Tom Hanks caça vigarista vivido por Leo DiCaprio em novo filme de Spielberg

Andy Seiler
USA Today
Em Nova York

Tente notar a contradição.

Propagandas e cartazes de "Catch me if you can" (Pegue-me se for capaz)- novo trabalho de Steven Spielberg a respeito de um vigarista- anunciam "a verdadeira história de uma enganação real". Entretanto o filme que traz a dupla Leonardo DiCaprio-Tom Hanks proclama logo na abertura que teria sido apenas "inspirado em uma história verdadeira".

Ainda não deu para entender?

Caso não tenha entendido, você logo irá notar. Pois quanto mais você conhecer Frank W. Abagnale, menos você irá saber.

Isso é algo certo, ou ao menos é o máximo que teremos: Abagnale, hoje com 54 anos de idade, foi um garoto nova-iorquino que fugiu de casa aos 16 anos e tornou-se um homem fabulosamente bem-sucedido. Ele se faz passar por piloto de avião, médico, advogado e professor. Passou um número recorde de cheques sem fundo (segundo seu cálculo, no total de US$ 2,5 milhões) em todos os 50 Estados americanos e em 26 países estrangeiros.

Quando finalmente foi pego pela polícia em 1969, ele ainda não era maior de idade. Mesmo assim, cumpriu cinco anos de pena em presídios franceses, suecos e americanos.

Todos os participantes deste filme de US$ 65 milhões de dólares atestam a veracidade da história.

"Há muita coisa autêntica", afirma Hanks. Ele interpreta o agente do FBI Carl Hanratty, que no filme persegue incansavelmente Abagnale por vários e vários anos, e recebe um telefonema anual de sua caça na véspera do Natal.

"Eu utilizei algumas coisas que percebi em minhas conversas com Frank Abagnale e que não aparecem em nenhum de seus livros", afirma DiCaprio, que interpreta Abagnale.

"Todos os golpes que aparecem no filme foram aplicados por ele na vida real", jura Spielberg.

Mas notem o seguinte:

- Logo na primeira trapaça do filme, Abagnale finge ser um professor de francês em seu novo colégio. Mas Abagnale diz que jamais fez isso.

- Abagnale não telefonava para Hanratty nas vésperas de Natal ou em qualquer outro dia. "Por que eu ligaria?", pergunta ele. "Eu não queria que o FBI soubesse aonde eu estava".

- E acima de tudo, Carl Hanratty "não existe. Jamais existiu. Foi Hanks quem inventou o nome, que combina o astro do "Donna Reed Show", Carl Betz, e o ex-zagueiro do Pittsburgh Steelers, Terry Hanratty. O personagem é na verdade uma condensação de diversos agentes do FBI, com destaque para Joe Shea, que, segundo Spielberg, hoje tem 83 anos de idade.

- No filme, o fim trágico do casamento de seus pais leva Abagnale ao mundo do crime. Mas no livro de Abagnale, publicado em 1980 ("Agarre-me se puder: a história surpreendente do mais jovem e ousado vigarista da história!"), ele afirma: "Se eu quisesse fazer uma nova trapaça, diria que saí de um lar despedaçado. Mas com isso eu apenas desviaria a culpa para os meus pais". Seu único interesse, diz o autor, sempre foram mulheres, mulheres e mulheres - e o dinheiro necessário para atraí-las.

Mas em todo golpe há algum truque. E eis o truque deste:

Abagnale considera o filme muito correto. Na verdade, mais correto do que seu próprio livro.

Que ele, por sinal, não escreveu.

O que é a realidade? Não faça esta pergunta

"As pessoas querem saber o que é verdadeiro e o que não é no filme", afirma Jeff Nathanson, que assina o roteiro. "Mas não considero que este seja um material histórico. Temos a vida de um vigarista - e apenas ele conhece a verdade".

E nem aquilo que ele sabe "é" a verdade.

"Chega um momento da vida", diz Abagnale, "em que você diz: 'eu não lembro mais o que eu fiz'"

Após cumprir sua pena, Abagnale viveu uma outra vida nas décadas seguintes, quando trabalhou como consultor para combate a fraudes. (Seu web site é www.abagnale.com). Hoje ele mora em Tulsa ao lado da esposa e de três filhos.

O filme, por sua vez, ganhou vida própria -- uma vida que revela como um livro "infilmável" pode ser transformado em um filme muito bem modelado.

Stan Redding, repórter do "Houston Chronicle" que figura como co-roteirista, é o verdadeiro autor, diz Abagnale. Após ser entrevistado no "Tonight Show" por Johnny Carson em 1978, Abagnale logo a seguir conversou com Redding durante quatro dias por oito horas diárias, e o jornalista então escreveu seu livro.

"Ele era um ótimo contador de histórias", recorda Abagnale. "E eu sempre achei que ele enfeitava um pouco as coisas, ou exagerava e dramatizava outras".

Pode até ser. No obituário de Redding, publicado pelo jornal em que trabalhava, dizia-se que ele era "um incansável contador de casos".

Redding recriou a vida de Abagnale. "Fiz o papel de um médico por alguns dias", diz Abagnale. "Fui advogado por alguns poucos dias. No livro, parece que fiz tudo isso durante um ano".

Mas Hollywood ficou fascinada pelo relato de Redding e logo adquiriu os direitos do livro antes de sua publicação. Mas durante duas décadas ninguém imaginara como a história poderia ser transformada em um filme.

"O livro é repleto de anedotas que dariam cenas perfeitas na tela", afirma Walter Parkes, produtor do filme ao lado de Spielberg. "Por ironia, este é um dos livros mais difíceis para se adaptar. Se você escreve o texto sem uma premissa, sem que haja um pressuposto temático, você acaba se dando mal".

Pai e filho

O filme de Spielberg acaba por tratar da relação entre Abagnale e seu pai, que faz uma breve aparição no livro, e uma outra figura paterna -Hanratty, mencionado no livro sob o nome falso "Sean O'Riley".

Nathanson afirma que estas alterações não representam um "novo golpe", pois ele conversou longamente com Abagnale e descobriu que na amizade entre Abagnale e Shea havia muito mais do que Abagnale admitia.

Spielberg emenda: "Ele mesmo me disse em diversas ocasiões que aplicava seus golpes durante o dia e, depois que sua mulher chegava em casa, deitava na cama e chorava, pensando nos pais e no divórcio".

Em contraponto, Nathanson afirma que se tivesse criado um Abagnale movido exclusivamente por sexo e dinheiro, talvez ele não atraísse a simpatia do público. A relação sentimental entre pai e filho o aproxima da vida real, diz Nathanson. "Há verdades de gêneros diversos, é claro".

Hanks afirma que para ele foi muito mais importante mimetizar os trejeitos e o estilo de um agente do FBI dos anos 60 do que saber se Hanratty realmente existira. Ele recita as perguntas que tentou responder: "Como trabalha um sujeito que investiga fraudes bancárias? É verdade que alguns agentes do FBI detestavam trabalhar na divisão de fraudes bancárias?"

Ele emenda: "Sim, porque eles queriam ir para as ruas e prender bandidos, coisas desse tipo".

Hanks descobriu ainda como os agentes se apresentam para estranhos em festas e por que limpam suas mesas antes de voltar para casa (era o que o chefe do FBI J. Edgar Hoover fazia).

DiCaprio, por sua vez, passou dias e mais dias interrogando Abagnale. Ele se lembra de ter perguntado a Abagnale como havia convencido um funcionário da Pan Am a aceitar um cheque sem fundos.

"E ele começou a falar com aquele sotaque sulista, mas de um jeito muito sutil", recorda DiCaprio. "Ele não se dava conta. Eu saquei e usei aquilo, sobretudo na cena em que Frank Abagnale passa a ser um piloto".

DiCaprio ainda convenceu Spielberg a acrescentar uma cena em que Abagnale passa para trás uma de suas namoradas (Jennifer Garner) -uma cena que consta no livro mas não figura no roteiro original.

"Essa cena quase foi cortada, porque na verdade ela não pertence à narrativa", diz Spielberg. "É só mais um episódio da vida de Frank. Mas em alguns casos é preciso inserir em um filme alguma cena que as pessoas guardarão na memória como algo que não contribui para a narrativa".

Em alguns casos -- mas somente alguns.

Embora possa criar filmes a partir da vida real, diz Spielberg, eles necessitam mesmo assim de um primeiro, um segundo e um terceiro ato.

"E a vida real jamais é assim", ele completa. "As coisas acontecem a partir do nada".

Tradução: André Medina Carone

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