Ao devorar estrelas, a Via-Láctea adoça a tigela da ciência

Dan Vergano

Seattle - Oculto durante um longo período por gás e poeira, um grupo de estrelas envolve a nossa galáxia - a Via-Láctea - segundo anunciaram astrônomos.

As galáxias são os enormes conjuntos de estrelas que preenchem o espaço, como se fossem ilhas cintilantes de luz. Ao procurar descobrir como elas se formaram, cientistas, nos últimos anos, descobriram um número cada vez maior de indícios de que grandes galáxias, como a nossa, crescem
ao "engolir" estrelas capturadas de agrupamentos estelares menores.

Girando em torno da nossa galáxia a distâncias do centro que são mais do que o dobro do que aquela que separa o sol do núcleo da Via-Láctea, o grupo distante, que talvez contenha 500 milhões de estrelas, lembra os restos de uma daquelas "refeições cósmicas", afirma Hedi Newberg, da
Universidade Politécnica Rensselaer. A sua equipe, responsável pela Pesquisa Celeste Digital Sloan, divulgou a descoberta durante uma conferência da American Astronomical Society, na última segunda-feira.

Com cerca de 120 mil anos-luz de diâmetro (um ano-luz corresponde a cerca de 9,5 trilhões de quilômetros), o anel em forma de rosca foi observado por membros da equipe de Newberg, que examinaram, por meio de recursos digitais, centenas de imagens em uma região do espaço que a maioria dos astrônomos acreditava estar oculta por estrelas próximas que
compõem o disco achatado da nossa galáxia.

Dezenas de milhares de estrelas que orbitam a nossa galáxia de forma organizada indicaram aos astrônomos que estes estavam observando uma grande e desconhecida estrutura, conta Newberg.

A missão da equipe é mapear completamente um quarto do céu, determinando a que distância estão cerca de um milhão de galáxias distantes.

Durante a conferência, um fato que ajudou a confirmar a descoberta foi a apresentação paralela de evidências, por parte de uma equipe de cientistas holandeses, ingleses e australianos, que indicavam a grande dimensão do anel estelar.

Examinando uma outra região do céu, eles também detectaram sinais do anel de estrelas na direção da constelação de Andrômeda.

O enorme anel seria, segundo o astrônomo Bruce Margon, do Intituto de Ciência do Telescópio Espacial, e que não participou da pesquisa, uma "prova incontestável" de que a Via-Láctea devora galáxias menores. Para reforçar as evidências, dois astrônomos da Universidade da Califórnia anunciaram ter encontrado sinais de um rastro de resíduos de
estrelas, restos de uma pequena galáxia devorada, que teria sido vizinha da galáxia de Andrômeda. Andrômeda é uma galáxia espiral como a Via-Láctea.

Os astrônomos esperam que o grupo de estrelas também proporcione maiores esclarecimentos quanto à misteriosa "matéria escura" que envolve a nossa galáxia. Detectada somente por meio da sua influência gravitacional
sobre objetos como estrelas, acredita-se que a matéria escura responda pela maior parte da massa do universo. Ela pode consistir de pequenas estrelas escurecidas e planetas "mortos", ou mesmo de partículas físicas mais exóticas. A real natureza da matéria escura continua sendo
desconhecida, e os cientistas esperam que, ao observarem a sua influência em grande escala sobre uma estrutura gigantesca, como é o caso do recém-descoberto anel de estrelas, sejam capazes de aprender mais sobre ela.

Tradução: Danilo Fonseca

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