Artigo: EUA devem se defender de terroristas, e não de mísseis

DeWayne Wickham

WASHINGTON - A pressa do governo Bush na construção de um escudo de defesa antimísseis é uma farsa política perigosa.

É uma farsa porque o presidente está usando a desculpa da guerra contra o
terrorismo, e não um perigo real e imediato, para cumprir sua promessa de
campanha de construir um escudo de defesa antimísseis. É perigosa porque a construção de tal sistema custará bilhões de dólares, dinheiro que poderia ser melhor gasto protegendo as fronteiras do país, portos e aeroportos da entrada de terroristas carregando armas nucleares do tamanho de uma pasta executiva ou latas de armas biológicas.

O escudo antimísseis que Bush deseja construir é uma cria do programa "Guerra nas Estrelas" planejado pelo presidente Reagan nos anos 80. A proposta de Reagan era uma idéia ruim. O plano de Bush é ainda pior. Na teoria, o sistema de Reagan cobriria todo o país com um escudo de defesa antimísseis. Mas, na prática, não existia nem a tecnologia nem o dinheiro para transformar seu sonho em realidade.

O sistema que Bush está correndo para construir é bem menos ambicioso. Ele consistiria de 20 mísseis baseados em terra -16 no Alasca e quatro na
Califórnia- que provaram ser pouco confiáveis para abater mísseis inimigos.

E, mais importante, mesmo que funcionasse impecavelmente, o escudo
antimísseis de Bush seria pequeno demais para deter um ataque da China ou da Rússia, países que atualmente possuem capacidade para lançar uma chuva de mísseis com ogivas nucleares por todo país.

Aqueles que apóiam o escudo antimísseis de Bush dizem que seria uma proteção contra um ataque com míssil nuclear por parte da Coréia do Norte, um país que supostamente possui apenas um punhado de armas nucleares mas nenhum míssil capaz de atingir alvos nos Estados Unidos.

É verdade que a Coréia do Norte é um país inamistoso que está trabalhando
para construir armas nucleares e um sistema de mísseis de transporte que
algum dia poderão ameaçar os EUA. Mas a ameaça mais imediata contra nós vem da Al Qaeda e de outras organizações terroristas que não possuem um território definido que estaria vulnerável a um contra-ataque nuclear.

Apesar de ser improvável que a Coréia do Norte, um dos países mais pobres do mundo, venha algum dia a ter um número suficiente de mísseis
intercontinentais com ogivas nucleares que possam atingir os EUA, um ataque retaliatório americano poderia transformar aquela pequena área da Península Coreana em um depósito de lixo nuclear sem vida. Os líderes da Coréia do Norte podem ser loucos, mas não são suicidas.

Como a Al Qaeda demonstrou, um pequeno grupo de fanáticos suicidas podem
provocar destruição e morte em massa dentro de nossas fronteiras caso
ultrapassem as sentinelas deste país. Esta é uma ameaça muito mais séria do que o nascente programa de armas nucleares da Coréia do Norte.

Não tendo um país próprio que possa ser aniquilado por uma retaliação
americana, os líderes terroristas são os candidatos mais prováveis a usar
armas nucleares e biológicas contra este país. E se o fizerem, estas armas de destruição em massa não serão lançadas contra nós na ponta de um míssil balístico; elas atravessarão nossas fronteiras transportadas por terroristas suicidas ou serão entregues a eles por meio de navios de carga ou aviões.

Navios trazem todo ano 6 milhões de contêineres aos portos americanos. A
grande maioria destes contêineres não é inspecionada pelos insuficientes
agentes alfandegários e pelos membros da Guarda Costeira. Apesar do
Departamento de Transporte ter reforçado a segurança nos aeroportos do país, grande parte deste esforço visa impedir que terroristas seqüestrem aviões ou os explodam em vôo. Mas foi feito relativamente pouco para impedir que os terroristas façam o contrabando para este país de uma bomba nuclear "suja" ou de uma arma biológica a bordo de um avião.

Mas o ponto de entrada mais vulnerável deste país continua sendo nossas
fronteiras por terra, com milhares de quilômetros desprotegidos.

Ao invés de gastar bilhões de dólares em um escudo de defesa antimísseis
para atender a uma promessa política -mas que não atende à nenhuma
necessidade urgente de defesa- Bush deveria canalizar tal dinheiro no
esforço para proteger este país da infiltração de terroristas -como os que executaram os ataques de 11 de setembro.

DeWayneWickham@aol.com.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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