Cultura pop abre espaço para relações inter-raciais nos Estados Unidos

Dawn Sagario

Sempre que Matt Doehrmann, um rapaz criado em uma pequena cidade do estado de Iowa, abraça sua esposa Mayra -- nascida em Juarez, México -- seu cabelo loiro e seus olhos verdes contrastam com o cabelo escuro e a pele morena de sua parceira.

A formação cultural de cada um é ainda mais diversa, mas eles garantem que a diferença é o que torna interessante sua relação.

Casais como os Doehrmans de Des Moines, Iowa, tornam-se cada vez mais comuns à medida que a paisagem cultural e racial da América se diversifica.

A ampla visibilidade de casais inter-raciais na cultura pop, associada à mudança dos ideais de diferentes grupos raciais, contribuiu para a maior aceitação dos namoros e dos casamentos inter-raciais nos Estados Unidos. Mas estes casais ainda enfrentam desafios apesar das alterações do panorama social.

Há o enviesado olhar de censura nas mercearias e em reuniões de familiares ou amigos. Além disso, cada um possui expectativas culturais diferentes em relação aos seus parceiros.

Pela primeira vez, o Censo Americano de 2000 concedeu aos americanos a oportunidade de definir a si próprios a partir das categorias de raças múltiplas. A pesquisa revelou ainda que o número de casamentos inter-raciais cresceu constantemente ao longo das últimas décadas.

Entretanto, estes casais ainda representam uma exceção no interior de nossa sociedade, e respondem por uma ínfima porcentagem do número total de casamentos. Em 1960, somente 0,5% dos casamentos eram inter-raciais. Em 2000, estas uniões respondiam por aproximadamente 3% do total de casamentos.

O estigma social não é o único desafio enfrentado pelos casais miscigenados. Algumas legislações estaduais que proibiam os casamentos entre brancos e negros só foram consideradas inconstitucionais pela Corte Suprema dos Estados Unidos em 1967.

Mas isso não impediu que o assunto chegasse às manchetes. Há dois anos a Universidade Bob Jones de Greensville, Carolina do Sul -- uma instituição cristã fundamentalista - suspendeu uma antiqüíssima lei que proibia namoros inter-raciais.

Há menos de um ano os estudantes de uma escola secundária de Butler, Georgia, organizaram sua primeira formatura integrada em 30 anos.

A miscigenação cresceu em decorrência do interesse das pessoas pela cultura e pela raça de outras pessoas, segundo afirma um professor de Iowa.

"Os namoros e os casamentos inter-raciais são o resultado do contato das pessoas com as diferenças que os separam, em contraponto ao modelo do 'fruto proibido' que vigorava na década de 50", afirma Kesho Scott, uma professora de sociologia e estudos americanos do Grinell College em Grinnel, Iowa.

A cultura pop também contribuiu para o florescimento das relações inter-raciais, ela afirma. O imaginário da beleza tornou-se "mais moreno, mais bronzeado", diz ela. A síndrome de "Halle Berry", nas palavras de Scott, fez com que as imagens da beleza multifacetada tornassem mais aceitável a aparência miscigenada.

A história conflituosa das relações entre negros e brancos desde os tempos da escravidão afetou profundamente a concepção popular acerca das relações miscigenadas.

No passado, as mulheres negras não eram incentivadas a cortejar homens brancos por conta do passado dos negros nos Estados Unidos, afirma Scott. Mas as comunidades negras agora adotam uma outra postura.

Em função do grande número de presidiários negros, bem como do desemprego, da homossexualidade e do uso de drogas, os negros hoje não defendem tão vigorosamente esta posição.

A classe social também contribui para o estigma associado à relação inter-racial, ela afirma. Um casamento miscigenado pode ser mais palatável para algumas famílias caso garanta à filha uma ascensão social por uni-la a um médico, por exemplo.

Além disso, a condição social tem maior importância sob um outro aspecto: quanto mais educadas forem as pessoas, maior será a probabilidade de que elas venham a ingressar em uma relação inter-racial, afirma Sandra Patton-Imani, professora-assistente de estudos americanos do Departamento para Estudos de Cultura e Sociedade da Universidade Drake, em Des Moines. Por exemplo: em universidades e segmentos de classe média, existe hoje uma miscigenação racial maior do que há 20 ou 30 anos.

O movimento de Direitos Civis também criou maiores oportunidades para a interação entre grupos diversos, afirma Patton-Imani.

"Esta interatividade social nascida a partir dos movimentos sociais de fato fez com que as pessoas abrissem os olhos", ela diz.

As pessoas envolvidas em relações inter-raciais passam mais tempo defendendo e justificando seus relacionamentos do que casais não-miscigenados, afirma Kristine Fitch, professora de estudos da comunicação na Universidade de Iowa.

A definição do relacionamento inter-racial depende, em alguns casos, da posição social do observador, destaca Fitch, que foi criada no Texas. O marido de Fitch provém da classe média colombiana, e os dois se conheceram quando ele redigia sua tese de mestrado.

"Não fomos estigmatizados, mas éramos um casal exótico", afirma Fitch; na sua opinião as outras pessoas consideravam que seu relacionamento era intercultural, mas não inter-racial. Fitch destaca que, caso seu parceiro fosse um imigrante mexicano-americano, a reação talvez fosse outra.



Tradução: André Medina Carone

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