Estados Unidos montam coalizão distribuindo favores e dinheiro

Barbara Slavin


Washington - O presidente Bush não pára de advertir que, caso o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) não dê apoio a uma guerra contra o Iraque, ele montará uma "coalizão de voluntários" para depor Saddam Hussein. Porém, os mais de 24 países que deram algum apoio aos Estados Unidos são movidos por motivações complexas, que, em muitos casos, têm mais a ver com o objetivo de aplacar a única superpotência mundial - ou trocar o apoio por grandes quantias de ajuda financeira norte-americana - do que com um desejo de livrar o mundo de Saddam e das suas armas de destruição em massa.

Segundo Anthony Coresman, especialista em Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, essa é em grande parte uma coalizão de "não voluntários". O primeiro-ministro britânico Tony Blair, diz Cordesman, está entre os poucos membros desse grupo que age por convicção, e não "por um simples desejo de preservar um relacionamento especial com os Estados Unidos".

Membros-chave da coalizão, como a Turquia, estão exigindo pelo menos US$ 30 bilhões (cerca de R$ 107,64 bilhões) dos Estados Unidos em auxílio financeiro como preço por apoiar o governo norte-americano. Outros países da Europa Oriental e Central são gratos aos Estados Unidos pelo fato de Washington tê-los ajudado a se libertar do comunismo e querem garantir que serão membros da Otan. Pequenos Estados do Golfo Pérsico se juntaram à coalizão a fim de continuarem contando com as garantias de segurança dos Estados Unidos. E alguns países do Oriente Médio, como a Jordânia, precisam da ajuda financeira, das relações comerciais e da proteção dos Estados Unidos.

"É a coalizão dos países convencidos, dos preocupados e dos cooptados", diz Robert Hunter, ex-embaixador dos Estados Unidos junto à Otan.

Os membros do governo Bush se enfurecem com essa acusação. "Não é justo dizer que haja algo como propina envolvido nesses acordos", afirma uma autoridade graduada do Departamento de Estado. "A maior parte desses países se apresentou e tomou a atitude correta sem que contasse com qualquer indicação de recompensa econômica."

Mesmo assim, os analistas questionam o valor de uma coalizão, caso os membros-chave transmitam a impressão de terem sido comprados. Será que os membros vão permanecer juntos caso a guerra seja mais longa e complicada do que a curta campanha que a maioria espera? E o que dizer sobre o pós-guerra, quando os Estados Unidos poderão precisar arcar com bilhões de dólares extras para a reconstrução do Iraque? O mais perturbador para alguns críticos é o fato de a diplomacia truculenta do governo Bush ter fracassado em montar a ampla coalizão de aliados tradicionais que se formou para apoiar a campanha de 1990/1991 contra o Iraque.

"É uma mistura heterogênea", afirma Madeleine Albright, secretária de Estado durante a administração Clinton. "O que é realmente muito desastroso é o fato de a política do governo Bush para o Iraque ter conseguido tornar a dividir a Europa, quando um dos grandes pilares sobre os quais tentamos construir uma política foi o desejo da primeira administração Bush de contar com uma Europa unida e livre". A França e a Alemanha lideram a oposição a uma guerra contra o Iraque. As pesquisas de opinião pública nesses países e em todo o mundo demonstram um sentimento contra a guerra significativo e crescente. Até mesmo no Reino Unido, único país a oferecer um número substancial de tropas para uma campanha anti-Saddam, a maioria da população atualmente se opõe a uma ação militar.

A situação é bem diferente daquela de 1990, quando muitos países estavam ansiosos por se juntar aos Estados Unidos na tarefa de reverter a invasão e a ocupação do Kuait pelo Iraque.

Naquele ano, 34 nações se uniram em uma coalizão, incluindo o Reino Unido, a França e Estados árabes importantes como a Arábia Saudita, o Egito e a Síria, sendo que todos contribuíram com efetivos militares. Juntas, as nações que apoiaram os Estados Unidos mobilizaram 160 mil soldados, que representaram 24% do total de tropas, e pagaram 88% do custo total da guerra, que ficou em US$ 90 bilhões (cerca de R$ 323 bilhões).

Os EUA arcarão com quase toda a despesa

Desta vez, entretanto, ainda que haja uma outra resolução da ONU autorizando o uso da força, a maior parte da luta provavelmente será travada por tropas dos Estados Unidos, e a quase totalidade das despesas ficará por conta do contribuinte norte-americano.

A Turquia, por exemplo, provavelmente receberá mais de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 54 bilhões) em doações e garantias de empréstimos por permitir que as tropas dos Estados Unidos ataquem o Iraque a partir de seu solo. Israel está procurando obter US$ 12 bilhões (cerca de R$ 43 bilhões), além dos US$ 3 bilhões (cerca de R$ 10,76 bilhões) que são doados anualmente ao Estado judeu pelos norte-americanos. O Egito e a Jordânia também esperam acrescentar uma bolada maior à já substancial ajuda financeira que recebem de Washington.

Em muitos casos, os países estão buscando obter ajuda dos Estados Unidos para contrabalançar os efeitos de uma guerra que vai prejudicar os negócios e o turismo, que são fatores cruciais para as economias dessas regiões. Preocupações de ordem econômica, a opinião pública, dúvidas quanto à idéia de uma guerra preventiva e o ressentimento contra os Estados Unidos são fatores que se agregaram para fazer com que seja difícil contar com aliados. A guerra é tão polêmica que exigiu onze dias de cáusticas discussões na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para que fosse aprovado um auxílio defensivo para a Turquia, um membro da Otan. A aprovação só veio após Lord George Robertson, secretário-geral da Otan, ter executado uma manobra que deixou a França de fora da votação final.

Robertson observou em uma entrevista na semana passada que a Otan passou por discussões polêmicas também antes da Guerra do Golfo de 1991. Mas ele admitiu que a situação agora é diferente: "As emoções estão em um patamar muito elevado neste momento, e a opinião pública é muito volátil", afirmou.

E o que o governo Bush está obtendo em troca da dor-de-cabeça a que está se submetendo para formar uma coalizão? O subsecretário de Estado, Marc Grossman, disse à Comissão de Relações Exteriores do Senado, em 11 de fevereiro último, que 26 países teriam concordado em fornecer aos Estados Unidos algum tipo de apoio, e 19 estariam "envolvidos neste momento com planejamento militar direto sobre material bélico. Portanto, caso a guerra tenha que ser feita, creio que é importante que vocês e outras pessoas reconheçam que haverá outros países conosco".

O Departamento de Estado se recusou a fornecer uma lista de apoiadores ou a especificar a natureza das suas contribuições. "Cabe a eles falar sobre si", disse uma autoridade graduada do Departamento de Estado. "Não falamos sobre pessoas que não querem ser citadas."

Entre os que estão oferecendo apoio aos Estados Unidos estão:

  • Ex-países do bloco soviético na Europa Oriental. Polônia, República Tcheca e Hungria continuam sendo gratas aos Estados Unidos por ter vencido a Guerra Fria e apoiado o ingresso dessas nações na Otan, uma organização que, a seus olhos, lhes garante a independência e a segurança.
  • Dez outros antigos membros do bloco oriental, todos eles aspirantes à entrada para a Otan, também estão oferecendo suporte verbal e ajuda militar limitada: Albânia, Bulgária, Croácia, Estônia, Letônia, Lituânia, Macedônia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia.

    "Este é um período crítico de reestruturação de todo o conceito de segurança", afirma Elena Poptodorova, embaixadora búlgara nos Estados Unidos. A Bulgária foi convidada a se juntar à Otan no ano passado mas ainda necessita do apoio do Senado dos Estados Unidos e de outros membros da Otan. Poptodorova afirma que os países que apoiam a luta dos Estados Unidos contra o Iraque são "uma coalizão do futuro".

    Albright diz que as nações do antigo bloco oriental estão "tentando demonstrar a sua autenticidade como aliados dos norte-americanos". Mas ela diz que vários líderes também apóiam uma guerra potencial com o Iraque porque, como ex-vítimas de regimes ditatoriais, "realmente acreditam que tal atitude significa enfrentar o mal".

    Nações européias ocidentais conservadoras. Países como Espanha, Itália e Portugal têm governos conservadores, que são politicamente simpáticos à administração Bush.

    O primeiro-ministro espanhol, Jose Maria Aznar, por exemplo, é um neoconservador que compartilha de uma visão fundamentalista do mundo, do tipo certo-versus-errado, segundo analistas europeus. Os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos sensibilizaram Aznar, que tem que lidar na própria Espanha com ataques de separatistas bascos, e que sobreviveu a um atentado a bomba em 1995.

    O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi também tem demonstrado ser um inabalável aliado dos Estados Unidos, apesar da oposição no seu país à guerra contra o Iraque. Uma figura polêmica, que enfrenta acusações de estar envolvido com negócios escusos, Berlusconi encara a sua proximidade com Bush como parte de um esforço para se apresentar como um árbitro do poder global, dizem os italianos.

    A Espanha se juntou à Itália, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Dinamarca, Hungria e Polônia na assinatura de uma carta, publicada no "The Wall Street Journal" de 30 de janeiro deste ano, que reafirmava "a união real entre Estados Unidos e Europa" e garantia que o Iraque e suas armas "representam uma ameaça nítida à segurança mundial".

    Os vizinhos ao norte do Iraque. Para países como Turquia e Jordânia, os interesses econômicos superam tudo mais. Atualmente mergulhada em um atoleiro econômico, a Turquia perdeu bilhões de dólares em negócios e pagamento de dívidas advindos do Iraque após a Guerra do Golfo de 1991, e não é capaz de absorver mais prejuízos. A Turquia deseja ainda ter influência sobre o futuro do norte do Iraque, habitado pela etnia curda, a fim de impedir que a sua própria minoria curda se engaje em uma luta por maior autonomia. Embora autoridades turcas e norte-americanas tenham chegado a um acordo, ele ainda precisa ser aprovado pelo parlamento turco. Cordesman diz que Ancara vai acabar dizendo sim. "A Turquia está preocupada com um Iraque pós-Saddam e acredita que é melhor estar sentada à mesa do que ser servida no banquete", afirma.

    Pequenos Estados no Golfo Pérsico. Países como Kuait, Bahrein e Qatar encaram os Estados Unidos como um fiador da sua segurança contra grandes vizinhos: não só o Iraque, mas também o Irã e a Arábia Saudita.

    O pequeno Qatar cortejou os Estados Unidos ao construir uma pista aérea de cinco quilômetros, a maior na região, que está bem além das necessidades atuais ou futuras da sua força aérea de 12 aviões de caça. Quando os sauditas pareceram hesitar em permitir que forças dos Estados Unidos lançassem uma guerra contra o Iraque a partir de seu solo, o Pentágono imediatamente aceitou uma oferta no sentido de mudar a sede do seu Comando Central na região para o Campo As Sayliyah, nas imediações de Doha, capital de Qatar.

    Kuait, Israel e Reino Unido: avidez

    Dentre os mais ávidos apoiadores dos Estados Unidos estão o governo do Kuait, que não esqueceu como o Iraque saqueou o país em 1990 e 1991; Israel, que vê o Iraque como uma ameaça estratégica, e o Reino Unido governado por Tony Blair.

    Blair, que mobilizou um quarto do exército do seu país para uma possível guerra, tem visto o seu índice de aprovação popular despencar devido ao apoio incondicional ao governo Bush.

    Os opositores britânicos o chamam zombateiramente de "o poodle de Bush", e cerca de um milhão de pessoas protestaram contra a guerra no início do mês, na maior manifestação desse tipo da história do país.

    "É nisso que acredito e é isso que creio ser o correto", disse Blair em uma recente entrevista coletiva à imprensa. "Há situações na política em que você precisa fazer manobras para contornar obstáculos. Mas há outras situações em que é necessário fazer aquilo em que se acredita".


    Tradução: Danilo Fonseca
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