Concentração de tropas dos Estados Unidos e de aliados está sendo dissimulada

Dave Moniz


A concentração de tropas para esta guerra é diferente daquela feita em 1991, quando os Estados Unidos, o Reino Unido e os aliados árabes criaram uma "montanha de ferro", composta por tanques, aviões e outros equipamentos, na Arábia Saudita e concentraram meio milhão de soldados naquele país para expulsar o exército iraquiano do Kuait.

Desta vez o Pentágono deslocou tropas menores e menos material para a região, e tentou dispersá-los em torno do Iraque, posicionando tropas terrestres, bombardeiros e navios no Kuait, Turquia, Catar, Omã, Diego Garcia e Bahrein.

Há dois motivos para isso. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, está procurando tornar as forças norte-americanas mais leves e ágeis nas batalhas, reduzindo a quantidade de equipamento que carregam consigo. E o mais importante é que o Pentágono não quer fornecer a Saddam ou a terroristas da Al Qaeda grandes alvos vulneráveis a extremistas suicidas ou a ataques químicos e biológicos.

A fim de auxiliar nos preparativos para a campanha, o Pentágono vem desmantelando as defesas aéreas iraquianas há meses, sob a alegação de que estariam protegendo pilotos norte-americanos e britânicos nas zonas de exclusão aérea, onde os aviões aliados voam constantes missões de patrulha para manter as aeronaves militares do Iraque no solo.

Nas últimas semanas, Saddam teriam deslocado tropas da Guarda Republicana para as proximidades de Bagdá. Historicamente o ditador iraquiano mantém a maioria das suas tropas longe da capital, por temer que elas possam tentar derruba-lo do poder.

O dilema que enfrenta desta vez é o seguinte: caso concentre as suas forças, corre o risco de vê-las ser destruídas pelo bombardeiro aéreo e ataques com tanques. Se as dispersar pelo país, dizem os analistas militares, há o risco da deserção generalizada e da perda de controle sobre os soldados.

"Saddam não conta com boas alternativas militares", diz Barry McCaffrey, general da reserva do exército que comandou a 24ª Divisão de Infantaria na primeira Guerra do Golfo. Segundo ele, a maior esperança do líder iraquiano é, de alguma maneira, obrigar as forças dos Estados Unidos a travar batalhas brutais, rua a rua, em Bagdá e em Tikrit.

No entanto, o Pentágono espera atacar a Guarda Republicana antes que ela possa recuar para a capital e infligir pesadas baixas sobre as tropas dos Estados Unidos.

Os piores cenários para os EUA

Poucos analistas militares acreditam que Saddam possa vencer, caso os Estados Unidos invadam o Iraque. Mas existem certos cenários que preocupam os estrategistas do Pentágono:

Saddam pode tentar atacar Israel com armas químicas ou biológicas transportadas por mísseis Scud, ou pulverizadas com aeronaves não tripuladas. Ou ele poderia ordenar que terroristas portando agentes biológicos como a varíola e o antraz atacassem Israel ou vizinhos árabes.

Ele poderia utilizar "escudos humanos" em Bagdá para criar baixas entre a população civil, em uma tentativa de mobilizar a opinião mundial contra os Estados Unidos. Muitos analistas acreditam que a decisão do Pentágono no sentido de permitir que mais de 500 jornalistas tenham acesso à linha de frente de tropas norte-americanas se deva, em parte, à tentativa de conter a propaganda iraquiana, que procuraria alegar que as tropas dos Estados Unidos estariam cometendo atrocidades.

Saddam pode optar por uma política de terra arrasada, explodindo barragens, incendiando campos de petróleo e lançando antraz e outros agentes letais no Iraque e outros locais. As agências de inteligência dos Estados Unidos estão convencidas de que Saddam possui um arsenal biológico e químico, mas não sabe ao certo onde essas armas estariam ocultas.

O que mais preocupa o Pentágono é o cenário de terra arrasada, segundo um assessor do Departamento de Defesa. Os militares acreditam que podem impedir a maior parte, mas não todas as tentativas de Saddam no sentido de criar o caos e desestabilizar o Oriente Médio.

Os estrategistas de guerra dos Estados Unidos trabalharam para reduzir as possibilidades de que tal cenário venha a se materializar. A fim de proteger as tropas dos Estados Unidos, o Pentágono deslocou praticamente todos os seus mísseis Patriot-3, o seu mais sofisticado equipamento antimísseis, para o Kuait, segundo uma fonte militar. E o governo Bush deixou claro que, caso Saddam utilize armas químicas ou biológicas contra as forças dos Estados Unidos, a resposta do Pentágono será devastadora.

Embora altas fontes do governo tenham descartado uma resposta nuclear, os Estados Unidos provavelmente retaliariam com um bombardeio convencional arrasador caso Saddam utilizasse armas de destruição em massa, dizem autoridades do Departamento de Defesa.

O Pentágono está apostando em um ataque rápido e feroz para intimidar vários dos mais leais apoiadores de Saddam, fazendo com que desistam. Mas há sérios riscos em jogo, alguns deles além do controle das forças armadas dos Estados Unidos.

"Há uma chance de 100% de que ele tente usar agentes químicos e biológicos", afirma Peters. "E o triste é que Saddam tentará nos culpar por isso e uma grande parte do mundo árabe e muçulmano acreditará nele".


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Tradução: Danilo Fonseca

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