Por que Osama bin Laden é tão popular?

DeWayne Wickham

Em Washington


Eis a questão levantada pela senadora democrata Patty Murray durante uma palestra proferida para alunos do segundo grau antes do final do ano. A resposta, disse ela, talvez fosse esta: o líder da Al Qaeda contribuiu para melhorar as condições de vida dos povos islâmicos.

"Devemos nos perguntar: 'por que este homem é tão popular em todo o mundo? Por que tantas pessoas o apóiam em tantos países assolados pela miséria?'", declarou Murray.

Sua resposta gerou uma violenta crítica de republicanos que repudiam a idéia de que Bin Laden pudesse ser uma figura positiva em qualquer contexto e para qualquer pessoa. O recesso de Natal provavelmente terá poupado a Murray impropérios mais contundentes por parte dos "homens de Bush" -- os direitistas e porta-vozes da imprensa patriótica que denunciam todos aqueles que encarem com alguma sombra de desconfiança a conduta do presidente na questão do terrorismo.

Para a infelicidade do país, o comentário de Murray recebeu pouca atenção. Tem enorme importância o problema levantado pela senadora, embora sua resposta provavelmente tenha ficado aquém das expectativas. Embora Bin Laden decerto não seja um filantropo ou defensor dos desvalidos do mundo islâmico, a busca por uma resposta à pergunta de Murray deveria figurar entre as principais tarefas do presidente Bush para este ano que se inicia.

Tudo indica que, cedo ou tarde, as forças americanas que saíram à caça de Bin Laden irão encontrá-lo e desmantelar sua organização terrorista. Mas caso não sejam compreendidas as razões de sua popularidade entre os muçulmanos de todo o mundo, a vitória do governo Bush será apenas temporária.

Não basta apenas afirmar, tal como fizeram vários integrantes do governo Bush, que estas pessoas odeiam nosso estilo de vida. Talvez este ódio tenha impulsionado Bin Laden e seus comandados a elaborar um plano contra nós, mas não creio que milhões de muçulmanos o apóiem em todo o mundo por este motivo.

"Em um certo sentido, a razão de sua popularidade é evidente: ele traz, no discurso e na ação, uma resposta ao profundo ressentimento cultivado durante vários anos no mundo muçulmano, e oferece alguma esperança de uma retaliação ou mesmo de triunfo verdadeiro", afirmou o estudioso do Oriente Médio Bernard Lewis a respeito de Bin Laden no ano passado, em artigo publicado pelo "The Wall Street Journal".

Mas qual seria a raiz verdadeira deste ressentimento?

"Não sei qual importância possui o apoio financeiro, militar e diplomático concedido por nosso país a Israel no que toca a esta questão, mas creio que ele seja relevante para além do círculo dos homens de Bin Laden. O conflito entre Israel e os palestinos está profundamente vinculado a um temor presente em todo o mundo muçulmano: ser ofuscado pela cultura ocidental e dominado por políticos do Ocidente.

Alguns muçulmanos também reprovam o apoio dos Estados Unidos a líderes muçulmanos supostamente "moderados" na Jordânia, na Arábia Saudita e no Egito. Foram os radicais islâmicos que se opunham ao acordo de paz de Camp David que assassinaram o presidente egípcio Anwar al-Sadat em 1981.

Há ainda o quiasma religioso que separa o Ocidente do mundo islâmico. Bin Laden trabalhou com afinco -- e, em certa medida, com sucesso -- para transformar o conflito entre suas forças e os Estados Unidos em uma nova Cruzada.

Sem uma compreensão verdadeira das razões para o amplo apoio concedido à causa nefasta de Bin Laden, o melhor que resta fazer ao nosso país será derrotar a Al Qaeda, mas não agravar as animosidades que levaram tantos muçulmanos para o seu lado."



Este é o trabalho que a pergunta de Murray deveria ter impulsionado. Mas é pouco provável que isso venha a acontecer tão cedo. A tão esperada investigação sobre as falhas de segurança que permitiram a articulação dos ataques terroristas de 11 de setembro ainda não foi concluída. E a Casa Branca, que vacila entre o anúncio de uma guerra contra o Iraque e uma pressão diplomática contra a Coréia do Norte, afunda em uma areia movediça.

À medida que a nação mergulha no abismo político aberto pelos ataques terroristas comandados por ele contra a nação, são poucos os interessados em descobrir por que no mundo islâmico Bin Laden é tão bem visto -- e os Estados Unidos tão desprezados.


Tradução: André Medina Carone

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