma variedade de personagens em filmes sobre os quais as pessoas ainda falam", afirma. "O que não quero que aconteça é que as pessoas digam que nunca me arrisquei como ator. Porque creio que o fiz".

Tradução: Danilo Fonseca

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