Israel tem vinhos finos em abundância

Ellen Hale

Ramat Raziel, Israel - No alto de uma colina, a apenas alguns quilômetros da cidade de Jerusalém, que está tomada por conflitos, Eli Ben-Zaken finalmente encontrou as suas raízes - e atualmente está produzindo aquele que é considerado o vinho mais fino de Israel.

Em uma granja adaptada, em meio a uma zona de guerra, Ben-Zaken aproveitou um espaço no quintal e construiu uma butique de vinhos que está obtendo reconhecimento internacional. O fato de ele estar produzindo uma bebida tão sofisticada em meio aos problemas advindos da intifada palestina, que irrompeu há dois anos, e considerando ainda a sua própria história de indivíduo errante, se constitui em um grande feito.

"Considero isto como sendo um sinal de uma civilização avançada", afirma Ben-Zaken, de 57 anos, cuja família foi expulsa do Egito - seu país de origem - em 1958, quando ele tinha 14 anos, juntamente com milhares de outros judeus.

Ben-Zaken luta simultaneamente em várias frentes. Primeiro ele precisa convencer consumidores e produtores de que um grande vinho pode ser produzido durante aquele que talvez seja o período mais problemático dentre os de conflitos modernos no Oriente Médio. Mas ele precisa também provar que o produto pode ser feito em um país onde a palavra "vinho" ainda é sinônimo do nome Mogen-David, uma bebida adocicada e barata consumida pelas massas.

Israel possui atualmente cerca de 20 vinícolas - a maioria delas não sendo kosher -, o resultado de uma sofisticação de paladar que teve início da década de 80 e que ajudou a diminuir o domínio total dos vinhos doces que há muito dominavam as vendas (e que são mais apropriados para cerimônias religiosas). O autor de textos sobre vinho e especialista Hugh Johnson diz que a mudança foi "uma revolução vinícola em miniatura".

À medida que um número crescente de agricultores cultiva videiras para a indústria do vinho, surgem até mesmo planos para a criação de uma "rota do vinho" israelense, similar àquelas encontradas nas grandes regiões produtoras de vinho do mundo.

Alguns dos novos vinhos, especialmente aqueles produzidos nas Colinas de Golan, têm sido bem recebidos pelos especialistas. Mas a vinícola Domaine du Castel, de Ben-Zaken, seria, segundo os entendidos, a melhor de todas.

Após deixar o Egito, a família Ben-Zaken se mudou para a Itália. Em 1970, ele foi para Israel, onde comprou um pedaço de terra nas Colinas da Judéia e passou a criar galinhas. Ele começou a fabricar vinho "porque queria poder beber um bom vinho israelense e era incapaz de encontrar uma marca decente". Em 1988, ele plantou videiras em algumas das terras utilizadas para essa cultura durante o período bíblico e transformou a sua granja em uma vinícola.

Ben-Zaken faz apenas três vinhos: um chardonnay fermentado em barris, chamado de "C"; um vinho de preço moderado chamado Petit Castel; e o Castel Grand Vin, um tinto no estilo Bordeaux, que é envelhecido durante dois anos em pipas de carvalho. Nos restaurantes de Jerusalém, o Grand Vin é vendido por US$ 90 a garrafa (R$ 335).

No primeiro ano ele produziu dois barris e, de brincadeira, enviou uma amostra da safra do Castel de 1992 para Serena Sutcliffe, diretora do departamento de vinhos da Sotheby's. Ela adorou e encomendou mais garrafas. Logo o hobby de Ben-Zaken se transformou em uma paixão e em um trabalho de tempo integral.

Atualmente, os vinhos Domaine du Castel são tidos por muitos não apenas como os melhores produzidos em Israel, mas também como estando no mesmo patamar de vários vinhos finos da França e da Califórnia. No ano passado, uma edição da revista "Decanter", a principal publicação sobre vinhos do Reino Unido, considerou o chardonnay e o Castel Grand Vin produzidos por Ben-Zaken como os vinhos do mês. O guia de vinhos "2001 Which Wine Guide" afirma que aqueles produzidos pela Domaine du Castel "são, considerando o seu preço, os melhores de Israel". Johnson afirma que o Grand Vin é "elegante" e o chardonnay "profundo e bem feito". O chef nova-iorquino Daniel Boulud está "bastante entusiasmado" quanto aos vinhos e pensa em coloca-los na lista do Daniel, o seu famoso restaurante em Manhattan, diz o especialista Jean Luc Le Du.

Ben-Zaken faz os seus vinhos artesanais segundo aquilo que define como estilo do Velho Mundo, de forma que o produto lembre mais os vinhos franceses do que os norte-americanos. Ben-Zaken insiste em plantar as videiras próximas umas às outras, conforme se faz nas vinícolas européias, a fim de conseguir alta densidade e produção discreta, o que, segundo ele, resulta em um sabor concentrado, melhor maturação e redução da acidez.

Enquanto isso, a antiga granja foi novamente adaptada, desta vez transformando-se em uma adega cor de terracota, que armazena as 10 mil garrafas que ele produz anualmente (Há uma década ele produzia apenas 50 garrafas por ano).

A maioria dos comerciantes locais da bebida acredita que a produção de vinho jamais será um grande negócio em Israel. Ao todo, as videiras do país ocupam uma área menor do que a de Bordeaux. A vinícola norte-americana Gallo já produz, sozinha, maior quantidade de vinho do que todas as vinícolas israelenses. Mesmo assim, Ben-Zaken acredita que, com o solo e o sol de que dispõe, o seu país poderia produzir vinhos artesanais de alta qualidade, capazes de rivalizar com os melhores do mundo.

Porém, saber se os problemas políticos enfrentados da região tornarão tal sonho possível é uma outra questão.

"Em um país tão pequeno, com problemas tão grandes, até mesmo as conversas sobre produção de vinho acabam descambando para a política, a "intifada", a inutilidade da violência", afirma Ben-Zaken. "Discutimos sobre a guerra e falamos em deixar o país. Ainda temos os nossos passaportes italianos. Podemos ir embora quando quisermos".

Mas ele plantou recentemente 14 hectares de terra com novas videiras, que não produzirão uvas aproveitáveis antes de 2008. Da mesma forma que os antigos romanos cultivavam videiras nos locais que conquistavam, a fim de demonstrar que a sua presença seria permanente, assim também Ben-Zaken encara a sua atividade vinícola, dizendo que é "o tipo de coisa que é passada de uma geração a outra".

"Dentro das limitações dos meus poucos recursos, esta é a minha maneira de dizer que sou otimista quanto ao futuro", afirma Ben-Zaken.

Tradução: Danilo Fonseca

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