Crianças geradas por clonagem são motivo de preocupação: questões de ordem emocional e desejos dos pais podem prejudica-las

Marilyn Elias
USA Today

Até o momento ainda não nasceu nenhum clone humano, mas várias questões já estão passando pela cabeça dos especialistas em infância.

Embora as recentes alegações de que haveriam bebês gerados através de técnicas de clonagem por um grupo religioso estejam sendo encaradas como uma impostura, outros candidatos a realizar a clonagem humana, incluindo alguns médicos, estão aguardando e dizem que em breve produzirão um clone de verdade. Se isso acontecer, o fato vai abrir as fronteiras para um novo território no que diz respeito a criação de filhos e levantar uma série de preocupações sérias.

As crianças que crescessem como clones de um dos pais poderiam vir a conviver com problemas emocionais brutais. Mas segundo a previsão de especialistas em famílias, muitas dessas crianças se desenvolveriam normalmente, a despeito dos problemas, à medida que seus pais fossem entendendo que não é possível fazer cópias xerox de si.

Muita gente tem a noção errônea de que um bebê criado por clonagem, ao se desenvolver será exatamente igual ao seu pai, que é geneticamente idêntico. "Isso é algo que não vai ocorrer", afirma o psicólogo David Lykken, professor emérito da Universidade de Minnesota, e que realizou estudos pioneiros com gêmeos.

Os genes causam o seu maior impacto ao influenciar as experiências buscadas pelas pessoas, "e, a seguir, o ambiente tende a modela-los", explica Lykken. Mas crianças criadas décadas após os seus pais - em meio a creches, videogames e ameaças terroristas - se defrontam com um ambiente bem diferente. E isso vai modela-las de uma maneira que não ocorreu com os pais. Assim, um clone crescerá para ser uma pessoa diferente do pai, ainda que os dois tenham alguns fatores em comum, diz Lykken.

A saúde mental dos clones vai depender bastante das expectativas dos pais. "O que não sabemos é quem deseja fazer a clonagem e porque", afirma Ruby Takanishi, presidente da Fundação para o Desenvolvimento Infantil, em Nova York. "Se eles a realizarem com o intuito de se replicar, poderia haver problemas".

Tudo isso pode ser o clímax pavoroso de "uma tendência bastante perturbadora" que já está em andamento, afirma a historiadora de famílias Stephanie Coontz, do Conselho de Famílias Contemporâneas, um grupo dedicado a pesquisas e a terapias. "No decorrer dos últimos 50 anos, os pais tem investido cada vez mais, sob o aspecto emocional, nos seus filhos... Muitos os tratam como se fossem pequenos troféus que refletiriam as figuras dos pais", afirma.

Ironicamente, aqueles pais que esperam que os seus filhos reproduzam as suas vidas podem estar estar tendo um entendimento equivocado dos fatos. Há evidências de que os adultos têm memórias equivocadas de como eram quando crianças, afirma a psiquiatra infantil Kyle Pruett, da
Universidade Yale. Ainda assim, as expectativas dos pais com relação a um clone poderiam gerar ansiedade e criar problemas de desenvolvimento emocional, à medida que a criança buscasse
a sua própria identidade, diz Pruett.

"Se alguém lembra de si como sendo uma espécie de demônio incansável quando tinha 13 anos de idade, será que vai buscar a mesma coisa no seu clone? Caso a criança seja sempre encarada como uma copiadora em potencial, a sua capacidade de se desenvolver naturalmente pode ser distorcida".

Toda a dinâmica familiar pode ser alterada em lares dotados de pequenos clones, alerta a psicoterapeuta Judith Harris, que trabalha em Los Angeles. Os adultos muitas vezes procuram
parceiros para ajuda-los a resolver conflitos da infância. Quando um filho clonado parecer ecoar as qualidades da personalidade do marido, tal fato poderia levar a uma síndrome do tipo: "Veja só, ele também não me dá ouvidos". "Há um grande potencial para a exponenciação de conflitos", diz Harris.

Outros especialistas acham que várias crianças bem ajustadas poderiam emergir de tais famílias. Se os pais forem amorosos e apoiarem os filhos, estes provavelmente vão se desenvolver normalmente, diz o psicólogo Joseph Allen, da Universidade da Virgínia.

Na verdade, um pai bastante tímido e que aprendeu a superar tal problema poderia ajudar particularmente o filho clone, ao perceber que essa característica herdada estivesse emergindo
na criança, diz Lykken. É claro que se o pai ainda tivesse problemas com a timidez, o filho fruto da clonagem continuaria em uma situação desfavorável. "Creio que haverá uma variabilidade consideravelmente maior na tarefa de criar os filhos - desde as características muito boas até as muito ruins - do que ocorre nas famílias sem clones", diz Lykken.

Se alguns pais não falarem aos filhos que estes foram gerados pela clonagem, isso provavelmente prejudicaria o desenvolvimento das crianças, alerta Pruett, que observou tal efeito em crianças concebidas por meio de técnicas como a doação de espermatozóides. "A maior parte das crianças percebe que é diferente, e que existe um segredo pairando sobre elas, o que se traduz em vergonha".

Se a clonagem humana ocorrer, a pesquisa sobre como auxiliar as crianças a se ajustar é necessária, diz Pruett. "Como estamos nos aproximando de uma estrada nunca trilhada pela humanidade, a verdade é que, simplesmente não sabemos o que acontecerá com tais crianças".

Tradução: Danilo Fonseca

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