Veja como os Estados Unidos atacariam o Iraque tendo Saddam como alvo

Dave Moniz


Eis aqui uma estimativa de como poderiam se desenrolar etapas vitais da invasão:

Os grupos de elite mais bem treinados dos Estados Unidos, a fantasmagórica Força Delta do exército, composta de 360 soldados, lideraria a caçada ao alvo número um - Saddam e sua família. A Força Delta, que tem sua base em Fort Bragg, na Carolina do Norte, é tão secreta que o próprio Pentágono não admite a sua existência.

Unidades de operações especiais vão se engajar em uma caçada urgente a bunkers onde a inteligência norte-americana sugere que o Iraque pode ter escondido armas químicas ou biológicas. Com o auxílio de aviões não tripulados de reconhecimento Predator, esses grupos irão se dispersar pela vastidão do deserto ocidental iraquiano a fim de procurar e destruir os poucos mísseis Scud móveis que os especialistas acreditam que Saddam conseguiu ocultar - e que se teme que possam ser utilizados contra Israel. As tropas dos Estados Unidos se dirigirão rapidamente para os 1.500 poços de petróleo iraquianos a fim de impedir que Saddam os exploda, criando um Armageddon ambiental.

A maior parte do exército regular iraquiano de 357 mil homens provavelmente será isolada, à medida que colunas de forças terrestres do exército e dos fuzileiros navais, assim como tropas de pára-quedistas, se dirigirem a Bagdá e Tikrit, a terra natal de Saddam, a partir de bases no Kuait e na Turquia. Analistas militares dizem ser improvável que o exército regular iraquiano, composto de conscritos, opte por defender Saddam Hussein.

Forças terrestres e bombardeiros dos Estados Unidos se movimentarão para destruir qualquer fração da Guarda Republicana, que possui 100 mil homens, e da Guarda Republicana Especial, de 25 mil homens, que tente proteger Saddam Hussein. O ditador iraquiano costuma manter somente a Guarda Republicana Especial em Bagdá, mas analistas militares afirmam que Saddam provavelmente convocará unidades maiores da Guarda Republicana para a capital, a fim de atrair as forças dos Estados Unidos para uma difícil guerra urbana.

O ambicioso plano de guerra do Pentágono foi elaborado para tirar vantagem das novas armas e das novas formas de luta. A 4ª Divisão de Infantaria do Exército, por exemplo, instalou monitores de computador em todos os seus tanques e centros de comando, a fim de demonstrar a movimentação das forças inimigas no campo de batalha. Armados com uma visão nítida da localização dos tanques inimigos, os blindados norte-americanos poderão se mover de forma bem mais rápida e eficiente rumo ao campo de batalha.

Una outra novidade: a força aérea poderia utilizar uma bomba de 13,5 toneladas, conhecida como "Big Blu" (blu é o jargão militar para bomb live unit, que significa bomba ativa). Ela é tão grande que não pode ser transportada em qualquer bombardeiro dos Estados Unidos. O artefato precisa ser levado isoladamente em um avião de cargas. Caso seja detonada próxima a concentrações de forças iraquianas, poderia causar o mesmo efeito psicológico dos terríveis "carpet bombings" - o lançamento de bombas múltiplas sobre uma área determinada - feitos com bombardeiros B-52 em 1991, que desmoralizaram as tropas regulares do exército iraquiano.

"Creio que os iraquianos ficarão chocados com a intensidade do ataque", afirma Ralph Peters, um oficial do exército da reserva, que escreve com freqüência sobre as guerras modernas. "Vamos atacá-los com um poder de combate enorme."

Encontrar Saddam é uma tarefa difícil

Há poucos acontecimentos semelhantes com o tipo de guerra que o Pentágono pretende travar. Talvez a mais parecida tenha acontecido 14 anos atrás.

Em 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá para capturar o ditador Manuel Noriega e removê-lo do poder. Mas a invasão do Panamá - um país minúsculo onde os Estados Unidos já possuíam uma grande base militar - foi uma tarefa simples, se comparada à derrubada do homem forte do Iraque.

Desta vez as tropas norte-americanas serão incumbidas de localizar um líder evasivo, de esmagar o que restar das suas forças armadas, de limitar o uso de armas químicas e biológicas e de impedir que ocorra aquilo que pode vir a se transformar na maior catástrofe ambiental da história.

A maior parte dos analistas militares diz que uma vitória dos Estados Unidos é certa, embora advirtam que ela não será gratuita. O Pentágono se recusa a falar sobre o número potencial de baixas norte-americanas. Mas Kenneth Pollack, ex-analista da CIA e autor do livro "The Threatening Storm: The Case for Invading Iraq" ("Tempestade Ameaçadora: A Justificativa para Invadir o Iraque"), prevê que os Estados Unidos poderão perder de centenas a até 10 mil soldados.

Os analistas militares afirmam que derrotar as forças armadas de Saddam pode ser, na verdade, a meta mais fácil de ser atingida por meio da invasão. "Será difícil encontrar Saddam?", questiona Dave Grange, general da reserva. "Sim. Encontrar Noriega exigiu bastante tempo. Bin Laden ainda está à solta. É simplesmente muito difícil matar um líder."

Saddam teria recrutado vários sósias, ele dificilmente dorme no mesmo lugar e raramente é visto em público. Ele ainda contou com vários anos para preparar planos de fuga e rotas de escape.

Autoridades do governo Bush têm dito que a guerra poderia ser evitada caso Saddam deixasse o Iraque. Mas, tão logo comece o tiroteio, essa oferta poderia expirar. Peter, o oficial da reserva do exército, diz que o exílio não será uma opção disponível para Saddam Hussein em meio à guerra. "Não podemos permitir tal coisa", afirma. "Qualquer outro desfecho que não seja Saddam algemado ou morto não seria uma vitória."

Nos últimos meses, os Estados Unidos têm feito uma campanha incansável no sentido de persuadir iraquianos insatisfeitos a derrubar Saddam.

O Pentágono continua a lançar panfletos sobre o Iraque, dizendo ao exército regular de Saddam que suas unidades não serão atacadas, caso não ofereçam resistência à "libertação" do Iraque. Os Estados Unidos também identificaram elementos-chave que seriam responsáveis pela destruição de poços de petróleo e pela utilização de armas químicas contra tropas norte-americanas. Parte desses oficiais foi abordada pelo Pentágono, em alguns casos por correio eletrônico, tendo sido advertidos que correm o risco de serem julgados por crimes de guerra caso executem as ordens de Saddam, segundo disseram fontes do Departamento de Estado.

Fontes civis e militares afirmam que Saddam provavelmente instalou artefatos explosivos nos vastos campos de petróleo iraquianos - que ficam 400 quilômetros ao norte de Bagdá e em uma grande área no sul do Iraque - com o objetivo de destrui-los. Quando as tropas iraquianas foram expulsas do Kuait em 1991, colocaram fogo em dezenas de poços de petróleo, escurecendo o céu no Golfo Pérsico.

Chuck Horner, brigadeiro da reserva da força aérea que liderou a campanha de bombardeiros na Guerra do Golfo, diz esperar que os esforços norte-americanos de propaganda tenham resultados junto aos comandantes militares iraquianos, muitos dos quais detestam Saddam.

"Eu espero que os iraquianos enxerguem o quanto seria estúpido em longo prazo explodir os poços de petróleo. Se eu estivesse incumbido de colocar artefatos explosivos nos poços, realizaria um trabalho mal feito", diz Horner.


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Tradução: Danilo Fonseca

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