Católicos hispânicos estão abandonando sua religião

Janet Kornblum

A Igreja Católica parece estar perdendo o seu domínio absoluto sobre os hispânicos nos Estados Unidos. E, embora alguns deles estejam passando para outras igrejas, a tendência que mais cresce entre os hispânicos é a falta de religião, o que reflete a mesma inclinação secular presente na população como um todo.

A América Latina em geral é esmagadoramente católica desde a época colonial, e os hispânicos nos Estados Unidos tradicionalmente se mantém fiéis a essa religião, de acordo com Anthony Stevens-Arroyo, professor do Brooklyn College e co-fundador e diretor do Programa de Análise de Religião entre Latinos.

Mas nos Estados Unidos essa tendência está mudando, segundo um estudo divulgado nesta semana, baseado em dados da Pesquisa 2001 de Identificação de Religiões Americanas (Aris). A pesquisa foi encomendada pelo programa de Stevens-Arroyo. Os executores da Aris, do Centro de Graduação da City University, de Nova York, avaliaram como a identificação religiosa se modificou na comunidade hispânica de 1990 a 2001.

A população hispânica adulta norte-americana quase que dobrou de 1990 a 2000, passando de 14,6 milhões para 23 milhões. E embora a maioria ainda se defina como católica, e o número absoluto de católicos tenha aumentado, o índice percentual caiu. Ele passou de 66% (9,6 milhões) em 1990 para 57% (13 milhões), em 2001. Ao mesmo tempo, a porcentagem dos que disseram não ter religião mais do que dobrou no mesmo período - de 6% (926 mil), para 13% (2,9 milhões). Dos 2,9 milhões que disseram não ter religião, 38% eram mulheres, e 62% homens.

Mas o fato de os hispânicos estarem se afastando da religião formal não significa que estejam repudiando a fé; 53% daqueles que disseram não ter religião também afirmaram que "acreditam fortemente" em Deus. Somente 4% dizem não crer absolutamente em Deus.

"Pode-se dizer que a comunidade hispânica está 'sem igreja', mas ela com certeza é composta de crentes", afirma a co-autora da pesquisa, Ariela Keysar. "Isso só vem confirmar de várias maneiras que os hispânicos seguem a tendência geral presente na população norte-americana".

Os norte-americanos que disseram não ter religião são atualmente 14% da população dos Estados Unidos, contra 8% em 1990, segundo demonstrou o estudo.

Felipe Chavez, que veio do México para os Estados Unidos aos dez anos, foi criado como católico devoto. Mas, quando Chavez, analista governamental que mora em Southgate, Califórnia, entrou na faculdade, as suas crenças passaram a se modificar. Ele ainda vai à igreja para cerimônias tradicionais, como casamentos, batismos e funerais, mas não se considera mais católico.

"Ainda sou uma pessoa espiritual", explica Chavez, de 31 anos. "Acredito que existe, definitivamente, uma força superior. O que fiz foi me distanciar da igreja. Não sigo as regras determinadas por ela".

Mas muitos hispânicos - especialmente aqueles que moram em áreas onde não há comunidades hispânicas tradicionais - responderam "não tenho religião" no questionário porque não têm uma igreja que possam freqüentar, afirma Stevens-Arroyo.

As crescentes comunidades hispânicas estão carentes de igrejas que possam fornecer serviços comunitários e sociais, assim como orientação religiosa. "O nosso povo é muito religioso. O problema é que a Igreja Católica não acompanhou a população", afirma.

Outros dados relativos à mudança nas crenças religiosas no seio da comunidade hispânica:

- O número de pentecostais aumentou um ponto percentual, apesar da crença generalizada de que um grande contingente de hispânicos estaria entrando para essas igrejas. "A alegação comum é de que as pessoas estariam deixando a Igreja Católica e se tornando pentecostais", diz Keysar. Os números relativos a 2001 demonstram que 918 mil hispânicos são pentecostais (4%, contra 3% em 1990), e que 1,1 milhão são batistas (5%, contra 7% em 1990).

- Os hispânicos nascidos nos Estados Unidos apresentam uma probabilidade maior do que aqueles nascidos no exterior de pertencerem a uma igreja. 48% dos hispânicos nascidos nos Estados Unidos fazem parte de uma igreja, comparado a 37% daqueles nascidos no exterior.

- Mais de dois terços dos hispânicos protestantes, 69%, dizem que nasceram no seio da sua religião. Tradicionalmente, quase todos eram convertidos, porque a maioria nasceu em famílias católicas, afirma Stevens-Arroyo. "Há uma nova face dos protestantes hispânicos".

- Entre os hispânicos dos Estados Unidos, 47% vivem em uma casa onde eles ou outra pessoa é filiada a uma igreja. Essa percentagem é menor do que a média norte-americana; mais de metade (54%) dos adultos dos Estados Unidos moram em uma residência onde eles ou outra pessoa pertence a uma igreja, templo, sinagoga ou mesquita.

O estudo Aris se baseou em uma pesquisa feita a partir da discagem de números telefônicos escolhidos de forma aleatória, envolvendo 50.281 adultos, de fevereiro a junho de 2001. O estudo incluiu quase 4.900 entrevistados em 1990 e 3.000 em 2001 que se definiram como hispânicos. A pesquisa tem uma margem de erro de um ponto percentual para mais ou para menos.

Tradução: Danilo Fonseca a Igreja não "conseguiu acompanhar" os fiéis

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