Estados Unidos preparam tropas para resistirem a ataques químicos

Dave Moniz


Fort Myer, Virginia - Não chega a ser tão exaustivo quando correr no mar com água pelos quadris. A sensação de claustrofobia também não é tão grande quando a que se tem dentro de uma câmera de um aparelho de tomografia por ressonância magnética. Mas marchar em um campo de batalha vestindo um traje militar completo de proteção contra armas químicas ou biológicas não é também nem um pouco fácil ou agradável.

Após passar 45 minutos caminhando e correndo pelas ruas deste quartel do exército, eu estava banhado de suor. Duas corridas velozes de 75 metros fizeram com que a minha respiração ficasse como a de Darth Vader e me proporcionaram uma leve sensação de sufocamento. E olhem que fiz essa experiência a uma temperatura de 1,6 graus Celsius e levando menos da metade da carga de combate de um soldado de infantaria. É difícil imaginar o que oito horas de um sol escaldante do Oriente Médio sejam capazes de provocar em soldados que tenham que, ao mesmo tempo, lidar com esses trajes volumosos e com toda a tensão decorrente de uma situação de combate real.

Mas poderemos saber daqui a pouco tempo qual será o resultado de tal empreitada. Dentro em breve - talvez dentro de apenas semanas ou dias - as forças militares dos Estados Unidos poderão estar se deparando com a perspectiva atemorizante de travar a primeira batalha química e biológica norte-americana desde a Primeira Guerra Mundial, ocasião em que mais de um milhão de soldados de ambos os lados ficaram mortos ou feridos por ataques com gases venenosos.

O Pentágono afirma estar pronto para lutar contra o Iraque em um campo de batalha que pode ser pulverizado com as substâncias mais letais da Terra, incluindo a toxina botulinum, o agente nervoso VX, o antraz e a varíola. Na semana passada, o general Richard Myers, um militar de alto escalão do Pentágono, afirmou que as tropas norte-americanas estão aptas a lutar em temperaturas de até 49 graus Celsius caso a guerra se prolongue até o verão.

Apesar de tais promessas, os especialistas estão divididos sobre o efeito que um clima quente pode ter sobre soldados que marcham sobrecarregados com trajes protetores incômodos. A maior parte dos analistas diz que é possível, ou mesmo desejável, lutar em tempo quente. Outros argumentam que a ameaça do calor conjugada ao arsenal químico e biológico de Saddam pode criar um cenário insuportável.

"Treinamos sempre dessa maneira, em uma temperatura extremamente elevada", afirma Barry McCaffrey, general da reserva do exército dos Estados Unidos, que comandou a 24ª Divisão de Infantaria no Iraque durante a Guerra do Golfo Pérsico de 1991.

Desta vez, McCaffrey calcula que entre 2% a 3% das tropas norte-americanas precisarão operar com trajes de proteção completos durante a guerra. No caso de ataques químicos ou biológicos, diz McCaffrey, "sofreríamos um número bem menor de baixas comparado a um ataque da mesma magnitude com peças de artilharias explosivas convencionais".

Ninguém sabe que tipo de agentes químicos ou patológicos Saddam Hussein poderia lançar ao se deparar com a certeza de morte ou de julgamento por crimes de guerra. Oficiais militares do Pentágono estão suficientemente alarmados para terem ordenado vacinação contra antraz e varíola para todos os soldados que são enviados para o Golfo Pérsico.

Cada soldado levará durante a batalha pelo menos uma veste de proteção, conhecida no jargão militar como BDO (do inglês "Battle Dress Overgarment", ou "Roupa Externa de Batalha").

Poucos duvidam de que o clima hostil no Golfo Pérsico desempenhe um papel quanto ao cronograma de uma invasão, que poderia ser iniciada ainda neste mês.

Da última vez em que o Pentágono se engajou em uma guerra na região, de meados de janeiro até o início de março de 1991, era inverno no Iraque. Em fevereiro e março, a temperatura diária média em Bagdá varia entre 18 e 23 graus Celsius. Apenas dois meses depois o Iraque se transforma em um verdadeiro inferno - com a média diária de maio em torno de 35,5º e, em junho, de 40,5º centígrados.

Perguntei a dois experientes especialistas em armas químicas do exército qual é a sensação ao se vestir uma BDO durante horas a fio em um clima quente. Ambos sorriram de uma maneira que parecia dizer, "não tente fazer isso em casa".

"Pense em jogar futebol (americano) em julho, no auge do verão. Agora, aumente essa sensação térmica em 2,8 graus", disse o major Forte Ward, oficial especialistas em armas químicas do exército em Fort Myer, que já passou até dez horas ininterruptas vestindo uma BDO. O seu colega, sargento Charles Defendall, explicou a experiência da seguinte forma: "Imagine-se no lugar mais quente onde você já esteve".

Na realidade, as vestes BDO não são pesadas. Mas, tão logo o usuário lacre os fechos de velcro, amarre com força os cordões e crie um espaço interno selado, a única parte do seu corpo que realmente respira são os pulmões, por meio da máscara.

David Hackworth, um veterano condecorado do Vietnã, que muitas vezes critica as políticas impostas pelo Pentágono, afirma que as forças armadas minimizaram de forma deliberada o potencial para que ocorram mortes causadas pelo calor. Em um artigo que escreveu no segundo semestre do ano passado, Hackworth disse: "Nossos soldados não serão capazes de atuar por muito tempo em qualquer clima usando esse tipo de traje".

Uma veste BDO completa pesa cerca de 4,5 quilogramas e inclui um conjunto hermeticamente fechado composto de máscara e capuz, botas e luvas de borracha e calças e jaqueta largas. Ao se usar o traje é possível beber, mas não comer.

A questão da higiene pessoal vai realmente colocar à prova a celebrada fraternidade dos soldados da infantaria norte-americana. Vestindo o traje completo é impossível ir ao banheiro sem a assistência de um "camarada" que abra a vestimenta do colega usando luvas que prejudicam a habilidade manual.

Pesquisas do exército demonstram que a progressão de tropas e unidades militares pode ser reduzida a uma marcha arrastada quando os soldados usam as vestes de proteção. Em temperaturas extremamente elevadas, afirma Ward, os soldados precisam fazer paradas freqüentes e beber bastante água. Como regra geral, soldados que utilizam uma BDO completa tem uma sensação térmica cerca de 5,5 graus Celsius maior do que a temperatura externa.

Os soldados são menos eficientes quando lutam usando as vestes de proteção completas, segundo uma pesquisa compilada pela Globalsecurity.org, um site especializado em assuntos militares. A sua capacidade de luta pode sofrer uma redução de até 50%, e eles chegam a levar um tempo três vezes maior para realizar tarefas. Além disso, ficam cansados. E enfrentam um aquecimento corporal perigoso.

Durante uma demonstração no segundo semestre do ano passado, um soldado do exército, que vestia a roupa de proteção completa, desmaiou durante uma entrevista de imprensa concedida pelo Pentágono.

Saddam já utilizou armas químicas para matar os seus inimigos aos milhares. Durante a guerra entre o Irã e o Iraque, na década de 80, relatos históricos indicam que ele utilizou tais armas indiscriminadamente contra tropas iranianas, o que ajudou a reverter a tendência de uma derrota certa para um "empate".

O Iraque utilizou armas químicas contra tropas iranianas em toda grande batalha da guerra, entre 1984 e 1988, segundo descreve o autor Kenneth Pollack no livro "The Threatening Storm". E ele continuou a utilizar tais armas até o final da guerra, escreveu Pollack, ainda que tal tática fosse claramente responsável por um grande número de morte entre os seus próprios soldados.

No final dos anos 80, Saddam começou a utilizar gás tóxico contra os curdos no norte do Iraque. Em uma única ofensiva, em 5 de março de 1988, ataques com armas químicas contra a cidade de Halabja mataram pelo menos 5.000 curdos.

Analistas militares dos Estados Unidos acreditam que Saddam ainda possua grandes estoques de agentes químicos e biológicos e as armas para lançá-los. Mas a tarefa de analisar os riscos que esses agentes representam para as tropas norte-americanas não é fácil. Embora agentes químicos e biológicos possam ser lançados por foguetes e peças de artilharia, ou pulverizados a partir de aviões ou embarcações, eles são difíceis de se manusear.

"Substâncias como o VX e o sarin são gases muito difíceis de serem usados", afirma Bill Martel, professor de segurança nacional da Faculdade de Guerra Naval em Newport, Rhode Island. O seu poder letal pode variar dependendo da direção do vento, da temperatura e da umidade. Certas armas químicas como o gás sarin possuem a tendência de evaporar rapidamente em temperaturas elevadas. Outros, como o agente nervoso VX e o antraz podem atuar durante dias. Assim, uma mudança na direção do vento pode resultar na morte ou danos físicos para civis ou para aqueles que disparam tais armas.

Stephen Cimbala, que leciona segurança nacional na Universidade Penn State, afirma que Saddam reconhece que essas armas temíveis podem ser a única vantagem que dispõe contra as forças armadas de alta tecnologia dos norte-americanos.

"Em um confronto com os Estados Unidos, Saddam vai contar com o fato de que os norte-americanos temem aventuras militares onde sofram baixas elevadas", explica Cimbala.

Um dos principais especialistas do exército em armas químicas e biológicas estima que as maiores ameaças para as tropas dos Estados Unidos no Golfo Pérsico sejam o antraz, a varíola e a toxina botulinum, uma substância tóxica que mata paralisando suas vítimas e impedindo-as de respirar.

O coronel Erik Henchal, chefe do setor de Doenças Infecciosas do Instituto de Pesquisas Médicas de Fort Detrick, Maryland, disse no mês passado que os Estados Unidos não possuem uma vacina para conter a toxina botulinum, da qual o Iraque produziu cerca de 7,6 mil litros no início da década de 90. Existe um antídoto, mas os estoques são reduzidos.

Os soldados norte-americanos lutarão lado a lado com sensores sofisticados, robôs, veículos de detecção química e laboratórios móveis. As unidades terão acesso a milhares de litros de espuma de descontaminação.

O governo Bush ameaçou levar a julgamento por crimes de guerra qualquer oficial iraquiano que utilizar armas químicas ou biológicas. E o Pentágono deixou claro que vai desfechar bombardeios "decisivos e violentos" contra grandes contingentes militares de Saddam Hussein caso ele utilize armas de destruição em massa, segundo autoridades graduadas do Departamento de Defesa.

Mas, assim como na maioria das guerras, a defesa da linha de frente vai caber a cada soldado, e ameaça de que um Saddam desesperado lance ataques químicos ou biológicos fará com que esses soldados usem suas vestes de proteção por longos períodos.

"A maior parte dos nossos grupos de combate usará a veste de proteção", afirma Henchal. "É algo que mudará o nosso visual".


Tradução: Danilo Fonseca

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